O MESTRE AUTRAN DOURADO

Mineiro de Patos de Minas, Autran Dourado, que nos deixou em 30 de setembro de 2012, viveu por um tempo em Belo Horizonte, onde estudou Direito. Em 1954, mudou-se para o Rio.

   Obras como Os sinos da agonia, Ópera dos mortos e Uma Vida em Segredo – esta última particularmente tocante pela maestria e sensibilidade com que Autran fotografa, bem de perto, a matuta Biela, protagonista – são apenas amostras do rico legado que ele nos deixou.

   O último romance que li de Dourado foi Lucas Procópio, lançado em 1985. O meu mestre imaginário, de 1982, e Uma poética de romance, de 1976, são também obras suas que eu havia lido pouco tempo atrás. Em ambas ele se afasta da literatura propriamente dito para analisar o seu próprio fazer literário. Em O meu mestre imaginário, Autran Dourado nos põe em contato com seu alter ego, Erasmo Rangel, que é também seu mestre imaginário.

   Mas foi uma pequenina obra desse brilhante autor, talvez a sua obra de menor extensão, a que maior impacto causou sobre meu espírito aprendiz. Refiro-me a Breve manual de estilo e romance, um livrinho que veio a público em 2003, em pequena tiragem, pela Editora UFMG. Cometi o erro de não tentar entrar em contato com ele e expressar-lhe a minha gratidão – enviar-lhe uma carta, algo assim – por ter escrito e publicado esse pequeno tesouro que guardo com muito ciúme. Eu devia ter feito isso antes de sua morte. Mas a gente não imagina que alguém como ele possa deixar a vida; a gente se acostuma com a imortalidade de pessoas assim.

   Breve manual de estilo e romance causou grande impacto, como já disse, em meu espírito aprendiz. E, quando tive acesso a esse precioso livrinho, eu já havia escrito dois romances, uma novela e inúmeros contos, embora só tivesse publicado uma das obras. Mas tinha e ainda tenho um espírito aprendiz. E aquele pequeno volume branco acalmou este meu espírito aprendiz.  Mostrou-me que podia prosseguir. Ensinou-me paciência, mas encorajou-me; fez-me entender que “é preciso saber fazer o trivial simples; nem todo dia é dia de banquete.”; alertou-me que “Literatura, como toda arte, é afinco, trabalho e amor (…) Pode ser amor mal contrariado, pode doer muito, porém é amor.”

   “Escritor – diz Dourado no diminuto volume – é aquele sujeito que escreve com dificuldade; quem escreve com facilidade é orador.” E esse talvez tenha sido, para o meu espírito aprendiz, o seu maior ensinamento.

   Ensinou-me a não dar muita bola para a crítica: “Uma opinião desfavorável é como uma picada de mosquito: dói apenas na hora. Se você ficar o resto da vida só pensando no mosquito, não fará nada que preste.” Hoje ainda gosto de prestar atenção tanto às opiniões favoráveis quanto às desfavoráveis. Mas, cá no meu canto, dialogando com meu espírito aprendiz, procuro aparar as arestas de ambos os tipos de opinião. Faço uma ligeira reverência ao mosquitinho da opinião desfavorável – pois acho que ele serve para me manter acordado – e prossigo. Aos afagos de uma opinião favorável, procuro ser parcimonioso ao agradecer e aproveito para me ater às prováveis falhas que o generoso leitor não percebeu.

   Se teimo em seguir sonhando com um guarda-sol na praia escaldante da literatura, acho que devo isso, em parte, ao pequeno livro Breve manual de estilo e romance, de Autran Dourado. E também porque sou teimoso mesmo.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Publicado por

Avatar de Desconhecido

Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

Deixe um comentário