“Um animal monstruoso assustava os moradores. As pessoas iam à delegacia pedir ajuda. O monstro de olhos brilhantes entrava nos quintais, atacava as galinhas, estragava tudo. Os policiais saíam à caça do bicho, mas voltavam desapontados.
Tudo começou com uma história de solidão. Sô Juquinha, homem de seus oitenta anos, miúdo, gago e triste, vivia num canto esquecido daquelas paragens. A cidade ficava a poucas léguas dali, mas ele raramente ia até lá. Tinha preguiça das pessoas. Sua gagueira também não ajudava. Antigamente, tentava vencer aquele empecilho, esforçava-se, firmava a voz, endireitava o corpo miúdo, tentava olhar as pessoas nos olhos. Mas foi perdendo a esperança não só de vencer a gagueira, também de conquistar a Terezinha. Ela sempre zombava dele, imitando-o. Depois entrava em casa às gargalhadas. Ele recolhia os cacos de sua autoestima e retornava para a casinha de sô Zeca e dona Margarida, seus pais.
O tempo passou, Terezinha se casou, teve filhos, mudou-se para outra cidade…”
(Décimo quarto conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)
