
Você ouve agora o murmúrio das águas deste rio, aqui pertinho de nós, ocultas pelas folhagens. Quando venho aqui, fecho os olhos e vejo paisagens que eu percorri em minha infância e juventude. Minha alma atravessa tempos e espaços e viaja livre, sentindo os mesmos prazeres e as mesmas dores.
Nasci em um lugar distante daqui. A semelhança entre os dois lugares é que me evoca essas lembranças. Permaneci por lá até crescer e me mudar para a cidade, quando pude estudar, trabalhar de terno e pensar que tinha virado gente. Percorri muitas outras cidades, infligi minha presença nos mais inóspitos e diversificados ambientes, lancei-me às mais desafiantes circunstâncias, com o desejo um tanto inconsciente de endurecer as cascas de meu espírito.
Você me pergunta por que chego aos noventa anos tão solitário e vivendo num casebre afastado da civilização. Não sei se sua pesquisa vai servir para grande coisa. E estou com preguiça de estender esta nossa conversa. Mas sei que vida de estudante não é fácil. Talvez você possa romancear seu trabalho e despertar o interesse de seu professor e de seus colegas, embora não haja nada de tão interessante a ser dito.
Endureci, sim, as cascas do meu espírito. Mas me pergunto: e daí? Amei. Amei muito, embora talvez tenha me equivocado no modo de amar. Aliás, pergunto ainda: existe um modo certo de amar? Amar é apenas amar! Sim, amei muitas mulheres, e a que mais me marcou foi a Teresa. Mas até hoje amo muitas mulheres, mesmo sem vê-las, pois as acho perfeitas, todas. São seres inteiros. A nós homens é que parece faltar algo. Tive, contudo, poucas. Amei-as com meu amor desajeitado, com meu espírito cascudo. Nunca as entendi, mas não acho que isso justifique minha solidão. Afinal, os outros homens – aqueles que conseguem tê-las à sua cabeceira no momento de seu último suspiro – também não as entendem.
Tenho aprendido algo nos últimos anos. Sim, sozinho. Todos os dias faço um exercício. Venho para a beira do rio, sento-me nesta mesma pedra, fecho os olhos, como já disse, e me transporto em espírito para todas as situações de amor que já vivi. E, quando digo situações de amor, quero dizer todas as situações de encontro, e quando digo todas as situações de encontro, quero dizer não apenas encontro com pessoas, mas encontro com tudo que manifesta o pulsar da vida. Porque somos todos irmãos – nós, os seres, animados ou inanimados, somos todos irmãos – e só compreendendo isso é que se chega a entender o amor. Transporto-me, portanto, como disse, a todas as situações de amor que já vivi. E refaço, reescrevo toda a minha história, todas as minhas histórias de amor. E as reescrevo literalmente, aqui nestes cadernos surrados que você pediu para ler. Não, não permitirei que você os leia, mesmo porque seria inútil. Eu reescrevo as histórias que vivi porque esta nova versão que dou a elas me dá a certeza cristalina de como teria sido fácil ser bem-sucedido no amor. Esta nova versão de minhas histórias dá risadas da minha inacreditável inépcia para o amor.
Você pode dizer que agora é tarde. Sim, aprendi a amar reescrevendo, reinventando minhas histórias de amor, mas já tenho noventa anos e estou decidido a findar meus dias naquele casebre onde você foi me buscar para esta conversa. Mas eu lhe digo: primeiro, descobri que nosso objetivo na vida é o aprendizado, não a felicidade, como se costuma pensar, já que o mundo é uma escola, e a vida não passa de um curso escolar. Assim, ter a felicidade como principal objetivo seria como ir à escola pensando apenas no recreio. Mas concordo que se pode ser feliz enquanto se aprende. E lhe digo mais: estou amando mais do que nunca! Ali, sozinho naquele casebre, ou aqui, à beira deste rio, eu tenho praticado o amor – o amor que aprendi ao reescrever minhas histórias. Sozinho, sim. Porque corrigi meu espírito, expurguei dele toda amargura, todo desejo egoísta que me levava a me confrontar com as pessoas que eu amava. Não eram verdadeiros encontros, eram confrontos.
Amaria de novo uma mulher, com esta refeita, reinventada forma de amar, se pudesse retroceder alguns anos, levando comigo o aprendizado que alcancei aqui. Se eu ainda tivesse corpo, e não esta decrepitude ambulante, para voltar atrás e amar… Ou se eu tivesse mais alma, como dizia naquele tempo a música de um cantor de cujo nome não me lembro mais… Ah, sim, me lembrei, o Djavan. Você é muito jovem, mas seus pais devem ter ouvido muito as músicas dele. Talvez ainda façam sucesso. Sonho às vezes com a Teresa surgindo à porta de meu casebre para me visitar. Acordo e sorrio, contemplando a quietude e o silêncio à minha volta. Feliz por ter o coração leve e em harmonia com todos os seres do mundo. É como se o meu espírito não fosse mais cascudo, embora eu saiba que essa casca, se bem que suavizada, incorporou-se para sempre ao meu ser.
Você disse, logo no início da nossa conversa, que teria uma surpresa para mim. Meu amigo, não há mais surpresas. Não para mim. Presente, passado e futuro são para mim uma realidade única.
Repito: amaria de novo, sim, uma mulher. Contudo, lhe digo: não é necessário. O essencial é que o amor esteja no coração.
Não, não se assuste com estas minhas caretas. São pontadas que tenho de vez em quando, só que ultimamente elas têm sido mais fortes e frequentes. Mas são apenas pontadas, coisas da idade. Basta respirar fundo, assim, olha só, e a dor logo passa… Se bem que… Bom, deixe-me descansar um pouco. Afinal, você sabe, a idade… Hei, para quem você acenou? Quem vem lá? Puxa! essas pontadas… Mas quem vem lá? Espere um pouco, então foi tudo combinado? Você conhece a Teresa? Pois é ela quem vem lá! Mas ela vem devagar, coitadinha, também já caminha com dificuldade. E minhas vistas estão escurecendo, já não posso ver bem, agora só vejo o vulto dela. Que pena! Puxa, estou caindo, me ajude a me deitar no chão… Isso. Puxa, fiquei muito tempo sentado nessa pedra. Vá até ela, isso. Diga-lhe que… Diga-lhe que… Se eu tivesse… Se eu tivesse mais alma, eu…
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido – 2016)

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
