Sobre o conto RECONSTRUÇÃO

“A rotunda figura do Amauri dobrou a esquina e desapareceu da paisagem tristonha. Fim de tarde de um domingo quente, quieto, sufocante. A rua em que morava era arborizada e plácida. Tanta placidez, no entanto, só aumentava sua angústia. Tinha o coração sedento não sabia de quê.

   Ele se sentia um balão prestes a explodir, pois vivia cheio de nada. Foi para o bar do Eugênio.

   – Uísque duplo, Eugênio – nem mesmo cumprimentou os amigos, que ocupavam mesa à parte.

   – O homem hoje não tá pra muita prosa, hein – disse um deles, o Edmar.

   – O time dele perdeu – observou o Cléber.

   – Nada! Ele não liga pra isso. Aliás, não anda bem. Tenho notado.

   O Amauri percebeu que falavam dele e os encarou com uma expressão amargurada. Ambos ergueram os copos em sua direção. O gesto era um cumprimento mudo, mas também demonstração de respeito para com o silêncio do amigo.

   Bebeu a primeira dose e pediu a segunda. Sentado numa das banquetas, olhava a todo instante para os outros dois. Queria falar-lhes, mas também queria…”

(Vigésimo segundo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)

Publicado por

Avatar de Desconhecido

Durval Augusto Jr.

Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022). Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.

Deixe um comentário