“Esta quarentena tem me deixado estranho, confuso, meio amalucado. Às vezes fico acabrunhado, sem ânimo para o que quer que seja. Outras vezes me pego às gargalhadas sem nenhum motivo. Me olho no espelho e dou de cara com a cara de um cara muito maluco, os olhos vidrados e rindo a valer!
Moro sozinho há vários anos, solidão pra mim não chega a ser propriamente um problema. Acontece, porém, que agora sou um prisioneiro. É diferente. Ando de um lado para o outro dentro de casa. Tento ler, mas a rua me chama… A rua me chama e eu não posso ir!
A insônia também me pega no meio da noite. Fico pensando na quarentena, no Coronavírus, na dúvida se vai ter vacina ou não… Deixo a cama, busco um livro na estante. Mas nem Machado nem Dostoiévski… Nem mesmo o Rosa tem sido capaz de me arrancar deste imenso vazio que tem preenchido todo o meu ser.
Mas vamos ao que quero contar. Eu não tinha ideia das horas. Devia ser umas três da manhã. Saí pela rua, assim, sem mais nem menos. Nem mesmo me lembrei de fechar o portão. Buscava algo, mas não sabia o quê. Só sabia que precisava me livrar. De quê? Também não sabia. Um grilhão indefinível apertava-me. Um sufocamento. Uma revolta. Um querer indistinto. Uma falta. Aquele vazio denso ameaçava explodir.)
(Décimo nono conto do livro BRASA TEIMOSA)
