
Eu gosto de pensar que quem narra as minhas histórias nunca sou eu. Quando o leitor se depara com uma narrativa em primeira pessoa, logo em seguida pode descobrir que o personagem que narra não é o autor – pelo nome diferente, pelas suas características, pela própria história etc. Mas, se a narrativa ocorre em terceira pessoa, tem-se a impressão de que quem narra é o próprio autor.
Excetuando-se autores como Machado de Assis – que gostava de dialogar com o leitor, apresentando-se francamente como aquele que está escrevendo a história – ou o nosso Roberto Drummond – que em Hilda Furacão foi ele próprio autor, personagem e narrador (mas nesse segundo caso a história não é narrada em terceira pessoa) – eu quero acreditar que quem narra as histórias em terceira pessoa não é o escritor.
No meu caso, pelo menos, eu não quero ser o narrador! Eu gosto de sentir a liberdade e a irresponsabilidade de entregar a narração a um desconhecido. Alguém toma as rédeas da história e eu apenas empresto meu tempo, meu corpo, meus dedos no teclado. Esse narrador-fantasma se apodera do destino e das vidas das personagens e, para meu deleite, faz o diabo com elas.
Mas de onde vem esse narrador intrometido e misterioso? Vem das profundezas de meu próprio eu, evidentemente. Mas emerge também, creio, desse oceano de mentes que habitam uma mente maior – e podemos chamar a isso, como Jung, inconsciente coletivo, ou mente cósmica, ou superconsciência etc.
É certo, contudo, que esse narrador-fantasma só vai conseguir o seu intento se a história que ele conta encontrar algum ponto de contato, alguma onda vibratória no âmago de meu próprio ser, que faça ressonância com a natureza daquilo que ele inventa. Mas, dentro de todos nós, demônios e anjos se engalfinham o tempo todo. Sem isso, aliás, não pode haver literatura.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
