
Dizem que o Edifício JK é um dos mais interessantes de Belo Horizonte devido à variedade de tipos humanos que ali habitam.
Quando, porém, Maria Júlia resolveu morar ali, ninguém imaginava que sua presença, pouco tempo depois de se instalar num duplex do nono andar, causaria reações as mais variadas, dependendo do temperamento, origem, formação ou orientação sexual de cada um dos vizinhos mais próximos. Não por ela ser uma morenaça esbelta, alta, bonita, perfumada, de esvoaçantes cabelos encaracolados, cuja presença nos corredores provocava nos homens e em algumas mulheres o estranho fenômeno de abrirem a boca e se esquecerem de fechá-la, o que, aliás, mais tarde, acabou lhe rendendo alguns dissabores. É que Alejandro – su novio argentino, brasileño de corazón y apasionado por pan de queso – somente a custo conseguia controlar seu ciúme.
Mas Alejandro acabou se acostumando, mesmo porque o que em seguida traria a ambos dor de cabeça muito maior fez com que as reações do tipo abre-e-não-fecha das bocas fossem substituídas por… Bem, Maria Júlia não era muito discreta quando recebia Alejandro em sua cama. Na hora H, ou mesmo antes, muito antes do momento M, do instante I, a morena se punha primeiro a miar feito uma gata no cio, para em seguida aumentar cada vez mais a intensidade das indiscretas vocalizações, até que todo o prédio e até mesmo os passantes da Rua Guajajaras pudessem ouvir seus gritos desvairados ecoando madrugada adentro.
É claro que aquilo incomodou muita gente. Foram ter com o síndico, que em seguida tocou a campainha do AP de Maria Júlia.
A morena o convidou a entrar e o recebeu na sala, um tanto constrangida, porém sem deixar de mirá-lo com seu indisfarçável ar de quem só pensa naquilo, embora quase nunca pensasse naquilo – ela apenas fazia aquilo, assim como nós não pensamos sempre em comida, apenas comemos. Explicou-lhe que era impossível controlar-se na hora do “vamo ver”, mas que discutiria o assunto com seu namorado.
O síndico aconselhou revestir as paredes com isopor, e Maria Júlia aprovou a ideia. Mais tarde, relembrando aquela visita, disse a si mesma que o síndico até que era um cara legal.
Providenciou-se o revestimento das paredes. Alejandro trouxe até uma botella de vino argentino para celebrar o primeiro encontro após aquela providência.
Muito bem. A gata se pôs a ronronar, depois a miar e… Até aí tudo bem. Mas quando, próximo da hora H, vieram os gritos, dessa feita talvez até mais intensos, pela suposta garantia dada pelo revestimento das paredes, os vizinhos voltaram a se sentir incomodados. Quem passasse próximo às portas dos apartamentos ouviria os comentários de indignação, muitos deles apenas sussurrados, e movimentos de passos de um lado para o outro dentro das habitações.
Nova visita do síndico, nova promessa, feita por Maria Júlia, de resolver o problema.
Dessa vez teve a ideia de pedir a Alejandro para fechar-lhe a boca com esparadrapo assim que o rala-e-rola se iniciasse. Assim foi feito. Mas a gata, gemendo muito e agitando a cabeça pra lá e pra cá, fez Alejandro pensar que estava aflita com o esparadrapo abafando-lhe o grito. O muchacho, preocupado, destapou-lhe com cuidado a boca. Ela então se pôs a gritar: “Ai, não, não tira! Não tira! Ai, ai, não tira! Não tira! Não tira!” – referindo-se, logicamente, ao esparadrapo. Mas Alejandro não entendeu assim, e repetia: “No lo voy a sacar! No lo voy a sacar! Tranquila, tranquila!”
Chegaram à conclusão, Maria Júlia e Alejandro, de que não havia outro recurso a não ser não transarem mais no apartamento da gata, no JK. Decidiram que agora só ficariam juntos no motel.
Mas, pobre Júlia! Não teve mais sossego. Quando saía de casa ou chegava do trabalho, sempre havia um ou mais engraçadinhos a dizer de longe: “Não tira! Não tira!”. Ela ouvia isso e em seguida ouvia também as risadas, mas quando se virava na direção das vozes não via ninguém. Eles sempre se escondiam a tempo. Maria Júlia não podia mais viver ali.
É por isso que ela está pensando em voltar para a casa dos pais. Mas talvez Alejandro lhe peça em casamento e os dois passem a morar em outro bairro. Casando-se, o problema pode ser contornado. Em conversa com a prima Sara, Maria Júlia ficou sabendo que as mulheres casadas geralmente não gritam na hora H. “Por que será?” – ela se pergunta, ingênua e linda.
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido)

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
