Um rio, um barco e um amor

Depois de ter passado a manhã passeando pelas plácidas e verdíssimas planícies salpicadas de dóceis, inocentes e despreocupadas ovelhas; ter avistado, logo adiante, a montanha cujo pico era esbranquiçado pelo gelo, e, atrás desta, o céu de um azul desmaiado, manchado, aqui e ali, por escassas nuvens, agora eu estava de novo no centro de Dublin.

Caminhava pelo lado Sul do rio Liffey e, à medida que avançava, percebia o movimento de minha alma indo e vindo entre a paisagem nova que me cercava e a paisagem antiga de meu coração viciado em lucubrações. Nunca, no entanto, me sentira tão inteiro e tão em paz comigo mesmo, tão concertado com minha decisão recente de caminhar sozinho pelo mundo, se não pudesse fazê-lo acompanhado de quem eu realmente amasse. Essa coerência e essa honestidade proporcionavam-me leveza e força. Sim, se precisasse seguir sozinho pelo resto da vida, eu o faria sem nenhuma dúvida, só para preservar em mim aquela preciosa sensação de poder sobre mim mesmo, poder esse desconhecido, ia eu refletindo, daqueles que se enganam a si mesmos por medo da solidão.

Eu me deixava ir, admirando tudo a minha volta, mas nem por isso abandonando a doce viagem interior que também fazia enquanto andava por Dublin. Passei, indo e voltando, por algumas pontes – a O’Connell Bridge, a Sean O’Casey Bridge, a Samuel Beckett (esta última, em forma de harpa, gira para dar passagem às embarcações) – e admirei o belo edifício público chamado Custom House, construção do século XVIII, em estilo neoclássico. O clima estava ideal para um brasileiro caminhar, pois era agosto e a temperatura chegava aos vinte graus centígrados.

Logo me veio aquela fome gostosa de quem tem saúde e está feliz. Encaminhei-me então para a Dama Street e, enquanto comia, cheguei a me perguntar o motivo daquela felicidade, já que havia em mim outra fome que naquele momento eu não via como aplacar.

Depois de comer, pus-me de novo a perambular pela cidade, até que, um pouco mais tarde, chegou o momento de fazer o passeio de barco.

Embarquei. E não precisei de mais de dez minutos após o início do passeio para ter a convicção de que aquela outra fome a que me referi poderia ser aplacada ali mesmo em Dublin. A loura alta e bonita me olhava com insistência – e que olhar! – e eu não sei até hoje dizer como foi que, de um instante para o outro, eu me vi sentado ao lado dela, que, se dizendo holandesa, falava em Inglês – um inglês um tanto engraçado, que eu, com meu Inglês ainda mais macarrônico, tinha de me virar para entender.

Mais tarde, quando bebíamos na Temble Bar, a safada acabou me confessando que era argentina! E eu sofrendo à toa para falar com ela em Inglês! Então lhe disse: “Prefiero que hablemos en Español, porque lo comprendo mejor.”

Passamos a noite no hotel onde eu me hospedava. No dia seguinte fomos explorar um pouco mais a cidade. Ela, que já estava ali havia quase uma semana, tratou de me guiar, e assim visitei em menos tempo um número maior de locais. Ela me levou a alguns museus e parques. Pedi a ela que me levasse ao parque Merrion Square, porque queria muito ver a estátua de Oscar Wilde. Fomos também ao Saint Stephen’s Green Park. Lá nos sentamos e, cercados por toda aquela beleza, começamos – pasmem! – a traçar planos, como se já nos relacionássemos há muito tempo!

Aquela loura tão bela, elegante e dona daquele sorriso e daquele olhar que haviam me arrebatado com a facilidade com que se toma um sorvete de uma criança, aquela beldade que primeiro se passou por holandesa para depois se confessar argentina, acreditem, confessou que há muito tempo tinha o hábito de viajar sozinha!

Era para encontrarte” – gracejou, quando eu lhe manifestei minha admiração por aquele seu hábito tão pouco comum para uma mulher tão bela.

O meu Espanhol não é dos melhores, de modo que eu, em vez de falar muito, preferia ouvi-la. E recebia como música o jeitinho tão gracioso como ela hablaba.

Nossos planos, traçados lá no Saint Stephen’s Green Park, incluíam, vejam só, vivermos juntos no Brasil. Ela não tinha, confessou-me, nenhum parente nem nada que a prendesse na Argentina. De modo que decidiu me acompanhar na viagem de volta, e viemos direto para o Brasil.

Chegando a Belo Horizonte, ela, de modo despreocupado, entrou com suas malas no meu apartamento. Devido ao cansaço, fomos dormir cedo. De manhã, ao acordar, dei falta dela ao meu lado. Mas senti cheiro de café vindo da cozinha. Instantes depois ela me aparece no quarto, toda faceira, tão feliz e tão minha naquele momento! Tão à vontade, com tamanha certeza de que sempre fora minha, e eu dela, que, distraidamente, deixou escapar: “Não quis te acordar, queria que você dormisse mais um tiquim. Aproveitei e fui na padaria buscar algum trem pra gente comer.” A safada era mineira e sempre vivera em BH! Mas falava tão bem o Espanhol… E de um jeito tão bonitim! Confessou que já tinha me visto muitas vezes em bares do Sion e da Savassi. E a gente tinha de se conhecer tão longe daqui! O simples nem sempre é fácil.

(Publicado no meu livro A aljava de Cupido)

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Publicado por

Avatar de Desconhecido

Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

Deixe um comentário