AS MARIAS DE ARTUR

Mais um de meus contos:

Branquinho, cabelos louros, bochechas rosadas, do alto de seus seis anos e pouco, o pequeno Artur cruzou pela primeira vez o portão da escola, aferrando-se à mão de dona Marina, sua mãe. Naquele exato instante se iniciava sua vida de obrigações e sustos. Chorou e soluçou, implorando a dona Marina que não o deixasse ali, entregue a um mundo estranho.

Filho único, seu mundo fora até então um tiquinho à toa de mundo: um pai que aparecia de vez em quando, uma mãe calada e triste, uma casinha triste com um terreirinho triste, isolada num canto de bairro triste, um cãozinho triste, e, do outro lado da rua, outra casinha, também isolada e triste, em cuja janela uma vizinha de seus duzentos anos – cálculos feitos pelo pequeno Artur – botava de vez em quando sua carinha, descorada e triste, para ver se haveria alguma coisa para ser vista numa rua onde nunca se via nada.

Pela primeira vez, portanto, o pequeno Artur via pessoas diferentes. A professora era elegante e cheirosa, mas metia medo por causa dos olhos rígidos atrás dos pesados óculos. Alguns meninos o encaravam curiosos, como se ele fosse um extraterrestre. Precisaram, contudo, de poucos minutos para começar a chamá-lo de macarrão, por ser muito branco. Reagiu distribuindo tapas – os olhos de um felino enraivecido, lágrimas brotando e rolando quentes sobre as faces rubras. Reagira assim apenas por não conhecer outro tipo de reação. Não sabia conviver, não reconhecia o mundo.

Com o passar dos dias, contudo, foi se acostumando às esquisitices daquele mundo recém-conhecido. Ficou até amigo do Betinho e do Pardal. No recreio merendava com eles, brincava, brigava…

Ah, e também conheceu o amor. Ou não era amor aquele calorzinho gostoso que ele sentia no peito toda vez que chegava perto da Maria Cecília? Quem disse que não era amor ficar relembrando a vozinha de cristal da Maria Cecília toda noite, depois que se deitava? Por que não seria amor teimar com a mãe, dizendo que “hoje não é sábado não, mãe, hoje tem aula sim!”, só porque necessitava avistar, mesmo que de longe, as madeixas louras da Maria Cecília?

Mas a Maria Cecília não ligava pra ele. Esnobava-o. E ele sofria. Um coraçãozinho de seis anos e pouco sofrendo por um amor não correspondido. Ela parecia preferir o Renato, menino feio e que tinha até chulé! Ele voltava triste pra casa, torcendo pra que dona Marina não lhe perguntasse a razão daquele desânimo; por sorte dona Marina nunca lhe perguntava nada. Mãe triste, casa triste, bairro triste, cachorro triste… Tudo triste. Por que alguém lhe notaria a tristeza? Mas é que nos primeiros dias, logo que começou a sentir aquele calorzinho gostoso, ele estivera alegre. Dona Marina, contudo, não chegara a notar nenhuma diferença.

E à noite ele chorava em silêncio até dormir.

Amou e sofreu por Maria Cecília até os dez anos, quando mudou de escola. Lá conheceu Maria Clara (só dava Maria naquele tempo) e de novo se apaixonou. De novo sofreu. Quem gostava dele era a esquisita da Maria Teresa, dentuça e fanhosa.

Aos doze anos foi a vez da Virgínia, que não era Maria, mas que nem por isso deixou de divertir-se à custa do esquisito Artur. Sim, ele era um menino esquisito – era o que todas as meninas diziam. “Fala esquisito, anda esquisito, olha esquisito – esse menino é todo esquisito!”

Coitado, era esquisito mesmo. Tímido demais, andava olhando pro chão, com seus óculos fundo-de-garrafa; andando, balançava demais os braços; quando falava, a voz falhava, sumia, ele gaguejava. E se apaixonava sempre por uma menina que o esnobava, e sempre havia uma feiosa tentando se aproximar.

E veio a juventude, a faculdade, e tudo se repetiu. Vez ou outra até chegava a namorar alguma garota atraente, mas nesses casos, para tentar manter o relacionamento, acabava tendo que engolir muito sapo para mais tarde cuspir marimbondos. E ficou adulto, firmou-se profissionalmente, mas… sempre havia uma Maria Cecília linda para desprezá-lo e uma Maria Teresa sem graça para tentar seduzi-lo. Aquilo parecia coisa do demônio, um carma, uma maldição! O resultado: o tímido Artur sempre era visto, pelos amigos, de braços dados com quem ele não escolhera – uma Maria Teresa qualquer.

Hoje, já na meia-idade, a maldição permanece. Por isso ele está se encaminhando agora, neste exato momento, para o consultório da doutora Sônia, especialista – dizem – em tratar idiot… quer dizer: homens com esse tipo de “maldição”.

(Do meu livro A ALJAVA DE CUPIDO, de 2016)

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguarde data e local de lançamento!

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Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

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