A MALDIÇÃO DAS RIMAS

Patrícia, desde criança, trazia consigo uma peculiaridade: não conseguia se livrar de uma compulsão a dizer tudo com rimas. Podia ser bonitinho aquilo quando era pequena, mas o problema era que, mesmo depois de adulta, a coisa continuou grudada nela como uma maldição.

Quando criança, lá na casinha em que vivia com os pais, em São José de Alguma Coisa, era sempre chamada na sala para se exibir para as visitas.

– Patrícia, vem cá, vem cumprimentar dona Marina mais seu Gonçalo!

Ela deixava as bonecas no quarto e aparecia meio sem jeito na sala, meio encolhida e de má vontade. Aquilo era uma chatice, mas tinha de obedecer aos pais. “Pelo menos se não fosse filha única…” – ela dizia a si mesma em pensamento, antes de deixar escapar a primeira rima, que não podia evitar.

– Oi Patrícia, que vestido bonito! – comentava dona Marina ou qualquer outra comadre de sua mãe. E ela respondia, a contragosto:

“Este ganhei de Dindinha

Quando veio aqui no Natal

Ficou um pouco grande

Mas não faz mal!”

A comadre ria e o compadre também. A pobrezinha forçava um sorriso torto e amarelo. Mordia o polegar, encostada na parede, envergonhada e triste.

Perguntara ao pai um dia:

“Pai, por que sempre sai música na minha fala,

Por que minha voz não se cala,

Quando tem visita na sala?”

O pai respondera: Oh, filha, mas isso é tão bonitinho! E não é música, são rimas.

“Ah, pai, não importa

Da próxima vez me escondo na horta

Ou fico no quarto e tranco a porta!”

E a meninada da vizinhança a considerava maluca. Mangavam dela o tempo todo. Era um inferno aquilo.

Mas Patrícia logo se tornou adulta, com um caminhão de rimas acumuladas em menos de duas décadas.

Logo perdeu os pais e passou a viver sozinha. E a falar sozinha também. Claro, tudo com rima. Quem passava pela rua e se aproximava de sua janela podia ouvir sua voz cristalina jorrando rimas aos borbotões. Era só nesses momentos que ela se sentia à vontade para se expressar. Quando saía para comprar algo na rua, era um martírio.

No armazém:

“Seu Mariano, preciso de alho, pimenta e sal,

E também de colorau,

Mas não embrulhe em jornal!”

Na padaria:

“Dona Penha, quero pão e leite,

E também um vidro de azeite.

Nota de cem espero que aceite”

Por alguns anos pôde viver com os recursos que herdara dos pais. Deixaram-lhe algum dinheiro no banco, que ia usando com muita parcimônia, e algumas joias, que ficavam trancadas num cofre. Quando o dinheiro acabasse, venderia as joias, mas não todas de uma vez e sim uma a uma. Assim podia adiar ao máximo o dia em que teria de procurar um emprego.

Mas certo dia a casa foi invadida por dois assaltantes. Eram desconhecidos na pequena cidade, ela jamais os vira por aquelas bandas. Exigiram tudo que ela tinha. Sem cerimônia foram recolhendo tudo que consideravam de valor na casa.

Desesperada, ela correu para o telefone:

“Meu nome é Patrícia

E não tenho muita malícia,

Mas vou chamar a polícia!”

– Não banque a espertinha, disse um dos bandidos com um sotaque estranho e apontando uma arma para a cabeça da coitada.

Continuaram revirando a casa. A moça, trêmula, era arrastada sob a mira do revólver de um deles enquanto o outro escarafunchava tudo.

No final descobriram o cofre atrás do quadro que ficava na sala de jantar. Patrícia ficou gelada. Exigiram-lhe a combinação, mas ela estava muito nervosa e não mentira quando disse, entre rimas assustadas, que não conseguia se lembrar dos números.

Começou então a rezar:

“Oh meu santo Onofre,

Acuda uma alma que sofre:

Me faz lembrar a combinação do cofre!”

Lembrou-se. E eles levaram todas as joias, e ela nunca as recuperou.

Agora tinha de arrumar um emprego. Foi trabalhar na Prefeitura. Como a cidade era pequena, todos já a conheciam e sabiam do seu hábito de dizer tudo com rimas. O que, contudo, não atenuava o seu constrangimento quando tinha de abrir a boca.

Com o tempo, porém, acostumou-se com a situação, mesmo porque os próprios colegas de trabalho passaram a não se importar muito com aquela sua peculiaridade.

Mas havia lá um tal de Antônio que ela achava insuportável. O setor dele era outro, mas o trabalho dela exigia que os dois se comunicassem com muita frequência todos os dias. Ele era daquele tipo de sujeito que, talvez por falta de assunto, não considerava tedioso insistir em repetir os mesmos comentários jocosos a respeito da triste sina de Patrícia.

Com o tempo ela sentia que o seu próprio desempenho no trabalho parecia prejudicado por isso. O seu problema passou a ser o tal Antônio. Se pudesse não ir mais à seção onde o enjoado trabalhava! Mas o chefe não a substituía, talvez até de propósito, pensava ela. Ninguém parecia ligar para o seu tormento, embora ela sempre alugasse os ouvidos da Mônica, sua colega mais próxima, com seus lamentos dolorosamente rimados.

Ia para casa pensando no tal Antônio, em como se livrar daquilo. Por que ele não morria! Ou por que não se mudava! Ela mesma podia se mudar, mas para onde? Não podia deixar a prefeitura, pois em outro lugar o tormento seria pior, teria que encarar pessoas desconhecidas que lhe dariam ainda mais trabalho.

Talvez, se achasse um namorado, um casamento… Mas quem ali naquela cidade? Ela tinha esperado tempo demais. Agora os homens da sua geração já estavam todos casados. Todos, menos uns porcarias que nem o tal do Antônio.

Às vezes tinha vontade de rezar para algum santo, mas o santo casamenteiro é Santo Antônio, ou seja, xará daquele que vinha infernizando a vida dela.

E de noite era custoso pegar no sono. Ia para a cama sempre atormentada por aquele seu drama diário. E, quando dormia, em vez de ter um sonho bom, sonhava com o tal do Antônio. Aquele diabo não a deixava em paz nem no sono!

Não havia alternativa. Resolveu apelar mesmo para o santo casamenteiro. Certa madrugada, depois de mais um dos seus pesadelos protagonizados pelo chato do Antônio, decidiu se levantar e procurar no quarto que fora da mãe uma imagem do santo, guardada em algum canto desde que ficara órfã.

De joelhos rezou ardorosa e decidida:

“Oh bondoso Santo Antônio,

Me livre desse demônio,

Me arranje alguém para matrimônio,

Alguém que se chame… que se chame…

Que chame Ant..   que se chame Antônio!”

Casaram-se. E até que o Antônio não era tão chato assim. Apenas não encontrava outro modo de tocá-la. E, de todo modo, ela também nunca o tiraria da cabeça.

Consta que foram felizes.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

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Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

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