
Por mais que possamos nos conscientizar da necessária impermanência das coisas, vamos sempre nos debater teimosamente na intenção de segurar em nós o que já foi, o que já não existe. Isso porque temos, na condição de seres humanos, essa coisa chamada memória. O apego é, portanto, filho de nossos registros mnêmicos; ele é o grande inimigo das mortes.
Todas as mortes são a condição indispensável para a eternidade da essência. A essência única universal se faz perene pela inexorável sucessão de mortes seguidas por renascimentos ao longo dos séculos. Tudo que existe no mundo das formas precisa morrer e renascer o tempo todo para garantir sua eternidade.
O apego, portanto, se baseia numa ilusão, e essa ilusão se dá pela nossa incapacidade de ver, por trás das aparentes estabilidades, o movimento constante das pequenas mortes que redundarão, no seu devido tempo, numa morte maior e aparentemente definitiva.
Aparentemente definitiva, pois a morte absoluta não pode existir, já que a essência não morre.
A essência não morre, mas, para nós, seres amarrados ao passado por essa coisa chamada memória, tudo termina em luto.
Luto por um colo que se perdeu, por uma infância que se perdeu, por uma avó, por uma mãe e por um pai, pela casa, pelo quintal da vovó, pelo amigo, pelo amor que se foi.
Mas tudo isso são apenas momentos do processo perene de transformação, que se expressa em mortes e renascimentos impossíveis de segurar.
Por isso, é impossível enterrar alguém que morreu. O que se enterra é apenas a sua casca.
