O GUSTAVO VAI FALAR

O Gustavo enfrentara na infância e na adolescência algumas dificuldades que ameaçavam afligi-lo a vida toda. Era, por exemplo, inábil para todos os tipos de jogos e esportes. Era-lhe também impossível compreender, ainda que num nível muito elementar, qualquer assunto, por mais banal que fosse, de que se ocupassem as pessoas a sua volta.

Os outros meninos, na rua e na escola, riam dele. Sua voz era só um fiapinho. Falava baixo e era um pouco gago.

À medida que migrava da infância para a adolescência ia se sentindo cada vez mais entregue ao silêncio. Falava muito, mas apenas consigo mesmo. Às tardes, depois da escola costumava ficar trancado em seu quarto lendo, estudando, pensando, tentando entender o mundo através dos livros, tentando falar consigo mesmo daquela maneira como os escritores se expressavam e que ele julgava tão interessante. Mas a todo momento recordava a voz de seu pai, que, com duas ou três palavras, reafirmava em tom sarcástico o quanto ele era estúpido.

Outro hábito de sua adolescência era vagar pelos arredores da cidade, locais ermos, onde o silêncio era quebrado apenas pelo pipilo de pássaros, num tempo em que sua cidade ainda era cercada de grandes extensões de terras inabitadas. Nessas ocasiões também falava muito consigo mesmo, em voz alta, tentando articular bem as palavras, usando termos pinçados dos textos que lia, na esperança de construir um modo de se expressar que afastasse de si a impressão de que era um imbecil, como sempre afirmava seu pai.

Gustavo finalmente cresceu e levou para o mundo adulto o produto de todo aquele esforço para não parecer estúpido. Tornou-se até mesmo muito falante. Entusiasmava-se muitas vezes ao expor seus pontos de vista, tanto no trabalho quanto nos encontros ocasionais com os amigos, e também nos cursos extracurriculares que gostava de fazer.

Mas Gustavo continuava a ser uma pessoa inábil em muitos aspectos. Não lhe foi difícil chegar à dolorosa conclusão de que não deixara de ser um idiota. Sofria, segundo ele mesmo, de uma espécie de idiotia social. Jamais percebia um sarcasmo, uma observação maliciosa, uma indireta; jamais dizia a palavra adequada que uma ocasião exigia.

Tudo que Gustavo conseguiu foi construir um complicado arcabouço de falso intelectualismo ao qual se agarrava na esperança de encontrar um lugar no mundo das pessoas, no mundo dessa espécie de animal que, segundo imaginava, somente o aceitaria se ele provasse que não era imbecil.

Por isso se tornara um chato, um pedante. Sabia do seu mal, mas não conseguia se desvencilhar dele. E a cada dia percebia com mais precisão a distância que separava o seu falso intelectualismo, a sua verborragia, do mundo real, do mundo em que as pessoas se expressavam com facilidade e sem nenhuma preocupação de impressionar quem quer que fosse.

Gustavo não entendia a fundo de nenhum tema. Passava a vida a colecionar pedaços de informações, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, para assim construir um suposto saber que imaginava fosse o que as pessoas dele esperavam para admirá-lo. Sabia que no fundo era ao seu pai, já falecido havia tanto tempo, que ele queria agradar na figura das outras pessoas, quando se esforçava para não parecer idiota – aprendera isso em algumas sessões de psicoterapia. Mas saber disso não o livrava daquela obsessão.

Pois bem. Gustavo, levando consigo por onde passava essa sua idiotia social, essa visão distorcida do mundo e de como ele funcionava na prática, não podia se sair bem nos relacionamentos. Por isso, cada paixão em sua vida era desastre certo. E houve muitas, e com cada uma aprendeu um pouquinho, mas só um pouquinho. E a vida precisaria ser muito mais longa para que ele aprendesse o suficiente.

Certa vez, após algum tempo livre dessas paixões e desses desastres, ele se viu, de novo, apaixonado. E para não perder o hábito, ou por não conseguir agir de modo diferente, deitou verborragia em cima da moça, chamada Melissa. E ela, muito perspicaz, percebeu logo – aliás, todas as pessoas percebem – o esforço dele para parecer interessante. Era um esforço sincero, pois estava mesmo apaixonado por ela e usava os recursos de que dispunha. Mas era um esforço, e se era um esforço deixava de ser natural, e, se não era natural, assustava.

O desespero por perceber que aquilo não estava funcionando fez com que ele se apressasse em se declarar. E ao se declarar exagerou um pouco, aliás, exagerou muito, e Melissa de novo se assustou. No mínimo ele não está sendo sincero, pensava ela. E com razão. Ele estava, sim, apaixonado, mas fora dramático demais e aquilo soou falso.

Não obteve a resposta que desejava. Ela lhe ofereceu apenas sua amizade. E ele não teve forças para insistir.

Meses depois, porém, ele ainda não conseguira tirá-la da cabeça. Decidiu propor-lhe um encontro. Telefonou para a moça e combinaram um local, horário e data.

Os cinco ou seis dias que antecederam o encontro, Gustavo aproveitou para pensar sobre o que iria dizer. Mas já estava certo do que diria. Tiraria a máscara, simplesmente. Diria a ela que lhe desse a chance de tentar ser o que ele verdadeiramente era, ou seja, um idiota que não sabia quase nada da vida e que vivera até então com vergonha disso; e que esquecesse as palavras infelizes que ele escolhera todas as vezes em que quis impressioná-la.

E enfim chegou o dia do encontro. Pouco antes de sair de casa, tinha as mãos frias e úmidas e a garganta estava seca. Respirou fundo e foi.

Chegou um pouco antes e pediu uma bebida, que ia sorvendo em pequenos goles enquanto esperava. Ficou recordando os seus costumeiros arroubos de falso intelectualismo, o seu pedantismo, do qual tinha tanta consciência e que, por isso mesmo, lhe causava tanto sofrimento. Era tão treinado que sua fala às vezes até lhe parecia fácil, por isso talvez difícil de conter.

Mas dessa vez seria diferente. Tiraria a máscara, como já decidira, diante da moça aquela noite.

E ela finalmente chegou. Linda, os cabelos molhados, soltos sobre os ombros, pois chovia, e ela descera do táxi diretamente para a mesa do bar onde ele a aguardava.

A voz – que antes fora solta, sonora, verborrágica – desapareceu; a garganta não emitia mais nenhum som; os olhos se tornaram patéticos – eram os olhos de um autêntico idiota – ao fitar os dela, que esperava, contendo a custo o riso.

Ele então acenou ao garçom e apenas gesticulou para pedir a conta, tendo desistido já de recuperar a voz. E não ficou ali esperando que o moço retornasse. Deixou sobre a mesa uma nota de cem e saiu às pressas, sem nem mesmo despedir-se da moça, que o fitava boquiaberta.

Nunca mais se encontraria com ela, ia refletindo, enquanto se encaminhava para a calçada, de onde acenaria para um táxi. Por isso não lhe importava mais ter ou não ter de volta a sua voz.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

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Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

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