(Décimo primeiro conto de BRASA TEIMOSA)
(Djalma e Celso vinham sempre me visitar. Celso rolava de rir das histórias do outro.
Mas aquela noite o Djalma chegou com o semblante carregado. A voz era só um fiapo. Deixou-se cair no sofá. Recusou cerveja. Queria nos contar algo.
– O que houve, Djalma?
– Gente, preciso contar uma coisa, ele disse, rosto grave. Há muitos anos um menino franzino e triste foi admitido numa escola no interior. O calhorda do professor o perseguia; arrumava pretextos para humilhá-lo. O pobrezinho não passava um dia sem levar cascudos. O diabo do homem o xingava e lhe punha apelidos ridículos. De nada adiantava o coitado se esforçar, fazer todos os deveres, comportar-se. Não evitava o tratamento desumano.
– Em que cidade foi isso?
– Depois eu digo, Celso; vai escutando. Aquele cisquinho de gente só teve sossego depois que o professor se mudou. Mas não esqueceu. Na adolescência, soube que o crápula era ninguém menos que seu pai, ex-amante de sua mãe. Ela, por sua vez, faleceu quando o menino engatinhava. Ele foi viver com os tios, que o colocaram na tal escola. O professor, uma cavalgadura que mal sabia o beabá, tinha acompanhado de longe o menino, odiando-o como odiara a mulher. Não perdeu chance de humilhá-lo.
– Mas o que isso tem a ver com sua esquisitice?
– Calma, gente, eu chego lá (e o Djalma tinha a voz embargada). O menino cresceu. Nele também cresceu o desejo de vingança. Levava vida normal, mas bolava o fim da vida do outro. Acompanhou, anos a fio, os movimentos do professor. Bem, hoje ele fez o que tinha de fazer. Desesperado, precisa escapar ao flagrante…)
(Trecho do conto UM CASO DE VINGANÇA E RISO, do meu novo livro, BRASA TEIMOSA, a ser publicado em breve.)
