“Saiu de casa às cinco da manhã. Não conseguira dormir. Um vazio o enchia de um nada incômodo. Pôs no ombro uma mochila com alguns víveres e partiu.
Tinha mais de quarenta anos. Vivia sozinho na casa herdada. Sobrevivia do artesanato.
Deixou a área urbana e entrou numa estrada de terra. Era impulsionado por um anseio irresistível.
Três horas depois, parou para descansar. Perguntava-se por que saíra aquela manhã. Comeu da merenda que levava e desceu até o regato para se refrescar e matar a sede. Voltou e se sentou à sombra de uma árvore. O que procuro? – Indagava-se. Há muito tempo deixara de sonhar. Agora seguia em busca de algo que seu espírito não identificava.
Autoconhecimento? Sabedoria? Bobagem – concluía. Há muito tempo já não quero saber quem sou. E essa história de sabedoria é outra bobagem. Me distraio com artesanato, é o suficiente. Se bem que às vezes… E nesse ponto se lembrava dos seus amores frustrados. Afastava o pensamento enxerido. Voltava a se perguntar por que não dormira à noite e se levantara tão cedo para aquela jornada.
O pensamento enxerido insistiu. Isso também era inusitado. Havia anos que se considerava adaptado à vida solitária. Raramente se lembrava dos antigos amores. Incomodado, tentou combater o intruso. Seguiu caminhando. O Sol no meio do céu, o calor aumentava. Preferiu andar junto à margem do regato”
(Vigésimo primeiro conto de BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)
