A ODISSEIA DE NICOLE

Seu Túlio decidiu: olha, Marieta, a cachorra não pode mais ficar com a gente. Daqui a uns dias a gente se muda desta casa, e em apartamento não dá pra ter cachorro. Eu sei que a Gabriela vai ficar triste, mas não tem outro jeito.

Dona Marieta ainda quis argumentar em favor da filha, e também da cadela Nicole, que adorava a moça. Mas Seu Túlio não transigiu.

Puseram então a pobrezinha numa caminhonete e a levaram para a fazenda do primo Jorge, muitas centenas de quilômetros dali. A Gabriela gostava demais da cadela, e seu coração ficou espremidinho dentro do peito quando ela se debruçou na janela para ver pela última vez Nicole, cujos olhos tristonhos a fitavam enquanto ia se afastando até dobrar a esquina.

A viagem durou mais de um dia. O motorista, que era também o caseiro do primo Jorge, precisou pernoitar em uma pousada e mal pôde pregar os olhos devido aos ganidos agoniados de Nicole. Ela passou a noite presa num cercadinho de tela no fundo de um quintal existente ali. Ao longo da jornada, ele cuidou para que ela não tivesse fome nem sede, mas ela sempre latia com os olhos voltados insistentemente para as paisagens que iam ficando para trás.

Na fazenda ela foi presenteada com um belo canil, especialmente construído para recebê-la. Ali teria água e alimentos com fartura.

Mas seguia latindo e ganindo. Quando pegava no sono, parecia sonhar com a antiga casa, com Gabriela, talvez até com o gatinho malhado com quem costumava ter algumas escaramuças. O primo Jorge às vezes presenciava esses seus supostos sonhos no meio da tarde e dizia para a mulher: “Olha lá, Margarete, parece que a Nicole tá sonhando, coitadinha. Tá com a carinha alegre e o rabinho balançando.”

Certa manhã Nicole conseguiu escapar. Não devia ter uma ideia clara do caminho que teria que percorrer até chegar à velha casa onde vivera com Gabriela e os pais desta, a tamanha distância dali. Mas se pôs a caminho sem nenhuma hesitação, porque cachorro é assim: o coração manda, ele obedece. É simples: eu quero ir, eu vou! Ela devia ter certeza da direção a seguir, porque o coração se alegrava. Se mudasse de rota, o coração iria se entristecer, fazendo com que ela corrigisse o rumo. Mas cachorro não tem dúvidas, cachorro tem instinto, olfato e pernas para correr. Seguiu, portanto, o seu coraçãozinho saudoso e valente e começou a dobrar colinas e mais colinas.

Às vezes parava para saciar a sede em algum regato, para logo em seguida prosseguir sem descanso, pelo menos enquanto pôde. Depois veio o cansaço, e ela se deitou à sombra de um arbusto para um breve sono.

Quando acordou, percebeu que tinha fome. Nunca havia precisado caçar, mas não foi tão difícil acordar dentro de si essa caçadora que dormia em seu DNA. Devorou o primeiro nhambu que vislumbrou entre as folhagens e botou de novo o pé na estrada.

Muitas outras vezes teve de caçar; numa dessas ocasiões teve de disputar a caça com um cachorro-do-mato ou outro bicho parecido. Caçava aves e também roedores como preás e uns ratões esquisitos. O que vinha ela traçava, pois precisava ter forças para seguir em frente.

Já havia viajado por muitos dias quando, certa tarde, enquanto dormia debaixo de um arbusto, como era seu costume, foi despertada por um nariz gelado que a cheirava. Ergueu meio corpo para encarar o intruso e deu de cara com um bicho fedorento, do focinho cumprido e afilado; parecia um cão. Mas não, não era; era um lobo. Ela não gostou da presença dele e resolveu prosseguir em sua jornada. Ele, contudo, passou a segui-la. Mas ela, por sorte, deixou a mata e passou a caminhar em uma rodovia. O bicho desistiu de segui-la.

Algumas horas depois, entrou em uma cidade. Em sua jornada já havia atravessado várias, mas dessa vez algo diferente ocorria: alguns cães começaram a segui-la. O primeiro veio e cheirou-lhe o corpo, começando pelo focinho e em seguida buscando outras áreas, para finalmente chegar às partes mais “interessantes”. Os outros seguiram o mesmo ritual e, é claro, houve muita confusão, rosnados, mordidas, etc. O próprio lobo a teria seguido caso ela não entrasse por acaso na rodovia. Nicole estava no cio.

E outros cães foram se juntando ao seu séquito, e dali em diante cada cidade ou lugarejo em que ela entrava fornecia mais e mais cachorros que iam sendo acrescentados à fila de machos que se candidatavam a pais de seus futuros filhotes. Em pouco tempo já eram mais de cem. E os dias se seguiam e outros iam se juntando. Os mais sortudos conseguiam fazer sexo com ela mais de uma vez, enquanto outros nem mesmo conseguiam se aproximar para uma cheiradinha.

Quando se cansavam, paravam, juntamente com Nicole, para o descanso e também para comer. Caçavam, mas, como não havia caça para todos, sempre havia disputas, e os mais fortes sempre tomavam o alimento dos mais fracos. Estes acabavam sendo derrotados pela fome e o cansaço e desistiam da cadela. Mas sempre iam se juntando outros, de modo que, dias depois, já somavam cerca de oitocentos. Um desses oitocentos era Rex, um vira-lata metido a pastor alemão, que ignorou os apelos de seu dono e resolveu seguir Nicole durante toda a sua jornada.

Atravessavam cidades, arraiais, campos, matas. Nicole e seus oitocentos e tantos seguidores. Certa vez atravessaram a avenida principal de uma grande cidade, e a cena foi memorável. Aconteceu de ser dia sete de setembro. Preparavam a avenida para os desfiles. Já estavam acertando os últimos preparativos para a entrada de colegiais, militares e outros participantes que marchariam ao longo daquela importante via pública. As arquibancadas já estavam repletas de espectadores. Nicole, displicente, resolveu passar por ali sem nenhuma cerimônia, seguida, é claro, de seus oitocentos e tantos namorados. Grande parte da plateia entendeu que aquele desfile inusitado fazia parte da festa, uma surpresa, talvez, preparada pelo prefeito. Uns riam, outros aplaudiam, e Nicole seguia imperturbável à frente dos outros cães. Mais tarde o boquiaberto prefeito não soube o que dizer ao batalhão de repórteres que o assediavam.

Aos poucos, porém, à medida que Nicole avançava em sua busca incansável de seu antigo lar, o número de cães que a seguiam foi diminuindo. De oitocentos, ficaram uns duzentos, depois uns cinquenta, dez… Nicole não estava mais no cio. E já estava bastante grávida. Muito grávida. Grávida demais. Dos dez últimos, restou apenas um: Rex, o vira-lata metido a pastor alemão, provável pai de uns dois ou três dos vários filhotes que ela teria em breve. Rex não quis deixá-la. Parecia apaixonado por ela.

E finalmente os dois chegaram à velha casa de Seu Túlio. Como se tivesse saído dali um dia antes – porque talvez cachorro seja mesmo assim – Nicole passou por uma abertura do portão e se dirigiu diretamente para a porta da cozinha, onde sempre encontrava Dona Marieta. Lá fora ficou o Rex, que não conseguia passar na pequena abertura do portão.

Mas Nicole não encontrou Dona Marieta, nem Seu Túlio, nem Gabriela; nem mesmo o gatinho malhado. Percorreu toda a casa e viu que ela estava vazia. Nenhum móvel, quadros, nada! Foi para o quintal com o rabinho entre as pernas e se acomodou no velho canil, mas aparentemente sem nenhuma saudade. Triste, sim. Magoada talvez. Não parecia se lembrar de Rex, até que ouviu os seus latidos lá fora. Latiu de volta, um pouquinho. Voltou a descansar o focinho sobre as patinhas, os olhinhos fechados.

Os muros naquela época não eram muito altos. Rex conseguiu saltar e passar para o lado de dentro e foi se acomodar também ao lado dela.

Mas o descanso de Rex foi curto. Resolveu sair. Nicole ensaiou acompanhá-lo, mas acabou permanecendo onde estava. Meia hora depois ele voltou. Trazia na boca o jantar: um frango caipira ainda meio vivo, que ele apanhara distraído em algum quintal ali perto. Aproximou-se dela, todo marido, e depôs ao seu lado a caça.

E não se separaram mais. Donos absolutos da casa abandonada. Nicole, contudo, não desistira de reencontrar seus donos. Mas estava grávida, muito grávida, e era preciso parir primeiro e esperar os meninos, ou melhor, os filhotes crescerem um pouco. O que, aliás, não levou tanto tempo assim.

Certa manhã, às sete e pouco, Gabriela deixou a cama, espreguiçou-se e, pouco antes de abrir a janela do seu quarto, como era seu costume, no apartamento onde agora morava com os pais, ouviu uns latidinhos finos. Pensou reconhecer aqueles latidos, ainda que sem se lembrar de pronto da cadela, e foi ver o que era. Lá estavam: Nicole, o marido Rex e seus nove filhotes.

(Do meu livro a aljava de cupido, publicado em 2016)

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguardem data e local do lançamento!

Foto por Taryn Elliott em Pexels.com

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Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

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