Era uma sexta-feira cinzenta, da cor do pó que eu sacudia do meu espírito. Meu coração ainda estava encolhido, com medo de ser atingido em sua pele fina, que ainda sangrava.
Foi quando surgiu a Beatriz. O corpo, o cabelo, a pele, os olhos negros, misteriosos, de um brilho de lua, o sorriso que diz “você está perdido” – tudo me lembrava a outra, aquela cujo nome eu não deveria dizer aqui, agora que não trago comigo o roteiro dos melhores caminhos do paraíso infernal pelos quais ela me levava, puxando-me pela mão. Mas vou dizer: Ana Lúcia.
Pra mim, essa Beatriz era a Ana Lúcia. Sabia que não era. Mas quis que fosse. E eu já estava na quarta dose. Como vi que era puta, pensei: vou tratá-la como se fosse uma princesa.
– Aceita um drinque?
– Obrigada, respondeu, e veio rebolando. Uma bela bunda. Sentou-se.
– Primeira pergunta: seu nome?
– Beatriz.
– Ah…
– Que cara é essa, não gostou do meu nome?
– Não, é que… Bem, só faltava você se chamar… Deixa pra lá.
Não sei quanto tempo e quantas doses depois deixamos o bar e fomos para o meu apartamento.
Depois do sexo, ela, deitada e olhos no teto, tetas ainda úmidas dos meus lábios, indagou:
– Há quanto tempo está sozinho?
– Há mais ou menos um século, desde que a… desde que uma pessoa me deixou, há um mês.
– Foi bom transar comigo?
– Você é um espetáculo na cama, tanto quanto ela.
– Então esquece ela e fica comigo.
– Nunca!
– Por quê?
– Ora, que pergunta!
– Ah, desculpe; esqueci que sou puta… – ironizou.
– Chega, Beatriz! – gritei, às duas da manhã.
– Sabe por que sou puta?
– Ahn…
– Porque fui tratada como puta pelo único homem que eu amei.
– Mentira!
– Verdade! Ele me enfiava aquela coisa às pressas, duas vezes por semana, e no fim do mês me passava a metade do seu salário. Eu queria um toque, uma palavra, uma pausa para olharmos juntos a mesma paisagem. Mas ele só queria financiar duas trepadas semanais. Hoje ganho mais e ainda saio com homens como você. E não adianta bancar o durão. Você é doce. Doce até quando me enfia esses olhos perfurantes…
– “Perfurantes!…” Você não pode beber – eu respondi numa risada um pouco ríspida.
– Perfurantes, sim. Cadê meu coração, onde você o escondeu?
– Não quero saber de seu coração, quero saber de sua… você sabe.
– Você pagou por ela e levou de graça o coração.
– Uma puta inspiradíssima…
– Não me chame mais de puta – berrou ela, às duas e pouco da manhã, no meu apartamento de terceiro andar.
– Escute aqui, Beatriz, ou seja qual for o seu nome, eu disse, fuzilando-a com olhos que eu pretendia raivosos: você é puta, e eu só trouxe você aqui porque você é puta.
– Idiota! Esqueça essa Ana Lúcia!
Saltei da cama e me pus de pé, com a destreza de um gato, que eu conservava com barriga e tudo, aos quarenta e cinco.
– Como você sabe o nome dela?!
– Sou vizinha dela, idiota!
– Então você…
– Não, só sei onde ela mora e o nome.
– Então você também mora no Caiçara?
– Moro.
– E não é puta…
– Não sou.
– Mas…
– A parte do meu casamento é verdade. O sacana só queria dar uma de vez em quando. Separamos. Também eu nunca o amei como tinha dito. Moro sozinha, como você. Sei que pareço com sua ex-namorada. Ela nunca me viu, pois moro lá há pouco tempo.
– Mas…
– Segui você de táxi. Faz um mês que você não sai…
– E como sabe que não saio há um mês, se eu moro aqui em Santa Teresa?
– Sei muito mais de você do que imagina, Rogério…
– E sabe meu nome! Você me assusta… Quem é você, afinal?
– Calma, Rogério.
– E você não trabalha, não faz nada?
– Trabalho em casa. Sou taróloga.
Nesse ponto eu não pude reprimir uma amarga risada.
– Ria, se quiser. Mas não sou nenhuma ignorante, já fiz três cursos universitários, o último deles, Filosofia.
– Não brinca…
– Depois da Filosofia, senti um buraco se abrindo em meu espírito, e esse buraco…
– Não quero saber desse tipo de buraco…
– Espera: depois a gente desce ao seu nível, que às vezes também é interessante. Por enquanto, escuta. Depois da Filosofia, o buraco se abriu e eu caí nele. No fundo desse buraco uma luz se acendeu e esclareceu meu patético coração. Durante um tempo, flutuei sobre meu próprio mundo e também sobre o mundo das outras pessoas.
– Flutuou, bisbilhotando filosoficamente…
– Não é nada disso…
– Chega, Beatriz!
– Você tem razão. Bebeu demais hoje. É bobagem eu falar sério.
– Isso mesmo. Agora me diga: Quem é você, afinal, seu nome verdadeiro, de onde me conhece…
– Tem certeza de que nunca tinha me visto, Rogério?
– Tenho.
– Posso dormir aqui esta noite?
– Pode. Mas qual é o seu nome?
– Depois eu digo.
Ela se levantou, escolheu um CD e colocou para tocar. Foi ao banheiro, e eu não vi quando voltou. A música muito suave me fez adormecer.
Quando acordei, por volta das oito, senti cheiro de café. Minha cabeça doía intensamente. Ergui-me lento e fui ao banheiro. Tomei uma ducha, procurei um comprimido que engoli a seco e fui me vestir. Logo depois, à mesa, estava ela, cabelos úmidos, penteados, perfumada, sorridente. Me aguardava. Como se parecia com Ana Lúcia!
Mas foi aí então que eu vi bem. “Meus Deus!” – exclamei.
– O que foi? – ela indagou, com os olhos muito abertos.
– Você, Luísa?!
– Eu mesma. Senta aqui, que eu te conto tudo.
Luísa mudara tanto depois dos doze anos! Meu primeiro amor, que eu deixei na adolescência, em São Gonçalo, para procurá-lo mais tarde em mulheres como Ana Lúcia. E ela, Luísa, sempre a me acompanhar, de longe, confiante no poder do destino.
Abriu a bolsa e dela retirou um maço de cartas. Embaralhou e pediu que eu cortasse três vezes.
Hoje somos marido e mulher.
Compreendi afinal por que a vida toda eu só havia gostado de mulheres com aquele tipo de olhos – os olhos de Luísa, que me haviam prendido para sempre. Uns olhos negros, misteriosos, de um brilho de lua…
(Conto publicado no meu livro A ALJAVA DE CUPIDO)
Aguarde meu próximo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, a ser lançado em breve pela Páginas Editra.

