
Ele ainda se recordava daquela manhã iluminada de um setembro distante. Uma família chegava para morar na casa do outro lado da rua, bem em frente à sua, em Três Marias. Pai, mãe e filha – esta com seus sete anos, lourinha, cabelos encaracolados e usando um vestidinho florido. Ele tinha, depois de tanto tempo, muito viva na memória a imagem da casa de muro baixo, coberto de heras, e a extensa varanda na qual pendiam samambaias e gaiolas de pássaros. Afinal, foi naquela manhã que ele, Pedrinho, com não mais de oito anos, se apaixonou para sempre por Olívia, a menininha do vestido florido.
Mesmo no meio da meninada, nas brincadeiras de rua, os dois sempre se esbarravam, ainda que fosse apenas para se insultarem, incomodados por não entenderem direito a razão de estarem sempre juntos.
Na adolescência Olívia teve de se mudar com seus pais para Januária; assim se separou de Pedrinho. Nessa época ainda se insultavam muito, nenhum dos dois jamais admitindo para si mesmo que o principal motivo era o ciúme.
Anos depois Pedrinho se viu casado com Marina sem nunca ter tirado Olívia da cabeça. Separou-se em pouco tempo e voltou para a casa dos pais. Estes logo morreram, e ele passou a viver sozinho ali, trabalhando com artesanato e cerâmica, e nunca tirando os olhos da casa do outro lado da rua, onde havia morado a menina Olívia.
Ela também, em pouco tempo, se viu casada, também sem nunca ter esquecido Pedrinho. Ele, sem saber de nada, ainda sonhava ver, talvez numa manhã de setembro, Olívia e os pais passarem de novo pelo velho portão da casa em frente e devolver aos seus olhos a luz que os abandonara.
Mas os pais de Olívia também haviam falecido. E o casamento dela não durara mais que dois anos.
Pedrinho, por muitos anos, relutou em procurá-la na outra cidade, talvez por orgulho, talvez por medo de alguma decepção; talvez por mera timidez.
Mas um dia não se conteve e foi. Não foi tão difícil encontrar Olívia.
“Dona Olívia? Mora lá naquela casa amarela, com aquela mangueira na frente” – dissera-lhe o meninote que ele abordara na praça.
Bateu palmas ao chegar perto do portão. Ela veio e primeiro fez uma careta; depois, reconhecendo-o, não soube reagir. Ele também não. Limitaram-se a fitar um ao outro, em silêncio, por alguns instantes. Depois riram, e ele disse:
– Por que você me xingava tanto?
– E por que você era tão chato? – ela retrucou, e ambos riram muito.
Entraram e passaram a conversar como gente grande, como nunca haviam feito antes.
Voltaram juntos para Três Marias e em pouco tempo se casaram.
De vez em quando se mudavam para a casa de Januária, ficavam morando lá uns dois, três anos, depois voltavam. Ela sempre o ajudava com o artesanato. Mas brigavam por qualquer dê-cá-aquela-palha. Às vezes essas brigas, ainda que por motivos fúteis, resultavam em breves separações, quando ele pegava as tralhas e saía soltando fogo pelas ventas, retornando a Três Marias. Outras vezes era ela que, estando na cidade dele, fazia o mesmo e voltava para Januária.
Nessas idas e vindas tiveram dois filhos: Gustavo e Bruno, que foram crescendo entre uma cidade e outra. Quando se tornaram adolescentes, bateram pé, pedindo ao pai para comprar a casa onde morara Olívia quando menina, em Três Marias. Isso porque não queriam mais ficar naquele vaivém, a cada dois anos, de um lugar para o outro.
Passaram os dois – Gustavo e Bruno – a viver na casa em frente à do pai, e ali se tornaram adultos. Trabalhavam com o comércio de peixes à beira do rio São Francisco.
Aconteceu que um dia Marina, a ex-mulher de Pedrinho, apareceu lá sem mais nem menos e o cercou na rua para conversar. De longe, Olívia acompanhava a conversa e achava que aquilo já estava durando demais. Chamou o Gustavo e ordenou: “Filho, me leva agora pra Januária!”
– Mas, mãe…
– Eu disse agora!
Gustavo não teve opção. Pôs a mãe no carro e rumou com ela mais uma vez para o norte.
Por essa época, ambos, Pedrinho e Olívia, já passavam dos cinquenta. E, a partir de então, pelas próximas três décadas, os filhos tiveram que fazer idas e vindas entre Três Marias e Januária, tentando sem êxito a reconciliação dos pais.
– Eu não volto, filho. Seu pai é um safado! Ele que fique com aquela piranha!
– Mãe, mas isso já tem anos, e ela nunca mais apareceu por lá!
– Não volto, não volto, e acabou!
Seu Pedrinho, mesmo depois dos setenta, e morto de saudade, também não dava o braço a torcer:
– Não volto, filho; ela foi injusta comigo. Eu nunca nem pensei em trair sua mãe.
Aconteceu que um dia seu Pedrinho caiu doente, isso já com mais de oitenta anos. Gustavo e Bruno, já casados e cinquentões, faziam de tudo para trazer dona Olívia de volta para Três Marias. Em vão. Bruno resolveu ir morar em Januária com a mulher e os filhos, para ficar perto da mãe, que também já passara dos oitenta.
Dez anos depois, seu Pedrinho ainda estava doente. Não saía mais da cama.
– Mãe, por favor, perdoa o Pai, uma hora dessas ele acaba morrendo!
– Pois que morra, Bruno! Ele que morra, se quiser, mas perdoar eu não perdoo!
E seu Pedrinho, do alto de seus noventa e dois anos, ouvindo isso de Gustavo – dilatadas as pupilas, ressaltadas as veias do pescoço e enrubescidas as antes pálidas faces – retrucou:
– Pois enquanto ela não vier aqui e não me pedir perdão, eu não morro. Por desaforo!
(Publicado no meu livro A ALJAVA DE CUPIDO, 2016)

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
