Acordou xingando. Era segunda-feira e o despertador berrara aos seus ouvidos de domingo. Olhou com desprezo para Marieta, que fingia dormir. Vestiu-se, foi à cozinha, bebeu um resto de café da garrafa térmica, acendeu um cigarro e saiu batendo a porta.
Chutou o vira-lata que não saía de seu portão, praguejou, esmagou com a sola do sapato a bagana do cigarro e foi se postar no ponto do ônibus. Vinte minutos depois, apontava na esquina o coletivo. Cheio demais, não parou. Arnaldo xingou o motorista, a mãe do motorista, a avó do motorista, todas as gerações do motorista. Depois xingou a empresa de ônibus, depois o governo, depois o Papa.
Por sorte passava por ali o Adalberto, gente boa pra caramba. Entrou no carro dele e continuou xingando, despejando seu azedume nos pacientes ouvidos do amigo. Primeiro xingou a Marieta, depois o motorista do ônibus, depois a empresa de ônibus, depois o governo, depois o Papa; voltou a xingar a Marieta, depois o chefe, depois os colegas, depois a Marieta. Adalberto pedia-lhe calma, aconselhava. Arnaldo passou a xingá-lo também. Tentava mesmo ofendê-lo: Idiota! Trouxa! É por isso que ninguém te respeita! Vai ver que até chifres você tem. Foi assim até à entrada da empresa. Irritado com a placidez de Adalberto, desceu do carro praguejando, bateu com força a porta e dirigiu-se ao trabalho. Nem pensou em agradecer pela carona…”
(Décimo sétimo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser publicado em breve.)
