
O jovem padre recolhia donativos às portas do comércio para entregar a uma comunidade pobre. A rodovia estava a poucos metros dali. Os dois bandidos que passavam de carro não tiveram dúvida: sequestro-relâmpago. Levaram o padre com seus donativos, inclusive dinheiro.
Soltaram-no a quilômetros dali, à beira da estrada.
– Vam’ levar a batina também! – falou o bandido alto e magricela. O outro, baixo e gordo, concordou.
– Mas ela é minha, avisou o primeiro. Tenho planos. A gente vai se dar bem. Cê vai ser o sacristão, falou?
Levaram a batina. Só de sacanagem, tiraram também a cueca do padre e a queimaram na presença dele. Arrancaram o carro e sumiram.
O padre, cobrindo as “partes” com uma das mãos, com a outra acenava para os carros na rodovia, pedindo carona. Sem sucesso.
Desanimado, foi andando ao lado do acostamento. Quando via um carro, ocultava-se um pouco – a vergonha era maior que o desespero.
Fome, sede e cansaço. Mas seguia. Vislumbrou pequeno comércio à frente. Alentou-se. Logo achou um bar. A porta estava aberta. Porém, nu como estava, entraria lá?
Não. Viu uma moto estacionada. Não teve dúvida. Mesmo nu, montou na bichinha e se mandou.
Para onde iria? Ou antes: até onde iria assim, sem nenhuma roupa? Nem sabia a que distância estava de casa ou mesmo da comunidade onde recolhia donativos.
Tinha de avisar a polícia. No entanto, usar um telefone público sem ser visto não seria fácil. Alguns carros já haviam passado por ele, e seus ocupantes, como se esperava, fizeram chover toda sorte de vaias, insultos e impropérios sobre seus lombos desnudos.
Avisar a polícia de que dois bandidos o tinham roubado, levando-lhe até a batina, não seria mesmo fácil. Mas a polícia soube: um maluco nuzinho da silva pilotava uma moto a toda velocidade na rodovia. Acabou preso.
No mesmo dia, o pai de certo Diego recebeu um telefonema do delegado. Foi lá, pagou a fiança e o levou para casa.
– Que história é essa, filho?
– A gente precisa de grana pra formatura, pai. Então fizemos um sorteio. O escolhido teria de se vestir de padre e recolher donativos numa cidade do interior. Sobrou pra mim.
– E essa batina que os bandidos levaram, onde você arranjou?
– Ih!… Foi a tia do Gustavo que fez pra gente. Ela vai me matar!

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
