“Jéssica mora com sua avó num casarão afastado da cidade. Por causa da teimosia da velha, nunca puderam se mudar. A moça pensa em sua infância. Relembra com saudade os tempos em que viviam ela, o pai e a mãe, ali mesmo, com sua avó.
Tinha seis anos quando perdeu os pais num acidente. Quisera ir com eles, esperneara, fizera pirraça, chorara muito. Em vão. Estaria morta hoje, se os pais cedessem aos seus apelos.
Agora ela tem vinte e sete anos, é funcionária da prefeitura e namora Roberto há oito. A avó não consegue mais caminhar, vive quase todo o tempo na cama. É Jéssica quem cuida dela.
– Eu tenho mesmo que ir agora, Roberto, minha avó precisa de mim.
– Tá certo, mas… Por que você não arruma uma enfermeira pra cuidar dela?
– Que enfermeira, Roberto! Você sabe o custo disso?
– Mas ela tem grana, não tem?
– Tem, mas eu não vou mexer no dinheiro dela, não fica bem. Ela precisa é de mim, eu sou a família dela, será que você não entende?!
Jéssica anda muito irritada com Roberto. Ela se pergunta por que ainda está com ele, um cara egoísta e frio. Pensa em terminar o namoro, mas, se o fizer, não lhe restará ninguém, a não ser a própria avó.”
(Trecho do conto FIM DE TARDE NO CASARÃO, do livro BRASA TEIMOSA)

