Amor e paz
*Jalmelice Luz
O livro Amor e Guerra em Vale Manso é surpreendente porque é carregado de entrecruzamentos de várias histórias que germinam outros acontecimentos e levam a desfechos inesperados. Um encadeamento de episódios e relações, muitas vezes subvertendo espaço e tempo, premonitórios, reflexivos. Um espesso cenário em que se desenvolve a saga com maestria. Os detalhes, descrições, indícios e indicativos que o narrador apresenta transportam o leitor para um período recente da história da política brasileira, com os cacoetes e práticas de coronelismo.
O autor Durval Augusto Jr. desenvolve uma narrativa instigante e provocativa para os espíritos dados a interrogar as razões e consequências das contradições e desejos humanos. Ao iniciar o texto com ênfase no estranhamento do protagonista Gabriel em relação ao mundo em que vive, abre portas para o pensamento do sujeito descentrado, como analisam textos seminais da filosofia, quanto ao sentimento de ser um eterno estrangeiro em um mundo em constante mudança.
O protagonista se desloca do centro urbano, Belo Horizonte, para uma pequena cidade do interior mineiro à procura de motivos — título da bela obra À procura de motivos do escritor mineiro Oswaldo França Júnior (1936-1989), que guarda alguma semelhança com essa história — que instalassem paz interior, até então, inalcançável. Ou que desenvolvessem nele o encantamento pela vida, a ânsia de colocar a criatividade em um projeto comum que teria o condão de transformar a vida das pessoas que conhecera naquele recanto.
A história romanceada revela em sua estrutura o desenrolar de uma trama com diversas camadas, onde a multiplicidade de personagens transita – protagonistas e coadjuvantes –, redesenhando as dificuldades de estar no mundo. Gabriel, personagem central, coloca-se como um estrangeiro tanto na cidade onde nasceu e foi criado quanto no campo, no aparentemente bucólico ambiente rural. O passado que carregava eram as pontadas que lhe impingiam na alma uma dor da qual teria de se livrar. E teria de ser em Vale Manso.
Pode-se identificar a ideia de descentramento do sujeito moderno, individualizado, de que trata o filósofo Michel Foucault na obra A Arqueologia do Saber. De acordo com estudiosos, esse estado de não pertencimento seria gerado ou tornar-se-ia a manifestação de uma crise cultural que indaga qual o papel social do sujeito e a noção de identidade moderna. Para o autor o menino Gabriel fora jogado bruscamente na luta pela vida com armas cujas balas eram de festim, enquanto as que o mundo lhe disparava eram de verdade.
A obra Amor e Guerra em Vale Manso coloca Gabriel em cenários distintos, conflituosos e contraditórios. A tarefa dele é buscar o amor, o pertencimento, a realização pessoal. Mas depara-se com a guerra interna e as reais que teria de vencer. As perdas sofridas, a morte que a guerra traz, também, o transformam. Esses episódios são representados por personas diversas no texto: ganância, o desejo do poder pelo poder, a vaidade, a insolência e a vingança. Assim como a simplicidade, a ingenuidade e a sabedoria do homem comum com suas crenças, misticismo e religiosidade. A narrativa apresenta ao leitor inúmeras facetas do ser humano em situações sociais diversas e adversas que permitem, creio, interpretar a condição humana.
Observa-se em Amor e Guerra em Vale Manso a narrativa que transpassa tempo e espaços diferentes, em época recente, em que a velocidade e a construção do viver são marcadas por profundas diferenças. O rebuliço e a exigência dos tempos modernos com a mecanização — na contemporaneidade o domínio da cibernética, os usos e controle de espaços digitais — e a leveza do campo onde o relógio parece registrar horas mais prolongadas. O calendário, a passagem lenta do tempo.
A simplicidade e certa dose de ingenuidade encontrada em Mateus de dona Marlene. Gabriel é tomado por sentimentos difusos, nobres, talvez, que suscitam a lembrança do mito de Pigmaleão narrado pelo poeta romano Ovídio, antes da era cristã. O protagonista, assim como o mito, se dedicaria a transformar a aparência e os conhecimentos de Mateus, que identificara como incauto, pouco letrado, em um homem de sapiência e boa aparência. Boca cheia de dentes, vestimentas ao estilo das grandes cidades. Não demora muito para perceber que teria mais a aprender do que a ensinar. Ele encontrou em Mateus um assemelhado, um estrangeiro, a quem deveria prestar socorro.
Gabriel tem guarida para seus sonhos, amor e sofrimento nos braços de Júlia e muitas lutas para travar. Somos – refletia ele – todos oriundos da mesma matéria, viemos todos do mesmo barro. Mateus lhe inspirava um estranho sentimento de dever para com ele. Contudo, entende que no mundo dos homens, a perfeição sempre será perseguida e jamais alcançada.
A obra, escrita numa linguagem corriqueira de mulheres e homens do campo, afeitos ao trabalho na terra, sem instrução, quase miseráveis, é recheada de reflexões diante das limitações vivenciadas pelos personagens no século XX e que perpetuam nos tempos turbulentos e quase desumanos em que vivemos.
Talvez a constatação de que viajantes somos todos, às vezes em naus sem rumo, tenha despertado no protagonista a consciência, a empatia, em relação ao outro. Ele, junto com os moradores despossuídos, constrói uma comunidade produtiva que é repudiada por detentores do poder e que lhe rende a pecha de “comuna”, sendo alvo dos ataques dos donos do poder.
A obra de Durval Augusto Jr. faz-me entender também que os semelhantes juntos podem produzir mudanças profundas que marcam décadas, séculos, quem sabe a trajetória da humanidade.
Não se trata de uma simples história bem escrita, mas um conjunto de reflexões elaboradas com esmero que o autor compartilha com o leitor.
*Jalmelice Luz
Jornalista e escritora
O livro AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, publicado em novembro de 2022, pode ser adquirido com o próprio autor pelo WhatsApp (31) 99316-9712, ou pelo site da editora: paginaseditora.com.br, ou ainda na Amazon ou na Magalu.

