“Maurício estava eufórico. Seria vitorioso, diziam-lhe os amigos. Melhor ator, diretor e autor de teatro. Caso acontecesse, quando se repetiria?
– Quero parar no auge, Roberto. Se tiver essa tripla vitória, encerro a carreira.
– Ficou maluco, cara!
– Não é maluquice, é sobriedade. Tenho sessenta anos. Estarei pleno, caso consiga os prêmios.
– Você pirou. Um ator sóbrio e saudável pensa em tudo na vida, menos em botar fim numa carreira que começa a deslanchar.
– Roberto, a filosofia oriental nos ensina que a toda plenitude se segue um esvaziamento, um declínio. É lei universal. Vou desafiar essa lei, parando no auge.
Chegou antes de todos ao teatro. Percorreu a grande sala, caminhou entre as cadeiras, sentou-se numa delas. Imaginou sua peça sendo apresentada. Viu a si próprio no papel de protagonista. Foi ao palco. Imaginou a plateia, de pé, aclamando-o. A glória se avizinhava.
Tudo ocorreu como esperado. Levou os prêmios de melhor ator e melhor diretor. Uma pluma no abismo, de sua autoria, foi eleita a melhor peça.
Foi para casa. Felicidade, plenitude. Não me falta mais nada, pensou, tonto de alegria.
Abriu o champanhe, que comprara em segredo, e fez um brinde à vida.
Não pode haver felicidade maior – exclamou.”
(Vigésimo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser publicado em breve)
