(De meu livro A aljava de Cupido, publicado em 2016)

A tarde era agradável, mas eu já havia caminhado bastante. Por isso resolvi me sentar num dos bancos do jardim que se estende pela margem direita da Champs-Élysées. Naquele momento passavam poucas pessoas por ali. “Que bom” – pensei. Queria um pouco de quietude. Mas, quando me virei para a direita, uma mulher que se aproximava me chamou a atenção. Vi logo que era brasileira, só pelo jeito de andar, de mexer nos cabelos e pelo olhar de franguinha assustada num terreiro estranho. Percebi que vinha na minha direção.
Aprumei o corpo, fiz cara de francês e fiquei na minha (fazer cara de francês significa fazer de conta que o outro não existe – ou que existe, mas cheira mal).
“É brasileira, tá na cara! Com um pouco de sorte, pode ser até mineira, quem sabe!” – pensei, sem desfazer a cara de francês.
Não deu outra. Aproximou-se de mim e veio com o seu bonjour, o seu s’il vous plaît e oesperado je suis brésilienne, je ne parle pas français.
– Não tem prroblema – respondi, enchendo a boca de erres para parecer francês. Já morrei no Brrasil algum tempo. Falo porrtuguês.
E o pior é que, para um cara que nasceu e viveu tanto tempo em Ube’r’lândia, não é fácil inventar, assim, de última hora, aquele sotaque cheio de erres, que eu acreditava ser o de um autêntico francês.
Mas ela caiu feito uma patinha. Aliás, não é que a diaba era mesmo mineira! E, pasmem: mineira de Uberlândia!
Dei-lhe a informação que desejava e continuei com cara de francês.
– Qual o seu nome? – ela quis saber.
– Cyrano – menti, inspirando-me no tamanho do meu nariz. Caprichei na pronúncia – acho que até usei erres demais: Cirrranô. E o seu?
– Lorene.
Elogiei o nome e tratei logo de chamá-la de Lorren’.
– Cê fala tão bonitim! – ela disse, com aquela graça só das mineiras. E aí – confesso – tive que me esforçar mais ainda para continuar “francês”. Por pouco não me derreti todo.
Duas horas depois, e já tendo gastado meio caminhão de erres, consegui beijá-la. Houve um segundo e um terceiro beijos. Mas aí ela se tornou de novo a franguinha assustada. Não podia ficar mais, pois a mãe a esperava no hotel.
Abraçou-me forte, com mais um beijo, e prometeu adicionar-me no Facebook.
Meses depois, entro eu no Barolo, meu bar preferido em Uberlândia, e quem eu vejo? Ela: Lorene. Uma coisa elétrica percorreu minha espinha dorsal. E eu conseguia ouvir um batuque no meu peito. Eu não estava mais tão francês, mas me aproximei disposto a resgatar os erres que havia deixado na França.
– Lorren’! Que bom! Eu não esperrava encontrá-la!
– Quem é você… Ah, Cyrano! Conheci pelo sotaque!
E nos abraçamos, mas dessa vez sem beijos. Senti que os meus erres, longe de Paris, haviam perdido a magia.
– Mas, e aí: o que você faz por aqui? Que surpresa! – ela disse, mas sem muito entusiasmo. E antes que eu respondesse, vinha se aproximando quem não devia: Renata, a amiga de Lorene, que tinha ido ao toalete. Acontece que essa Renata era minha conhecida de muitos anos, desde os tempos do colegial. Não nos víamos havia muito tempo, mas ela não deixaria de me reconhecer. Pensei em escapar rápido, como se tivesse esquecido algo no carro, mas não dava mais tempo.
– Aqui, Renata, deixa eu te apresentar meu amigo francês, o Cyrano!
– Cyrano, é… – Renata disse com uma risadinha. Uai, Rafael, cê virou francês assim, de repente?
Baixei um pouco a cabeça, virei as costas para as duas e me encaminhei para a saída do bar com o rabinho entre as pernas. Sem nenhum vestígio de francês. Mas, cá pra nós: barrigudo, careca e com este nariz de Cyrano de Bergerac, eu teria conseguido beijá-la em Paris, se dissesse que era brasileiro?

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
