“De vez em quando pego a estrada. Saio atrás de sossego em pequenas cidades. Foi assim que fui parar em Campo Morto.
Achei a venda de sô Norberto. Entrei, cumprimentei e pedi uma cerveja.
Todos os olhos se voltaram pra mim.
– O amigo é da capital, não é? – Quis saber sô Norberto, um metro e noventa, barriga protuberante. Como os demais, sorria curioso e zombeteiro.
– Sim, respondi. Muito prazer, meu nome é Bruno.
– E o que veio fazer neste fim de mundo, Bruno?
– Vim na esperança de ouvir histórias, sô Norberto… É esse mesmo o seu nome, não?
– Sim, para servi-lo, amigo. Então você é um pesquisador, algo assim… Ou é da polícia?
– Ah, não, sô Norberto – respondi rindo. Digamos que sou um curioso a respeito da alma humana. Por isso gosto de ouvir histórias.
– Mas na capital deve haver muito mais histórias interessantes, Bruno.
– Talvez, sô Norberto, talvez… Já estão muito repetidas.
– Tá certo, Bruno. Mas em Campo Morto eu não sei, não. Aqui não acontece nada interessante. As pessoas vão levando sua vidinha em preto e branco. O dia quase sempre acaba como começou. Aí, de vez em quando os sinos da igreja anunciam uma morte. E é então que a gente pensa um pouco sobre aquela vida que se foi. Descobre que nela não aconteceu nada. O sujeito nasce, cresce, vive, tem filhos, envelhece, adoece e morre. Só isso, Bruno.
– Mas, sô Norberto, se a gente chegar um pouco mais perto de uma vidinha dessas, pode descobrir que lá dentro, no fundo de sua alma, existem sonhos, esperanças, angústias, dores, alegrias, segredos… Uma história interessante..)
(Vigésimo terceiro conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)
