Essa coisa chamada memória

   Por mais que possamos nos conscientizar da necessária impermanência das coisas, vamos sempre nos debater teimosamente na intenção de segurar em nós o que já foi, o que já não existe. Isso porque temos, na condição de seres humanos, essa coisa chamada memória. O apego é, portanto, filho de nossos registros mnêmicos; ele é o grande inimigo das mortes.

   Todas as mortes são a condição indispensável para a eternidade da essência.  A essência única universal se faz perene pela inexorável sucessão de mortes seguidas por renascimentos ao longo dos séculos. Tudo que existe no mundo das formas precisa morrer e renascer o tempo todo para garantir sua eternidade.

   O apego, portanto, se baseia numa ilusão, e essa ilusão se dá pela nossa incapacidade de ver, por trás das aparentes estabilidades, o movimento constante das pequenas mortes que redundarão, no seu devido tempo, numa morte maior e aparentemente definitiva.

   Aparentemente definitiva, pois a morte absoluta não pode existir, já que a essência não morre.

   A essência não morre, mas, para nós, seres amarrados ao passado por essa coisa chamada memória, tudo termina em luto.

   Luto por um colo que se perdeu, por uma infância que se perdeu, por uma avó, por uma mãe e por um pai, pela casa, pelo quintal da vovó, pelo amigo, pelo amor que se foi.

   Mas tudo isso são apenas momentos do processo perene de transformação, que se expressa em mortes e renascimentos impossíveis de segurar.

   Por isso, é impossível enterrar alguém que morreu. O que se enterra é apenas a sua casca.

O que é felicidade pra você?

Considero que todos nós, em alguma medida, tendemos a interpretar mal o sentido da palavra felicidade. O mais das vezes ela é vista como algo pelo qual precisamos lutar para alcançar e que se encontra fora (e muitas vezes longe) de nós.

   Partindo desse pressuposto (de que a felicidade é algo que está fora de nós), seria ela um contentamento alcançado pela conquista de um grande amor? Ou pela conquista de uma posição social relevante? Ou pela aquisição de um carro de luxo, uma bela casa, um iate? Ou mesmo o contentamento por se ter boa saúde?

   É preciso se acostumar com a ideia de que felicidade é uma condição da alma que alcançamos pela evolução de nossa consciência. Acrescente-se aqui que a evolução da consciência não se consegue com uma montanha de diplomas, embora os diplomas sejam bem-vindos. Uma consciência evoluída pode se encontrar até mesmo numa pessoa analfabeta.

   Uma pessoa que alcançou tal nível de evolução da consciência sabe que a felicidade é condição prévia para alcançar o que se deseja, e não o contrário. Ou seja: não são nossas conquistas que nos proporcionam a verdadeira felicidade, é o estado de felicidade de nossa alma que nos sintoniza com o que almejamos.

   A alma feliz nutre pensamentos e sentimentos positivos que nos sintonizam com o bem universal. Pessoas infelizes, que nutrem pensamentos e sentimentos negativos não podem, mesmo a poder de muita oração ou rezas, entrar em sintonia com o manancial de benesses que se encontram a nossa disposição nos domínios da inteligência universal, que os físicos chamam de Princípio Antrópico Forte, e que eu não tenho vergonha de chamar de Deus.

   A palavra-chave é sintonia. Tudo no universo se interliga por meio de ondas energéticas. Sintonizar-se com o bem exige, portanto, ter o bem previamente dentro de si. Ondas de tristeza, ódio, medo etc. não podem se sintonizar com nada que preste!

   Pessoas felizes não são felizes porque conquistaram o que desejavam: elas conquistaram o que desejavam porque são felizes.

   Pelo exposto, podemos deduzir, por outro lado, que o estado prévio de felicidade das almas evoluídas elimina a necessidade de se buscarem coisas externas na esperança de preencher um vazio existencial. Logo, pessoas felizes alcançam o que desejam, mas não creio que elas lutem por grandes posses ou posições sociais relevantes. Se estas chegarem a elas, saberão da responsabilidade de seu uso em prol do bem. Também saberão de seu caráter circunstancial e transitório.

   Se você ganhar alguns milhões na loteria, alegre-se, comemore. Mas não confunda essa alegria com a verdadeira felicidade, que, suponho, é conquista interior de almas evoluídas. Suponho apenas, pois ainda busco essa evolução.

VOU CHAMAR DE LUGAR, MAS PODE SER QUE MUDE, de Ricardo Rachid

Gostaria de falar sobre a poesia de Ricardo Bahia Rachid, após ter lido seu livro VOU CHAMAR DE LUGAR, MAS PODE SER QUE MUDE. Mas temo que meu verbo tosco macule a beleza de sua arte. Por isso me limito a reproduzir aqui fragmentos do que li.

Num dos cantos de dentro:

“pela primeira vez,

respirei fundo a música

da água

e voei feito um peixe

na transparência do dia.”

Num dos cantos de fora:

“sob as videiras,

A Vênus de Milo bebe o pôr-do-sol.

Você, um café.”

Num dos cantos de todo homem, um

Regresso

fazer a mala,

acomodar a alegria,

como quem parte de volta,

carregando nuvens.

desfazê-la, peça a peça,

pedra a pedra,

descalçando as lembranças.

sem pressa, as paisagens

ainda cantam o som

das ondas roçando a pele

de quem quis ficar.

lavar a poeira,

sem limpar a saudade do corpo.”

Sobre o conto BICHO DA NOITE

“O Tadeu, quando bebia, pegava a falar pelos cotovelos. Quando sóbrio, mal se dirigia às pessoas. Todo mundo em São José conhecia seu jeito esquisito.  Quando, após umas e outras, começava a dizer que ia matar, fazer e acontecer, ninguém o levava a sério.

   Mas nos últimos tempos a população estava assustada. Assassinatos ocorriam na calada da noite. Cada cidadão agora era um detetive. Alguns, também suspeitos.

   Um deles era o pobre do Tadeu, devido à mania falar bobagens quando bebia. O delegado torrava os neurônios dia e noite, tentando desvendar o mistério.

   Havia outros suspeitos. Um deles, o próprio prefeito. Precisava, diziam as más línguas, justificar a construção – já apalavrada com uma empresa do ramo – de um novo cemitério. Era necessário que morresse mais gente no município. O vereador de oposição Chico Pereira, amigo, por sinal, do Tadeu, era um dos que defendiam essa tese. Muitas vezes bebiam juntos ele e o Tadeu, e o assunto dos dois – como, aliás, de toda a cidade – eram as mortes cada vez mais frequentes.

   Os que defendiam o prefeito acusavam Chico Pereira. Diziam que este, para incriminar o chefe do executivo, usava o pobre do Tadeu para perpetrar aqueles crimes. Afinal, afirmavam, o Tadeu só falava de morte e violência. Ninguém em São José podia ser mais assassino do que ele!…”

(Trecho do último timo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)

Sobre o conto RATO DE ESTIMAÇÃO

“Um animal monstruoso assustava os moradores. As pessoas iam à delegacia pedir ajuda.  O monstro de olhos brilhantes entrava nos quintais, atacava as galinhas, estragava tudo. Os policiais saíam à caça do bicho, mas voltavam desapontados.

   Tudo começou com uma história de solidão. Sô Juquinha, homem de seus oitenta anos, miúdo, gago e triste, vivia num canto esquecido daquelas paragens.  A cidade ficava a poucas léguas dali, mas ele raramente ia até lá. Tinha preguiça das pessoas. Sua gagueira também não ajudava. Antigamente, tentava vencer aquele empecilho, esforçava-se, firmava a voz, endireitava o corpo miúdo, tentava olhar as pessoas nos olhos. Mas foi perdendo a esperança não só de vencer a gagueira, também de conquistar a Terezinha.  Ela sempre zombava dele, imitando-o. Depois entrava em casa às gargalhadas. Ele recolhia os cacos de sua autoestima e retornava para a casinha de sô Zeca e dona Margarida, seus pais.

   O tempo passou, Terezinha se casou, teve filhos, mudou-se para outra cidade…”

(Décimo quarto conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)

Sobre o conto CARTAS VIRGENS

“De vez em quando pego a estrada. Saio atrás de sossego em pequenas cidades. Foi assim que fui parar em Campo Morto.

      Achei a venda de sô Norberto. Entrei, cumprimentei e pedi uma cerveja.

   Todos os olhos se voltaram pra mim.

   – O amigo é da capital, não é? – Quis saber sô Norberto, um metro e noventa, barriga protuberante. Como os demais, sorria curioso e zombeteiro.

   – Sim, respondi. Muito prazer, meu nome é Bruno.

   – E o que veio fazer neste fim de mundo, Bruno?

   – Vim na esperança de ouvir histórias, sô Norberto… É esse mesmo o seu nome, não?

   – Sim, para servi-lo, amigo. Então você é um pesquisador, algo assim… Ou é da polícia?

   – Ah, não, sô Norberto – respondi rindo. Digamos que sou um curioso a respeito da alma humana. Por isso gosto de ouvir histórias.

   – Mas na capital deve haver muito mais histórias interessantes, Bruno.

   – Talvez, sô Norberto, talvez…  Já estão muito repetidas.

   – Tá certo, Bruno. Mas em Campo Morto eu não sei, não. Aqui não acontece nada interessante. As pessoas vão levando sua vidinha em preto e branco. O dia quase sempre acaba como começou. Aí, de vez em quando os sinos da igreja anunciam uma morte. E é então que a gente pensa um pouco sobre aquela vida que se foi. Descobre que nela não aconteceu nada. O sujeito nasce, cresce, vive, tem filhos, envelhece, adoece e morre. Só isso, Bruno.

   – Mas, sô Norberto, se a gente chegar um pouco mais perto de uma vidinha dessas, pode descobrir que lá dentro, no fundo de sua alma, existem sonhos, esperanças, angústias, dores, alegrias, segredos… Uma história interessante..)

(Vigésimo terceiro conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)

Sobre o conto RECONSTRUÇÃO

“A rotunda figura do Amauri dobrou a esquina e desapareceu da paisagem tristonha. Fim de tarde de um domingo quente, quieto, sufocante. A rua em que morava era arborizada e plácida. Tanta placidez, no entanto, só aumentava sua angústia. Tinha o coração sedento não sabia de quê.

   Ele se sentia um balão prestes a explodir, pois vivia cheio de nada. Foi para o bar do Eugênio.

   – Uísque duplo, Eugênio – nem mesmo cumprimentou os amigos, que ocupavam mesa à parte.

   – O homem hoje não tá pra muita prosa, hein – disse um deles, o Edmar.

   – O time dele perdeu – observou o Cléber.

   – Nada! Ele não liga pra isso. Aliás, não anda bem. Tenho notado.

   O Amauri percebeu que falavam dele e os encarou com uma expressão amargurada. Ambos ergueram os copos em sua direção. O gesto era um cumprimento mudo, mas também demonstração de respeito para com o silêncio do amigo.

   Bebeu a primeira dose e pediu a segunda. Sentado numa das banquetas, olhava a todo instante para os outros dois. Queria falar-lhes, mas também queria…”

(Vigésimo segundo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)

Sobre o conto PELOTA DE NUVEM

“Saiu de casa às cinco da manhã. Não conseguira dormir. Um vazio o enchia de um nada incômodo. Pôs no ombro uma mochila com alguns víveres e partiu.

   Tinha mais de quarenta anos. Vivia sozinho na casa herdada. Sobrevivia do artesanato.

   Deixou a área urbana e entrou numa estrada de terra. Era impulsionado por um anseio irresistível.

   Três horas depois, parou para descansar. Perguntava-se por que saíra aquela manhã. Comeu da merenda que levava e desceu até o regato para se refrescar e matar a sede. Voltou e se sentou à sombra de uma árvore. O que procuro? – Indagava-se. Há muito tempo deixara de sonhar. Agora seguia em busca de algo que seu espírito não identificava.

   Autoconhecimento? Sabedoria? Bobagem – concluía. Há muito tempo já não quero saber quem sou. E essa história de sabedoria é outra bobagem. Me distraio com artesanato, é o suficiente. Se bem que às vezes… E nesse ponto se lembrava dos seus amores frustrados. Afastava o pensamento enxerido. Voltava a se perguntar por que não dormira à noite e se levantara tão cedo para aquela jornada.

   O pensamento enxerido insistiu. Isso também era inusitado. Havia anos que se considerava adaptado à vida solitária. Raramente se lembrava dos antigos amores. Incomodado, tentou combater o intruso. Seguiu caminhando. O Sol no meio do céu, o calor aumentava. Preferiu andar junto à margem do regato”

(Vigésimo primeiro conto de BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)

Sobre o conto UMA PLUMA NO ABISMO

“Maurício estava eufórico. Seria vitorioso, diziam-lhe os amigos. Melhor ator, diretor e autor de teatro. Caso acontecesse, quando se repetiria?

    – Quero parar no auge, Roberto. Se tiver essa tripla vitória, encerro a carreira.

    – Ficou maluco, cara!

    – Não é maluquice, é sobriedade. Tenho sessenta anos. Estarei pleno, caso consiga os prêmios.

    – Você pirou. Um ator sóbrio e saudável pensa em tudo na vida, menos em botar fim numa carreira que começa a deslanchar.

    – Roberto, a filosofia oriental nos ensina que a toda plenitude se segue um esvaziamento, um declínio. É lei universal. Vou desafiar essa lei, parando no auge.       

     Chegou antes de todos ao teatro. Percorreu a grande sala, caminhou entre as cadeiras, sentou-se numa delas. Imaginou sua peça sendo apresentada. Viu a si próprio no papel de protagonista. Foi ao palco. Imaginou a plateia, de pé, aclamando-o.  A glória se avizinhava.

     Tudo ocorreu como esperado. Levou os prêmios de melhor ator e melhor diretor. Uma pluma no abismo, de sua autoria, foi eleita a melhor peça.

     Foi para casa. Felicidade, plenitude. Não me falta mais nada, pensou, tonto de alegria.

     Abriu o champanhe, que comprara em segredo, e fez um brinde à vida. 

     Não pode haver felicidade maior – exclamou.”

(Vigésimo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser publicado em breve)

Sobre o conto VAZIO DENSO

“Esta quarentena tem me deixado estranho, confuso, meio amalucado. Às vezes fico acabrunhado, sem ânimo para o que quer que seja. Outras vezes me pego às gargalhadas sem nenhum motivo. Me olho no espelho e dou de cara com a cara de um cara muito maluco, os olhos vidrados e rindo a valer!

   Moro sozinho há vários anos, solidão pra mim não chega a ser propriamente um problema. Acontece, porém, que agora sou um prisioneiro. É diferente. Ando de um lado para o outro dentro de casa. Tento ler, mas a rua me chama… A rua me chama e eu não posso ir!

   A insônia também me pega no meio da noite. Fico pensando na quarentena, no Coronavírus, na dúvida se vai ter vacina ou não… Deixo a cama, busco um livro na estante. Mas nem Machado nem Dostoiévski… Nem mesmo o Rosa tem sido capaz de me arrancar deste imenso vazio que tem preenchido todo o meu ser.

   Mas vamos ao que quero contar. Eu não tinha ideia das horas. Devia ser umas três da manhã. Saí pela rua, assim, sem mais nem menos. Nem mesmo me lembrei de fechar o portão.  Buscava algo, mas não sabia o quê. Só sabia que precisava me livrar. De quê? Também não sabia. Um grilhão indefinível apertava-me. Um sufocamento. Uma revolta. Um querer indistinto. Uma falta. Aquele vazio denso ameaçava explodir.)

(Décimo nono conto do livro BRASA TEIMOSA)