“A rotunda figura do Amauri dobrou a esquina e desapareceu da paisagem tristonha. Fim de tarde de um domingo quente, quieto, sufocante. A rua em que morava era arborizada e plácida. Tanta placidez, no entanto, só aumentava sua angústia. Tinha o coração sedento não sabia de quê.
Ele se sentia um balão prestes a explodir, pois vivia cheio de nada. Foi para o bar do Eugênio.
– Uísque duplo, Eugênio – nem mesmo cumprimentou os amigos, que ocupavam mesa à parte.
– O homem hoje não tá pra muita prosa, hein – disse um deles, o Edmar.
– O time dele perdeu – observou o Cléber.
– Nada! Ele não liga pra isso. Aliás, não anda bem. Tenho notado.
O Amauri percebeu que falavam dele e os encarou com uma expressão amargurada. Ambos ergueram os copos em sua direção. O gesto era um cumprimento mudo, mas também demonstração de respeito para com o silêncio do amigo.
Bebeu a primeira dose e pediu a segunda. Sentado numa das banquetas, olhava a todo instante para os outros dois. Queria falar-lhes, mas também queria…”
(Vigésimo segundo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser lançado em breve)
