FLORES E UM TELEFONEMA

Amanheceu pensando no Marcelo. Pouco depois, enquanto tomava café, as pernas estiradas sobre a outra cadeira que colocara a sua frente, ainda pensava nele. Parou para observar a tênue fumaça que subia da xícara, mas quase nesse exato momento já não observava nada. Parou de olhar o café e agora olhava para o nada, não estava mais ali. Viajava em busca de minutos antigos, em que tinha a sua disposição a presença inquietante de Marcelo, a quem, no entanto, ela não dera muita chance de se aproximar.

Por que então nos últimos dias não parava de pensar nele? Foram várias as vezes em que ele tentara um contato mais estreito com ela, e na semana passada ele lhe telefonou de novo, após tanto tempo. E chegou a fazer nova ligação, insistindo para que ela lhe concedesse oportunidade de conversarem. Era difícil para ela confiar em homens. E havia algo no jeito de olhar, nos modos do Marcelo… Não dava pra confiar.

“Mas eu não deixo de pensar nele, que coisa!” – disse consigo mesma. Ergueu-se, esquecida quase do café, e foi se olhar no espelho. Sorriu. Estava corada e os olhos brilhavam. Estava quase feliz.

“Acho que vou ligar para a Mônica… Acho que engordei… Acho que… Ah, não, quero um vestido novo, hoje! Acho que vou ao shopping. Vou ligar para a Mônica.”

Voltando à mesa, prometeu a si mesma que da próxima vez aceitaria sair com o Marcelo.

“Será que ele ainda vai tentar de novo, eu tendo recusado tantas vezes? Vai sim, a semana passada ele ligou duas vezes. Ele vai tentar de novo e eu vou dizer sim!”

Ligou para a Mônica e combinaram um encontro no shopping. Era tarde de sexta-feira, e ela foi esperar pela amiga num café não muito longe de uma das entradas do shopping.

Mas se levantava a todo momento, andando de um lado para o outro, correndo os olhos nas vitrines, voltando a se sentar, levantando-se de novo…

Até que surgiu Mônica, que, ainda de longe, avistou-a e veio saltitante, correndo daquele jeito engraçado, como Sandra Bullock; aproximou-se logo da outra, abraçaram-se, fizeram uma festinha de uns vinte segundos, dando risinhos e gritinhos, e dali foram passear pelos corredores, olhando vitrines, comentando sobre o que viam e ao mesmo tempo sobre o Marcelo, sobre dieta, sobre o vestido que a fulana estava usando na festa na casa da sicrana e sobre como era invejosa a beltrana, sobre o Marcelo de novo e sobre como se relacionar hoje em dia não é nada fácil e sobre o carinha da academia que fica dando em cima da Mônica e sobre a chuva que caiu ontem e sobre o Marcelo de novo e…

Sentaram-se e resolveram tomar um chope.

– Sinceramente, eu não sei o motivo de sua dúvida, Gabi.

– Agora eu acho que não tenho mais dúvida, eu tenho é medo dele não me ligar mais. Um dia o cara acaba se cansando, né. Já esnobei ele demais… Quer dizer, não é que eu esnobo ele, é que… Cê sabe, né… Mas pra ele deve parecer esnobação.

– Amiga, se o cara já insistiu tanto, ligou tantas vezes, por que não ligaria mais uma? Logo agora que você decidiu dar a ele uma chance!

– Mas ele não sabe disso!

– Ah, agora entendi! – disse rindo Mônica. Você quer que eu dê uma ajudinha…

– Nada disso! Só chamei você pra gente conversar, trocar ideias…

Mônica não insistiu, pois a outra parecia falar sério.

Daí a pouco deixaram o café e foram fazer compras. Mônica ajudou a amiga a comprar um vestido bonito antes de se despedir. Mas antes reafirmou sua crença de que Marcelo ligaria de novo para a outra, provavelmente no dia seguinte, que era sábado.

Ela não soube, mas a danada da Mônica naquela mesma noite entrou em contato com o Marcelo e o deixou muito esperançoso, aconselhando-o a ligar para a Gabi. “Faz só mais uma tentativa, e eu garanto que você não vai se arrepender” – disse-lhe por telefone.

O Marcelo dessa vez relutou, embora sentisse seriedade no que a Mônica lhe dissera. Mas é que já havia, antes, decidido não mais procurar a Gabi. Lutando um pouco contra aquela ideia, acabou derrotado pelo fiapinho de esperança que teimava dentro dele. “Quantos sonhos – disse a si mesmo ao passar perto de uma floricultura – já brotaram e em seguida feneceram nos dúbios canteiros do meu coração? Uma tentativa a mais ou a menos…”

E resolveu ligar para a moça.

Como ficou sabendo, pela Mônica, do hábito que tinha a Gabi de se deitar à beira da piscina nas manhãs de sábado, e ficar lendo alguma coisa, com o celular ali ao seu lado, resolveu ir até lá naquele horário.

Aproximou-se sorrateiro da casa, andando um pouco agachado, até que pudesse observá-la, sem ser visto, através do gradil que completava o muro.

Estando já posicionado, esticava de vez em quando o pescoço para vê-la lá dentro, ao lado da piscina, lendo um livrinho. Viu o celular a pouco mais de um metro de distância da mão dela.

Marcelo trazia um buquê de rosas. Respirou fundo e sacou o celular. Acionou o número dela e pressionou o botão. Ficou observando de longe, ainda sem ser visto, para ver a reação da moça quando ouvisse o chamado em seu aparelho.

Ela se ergueu assim que ouviu o primeiro toque. Olhou, viu de quem era a ligação – claro, era aquela ligação que ela tanto esperara! – mas se conteve e decidiu esperar que o toque se repetisse, talvez até mesmo que parasse de tocar para que Marcelo insistisse mais um pouco, telefonasse de novo, mais tarde, outro dia, talvez… E foi se deitar de novo ao lado da piscina.

No entanto o coração dela estava aos pulos, se bem que sua fisionomia, de longe, não demonstrasse isso.

E o Marcelo, vendo apenas frieza e indiferença naquela atitude, guardou o celular, atirou as flores numa lixeira e foi embora. Não houve mais nenhum telefonema. Nem flores.

(Publicado no meu livro A aljava de Cupido, 2016)

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

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Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

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