Dedicado à obra literária do escritor Durval Augusto Jr.
Autor: Durval Augusto Jr.
Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022).
Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.
O jovem padre recolhia donativos às portas do comércio para entregar a uma comunidade pobre. A rodovia estava a poucos metros dali. Os dois bandidos que passavam de carro não tiveram dúvida: sequestro-relâmpago. Levaram o padre com seus donativos, inclusive dinheiro.
Soltaram-no a quilômetros dali, à beira da estrada.
– Vam’ levar a batina também! – falou o bandido alto e magricela. O outro, baixo e gordo, concordou.
– Mas ela é minha, avisou o primeiro. Tenho planos. A gente vai se dar bem. Cê vai ser o sacristão, falou?
Levaram a batina. Só de sacanagem, tiraram também a cueca do padre e a queimaram na presença dele. Arrancaram o carro e sumiram.
O padre, cobrindo as “partes” com uma das mãos, com a outra acenava para os carros na rodovia, pedindo carona. Sem sucesso.
Desanimado, foi andando ao lado do acostamento. Quando via um carro, ocultava-se um pouco – a vergonha era maior que o desespero.
Fome, sede e cansaço. Mas seguia. Vislumbrou pequeno comércio à frente. Alentou-se. Logo achou um bar. A porta estava aberta. Porém, nu como estava, entraria lá?
Não. Viu uma moto estacionada. Não teve dúvida. Mesmo nu, montou na bichinha e se mandou.
Para onde iria? Ou antes: até onde iria assim, sem nenhuma roupa? Nem sabia a que distância estava de casa ou mesmo da comunidade onde recolhia donativos.
Tinha de avisar a polícia. No entanto, usar um telefone público sem ser visto não seria fácil. Alguns carros já haviam passado por ele, e seus ocupantes, como se esperava, fizeram chover toda sorte de vaias, insultos e impropérios sobre seus lombos desnudos.
Avisar a polícia de que dois bandidos o tinham roubado, levando-lhe até a batina, não seria mesmo fácil. Mas a polícia soube: um maluco nuzinho da silva pilotava uma moto a toda velocidade na rodovia. Acabou preso.
No mesmo dia, o pai de certo Diego recebeu um telefonema do delegado. Foi lá, pagou a fiança e o levou para casa.
– Que história é essa, filho?
– A gente precisa de grana pra formatura, pai. Então fizemos um sorteio. O escolhido teria de se vestir de padre e recolher donativos numa cidade do interior. Sobrou pra mim.
– E essa batina que os bandidos levaram, onde você arranjou?
– Ih!… Foi a tia do Gustavo que fez pra gente. Ela vai me matar!
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Amanheceu pensando no Marcelo. Pouco depois, enquanto tomava café, as pernas estiradas sobre a outra cadeira que colocara a sua frente, ainda pensava nele. Parou para observar a tênue fumaça que subia da xícara, mas quase nesse exato momento já não observava nada. Parou de olhar o café e agora olhava para o nada, não estava mais ali. Viajava em busca de minutos antigos, em que tinha a sua disposição a presença inquietante de Marcelo, a quem, no entanto, ela não dera muita chance de se aproximar.
Por que então nos últimos dias não parava de pensar nele? Foram várias as vezes em que ele tentara um contato mais estreito com ela, e na semana passada ele lhe telefonou de novo, após tanto tempo. E chegou a fazer nova ligação, insistindo para que ela lhe concedesse oportunidade de conversarem. Era difícil para ela confiar em homens. E havia algo no jeito de olhar, nos modos do Marcelo… Não dava pra confiar.
“Mas eu não deixo de pensar nele, que coisa!” – disse consigo mesma. Ergueu-se, esquecida quase do café, e foi se olhar no espelho. Sorriu. Estava corada e os olhos brilhavam. Estava quase feliz.
“Acho que vou ligar para a Mônica… Acho que engordei… Acho que… Ah, não, quero um vestido novo, hoje! Acho que vou ao shopping. Vou ligar para a Mônica.”
Voltando à mesa, prometeu a si mesma que da próxima vez aceitaria sair com o Marcelo.
“Será que ele ainda vai tentar de novo, eu tendo recusado tantas vezes? Vai sim, a semana passada ele ligou duas vezes. Ele vai tentar de novo e eu vou dizer sim!”
Ligou para a Mônica e combinaram um encontro no shopping. Era tarde de sexta-feira, e ela foi esperar pela amiga num café não muito longe de uma das entradas do shopping.
Mas se levantava a todo momento, andando de um lado para o outro, correndo os olhos nas vitrines, voltando a se sentar, levantando-se de novo…
Até que surgiu Mônica, que, ainda de longe, avistou-a e veio saltitante, correndo daquele jeito engraçado, como Sandra Bullock; aproximou-se logo da outra, abraçaram-se, fizeram uma festinha de uns vinte segundos, dando risinhos e gritinhos, e dali foram passear pelos corredores, olhando vitrines, comentando sobre o que viam e ao mesmo tempo sobre o Marcelo, sobre dieta, sobre o vestido que a fulana estava usando na festa na casa da sicrana e sobre como era invejosa a beltrana, sobre o Marcelo de novo e sobre como se relacionar hoje em dia não é nada fácil e sobre o carinha da academia que fica dando em cima da Mônica e sobre a chuva que caiu ontem e sobre o Marcelo de novo e…
Sentaram-se e resolveram tomar um chope.
– Sinceramente, eu não sei o motivo de sua dúvida, Gabi.
– Agora eu acho que não tenho mais dúvida, eu tenho é medo dele não me ligar mais. Um dia o cara acaba se cansando, né. Já esnobei ele demais… Quer dizer, não é que eu esnobo ele, é que… Cê sabe, né… Mas pra ele deve parecer esnobação.
– Amiga, se o cara já insistiu tanto, ligou tantas vezes, por que não ligaria mais uma? Logo agora que você decidiu dar a ele uma chance!
– Mas ele não sabe disso!
– Ah, agora entendi! – disse rindo Mônica. Você quer que eu dê uma ajudinha…
– Nada disso! Só chamei você pra gente conversar, trocar ideias…
Mônica não insistiu, pois a outra parecia falar sério.
Daí a pouco deixaram o café e foram fazer compras. Mônica ajudou a amiga a comprar um vestido bonito antes de se despedir. Mas antes reafirmou sua crença de que Marcelo ligaria de novo para a outra, provavelmente no dia seguinte, que era sábado.
Ela não soube, mas a danada da Mônica naquela mesma noite entrou em contato com o Marcelo e o deixou muito esperançoso, aconselhando-o a ligar para a Gabi. “Faz só mais uma tentativa, e eu garanto que você não vai se arrepender” – disse-lhe por telefone.
O Marcelo dessa vez relutou, embora sentisse seriedade no que a Mônica lhe dissera. Mas é que já havia, antes, decidido não mais procurar a Gabi. Lutando um pouco contra aquela ideia, acabou derrotado pelo fiapinho de esperança que teimava dentro dele. “Quantos sonhos – disse a si mesmo ao passar perto de uma floricultura – já brotaram e em seguida feneceram nos dúbios canteiros do meu coração? Uma tentativa a mais ou a menos…”
E resolveu ligar para a moça.
Como ficou sabendo, pela Mônica, do hábito que tinha a Gabi de se deitar à beira da piscina nas manhãs de sábado, e ficar lendo alguma coisa, com o celular ali ao seu lado, resolveu ir até lá naquele horário.
Aproximou-se sorrateiro da casa, andando um pouco agachado, até que pudesse observá-la, sem ser visto, através do gradil que completava o muro.
Estando já posicionado, esticava de vez em quando o pescoço para vê-la lá dentro, ao lado da piscina, lendo um livrinho. Viu o celular a pouco mais de um metro de distância da mão dela.
Marcelo trazia um buquê de rosas. Respirou fundo e sacou o celular. Acionou o número dela e pressionou o botão. Ficou observando de longe, ainda sem ser visto, para ver a reação da moça quando ouvisse o chamado em seu aparelho.
Ela se ergueu assim que ouviu o primeiro toque. Olhou, viu de quem era a ligação – claro, era aquela ligação que ela tanto esperara! – mas se conteve e decidiu esperar que o toque se repetisse, talvez até mesmo que parasse de tocar para que Marcelo insistisse mais um pouco, telefonasse de novo, mais tarde, outro dia, talvez… E foi se deitar de novo ao lado da piscina.
No entanto o coração dela estava aos pulos, se bem que sua fisionomia, de longe, não demonstrasse isso.
E o Marcelo, vendo apenas frieza e indiferença naquela atitude, guardou o celular, atirou as flores numa lixeira e foi embora. Não houve mais nenhum telefonema. Nem flores.
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido, 2016)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Mais uma vez o Mendes ia atender a um recado da mulher dele, a Jussara. E dessa vez eu ia com ele, pois me encontrou pouco depois de ter recebido o recado, um bilhete que um menino tinha levado pra ele no bar do Marcelo, naquela manhã de sábado. Me chamou pra ir caminhando com ele; foi desabafando comigo.
“Olha, Júlio, eu não suporto mais esta história da mulher ficar me mandando recadinho para eu ir me encontrar com ela lá na casa da Lourdinha, depois de ter me enchido o saco com suas desconfianças. Se eu fosse um sujeito malandro que nem o Tales, que vive mentindo para a pobre da Isaurinha, dizendo que teve de trabalhar até mais tarde por exigência do chefe, ou que precisou tomar uma cerveja com o Otávio porque o Otávio precisava desabafar etc., coisas assim que ele inventa quando na verdade vive chifrando a coitada, se eu fosse um cara assim, ela teria alguma razão de apelar comigo, de ficar com desconfianças, com ceninhas de ciúme. Mas eu sou um cara sério, porra, e sou apaixonado por ela, só penso nela, só vivo por ela. Isso deixa a gente desanimado e até revoltado. Já até sei o que ela vai me dizer: que ela estava nervosa, que depois conversou com a Lourdinha e que a Lourdinha mostrou pra ela que eu não sou o cachorro que ela fica dizendo que eu sou, que todo mundo que me conhece sabe que eu sou um cara honesto, discreto, trabalhador, e que nem presta atenção em outras mulheres, e que eu pareço até um idiota, um retardado, pois só vivo falando nela, como se ela fosse a única mulher do mundo. Enfim: tudo que ela sempre diz quando se arrepende e quer reatar. E tem hora que eu acho que sou é isso mesmo: um idiota, sou ou não sou? Eu fico observando os caras que se dão bem com as mulheres: só os sacanas se dão bem. Os bonzinhos que nem eu… A gente só se ferra!”
A gente ia caminhando devagar. De vez em quando parecia até que ele se esquecia da minha presença e falava como se estivesse pensando alto. “Pensei em levar, de novo, como das outras vezes, um buquê de rosas pra ela, mas quer saber de uma coisa? Desta vez, não. Quem sabe a diaba não fica querendo é isso mesmo: inventa briguinhas comigo, pra depois me ver chegando lá feito um idiota, um cachorrinho arrependido, todo humilde, requerendo o perdão dela, como se eu tivesse feito algum trem errado! Ou então, quem sabe não é justamente por isso – por eu chegar lá com ar de culpado – que ela acaba ficando ainda com alguma desconfiança, e achando que pode ser enganada, pois “homem nenhum presta”, como ela não se cansa de dizer? Não vou levar flores desta vez. E nem vou chegar lá todo humilde, todo pedinte, como das outras vezes. Vou chegar de cabeça erguida; afinal não sou nenhum cafajeste, não fiz nada errado, não menti, não enganei.”
Naquela manhã, naqueles poucos minutos de caminhada entre o bar do Marcelo e a casa da Lourdinha, o coração do meu amigo Mendes experimentou muitas variações de sentimentos.
“Aquele dia que ela me deixou lá em casa sozinho, sabendo que estava passando mal, com uma dor terrível, sem nem poder sair para buscar um remédio na farmácia, aquele dia foi demais. Se eu não gostasse dela, eu ainda ir querer ir atrás dela no outro dia? Se fui é porque gosto dela. E agora ela de novo dá seus chiliques e corre de novo pra casa da Lourdinha, fica lá dois dias e hoje me manda um bilhete dizendo que quer falar comigo. Eu vou, mas desta vez nada de flores.”
“Quando eu chegar, cê vai ver, Júlio, ela nem vai esperar eu dizer nada e já vai vir logo correndo pra mim de braços abertos, como ela sempre faz. Eu acho que é por isso que eu sempre volto pra ela, pois quando ela corre pra mim daquele jeito, com aquele sorriso, aquele momento é gostoso demais, é impagável. Aliás, Júlio, pensando bem, eu vou levar umas flores sim. Ali perto tem um florista. Num instante a gente manda fazer um buquê.”
Pobre Mendes! Levava as flores. Mas logo que avistamos a varanda da casa da Lourdinha, vimos também uma cena que acabou com ele. A Jussara estava agarradinha na cintura de um sujeito e olhando sorridente para o nosso lado, com ar de quem se divertia à custa da desgraça do meu amigo. Eu tentei retê-lo, mas ele avançou cego na direção dos dois. Eu também fui correndo um pouco atrás dele, tentando ainda fazer com que ele se acalmasse. Não tive como contê-lo. Quando ele estava a cinco passos dos dois, o outro sacou o revólver e atirou. O tiro passou de raspão pelo braço do Mendes. Por sorte ou azar, eu também estava armado aquele dia. Atirei e o cara caiu. Graças a Deus, não morreu e já deve até ter saído do hospital.
Mas o Mendes no mesmo dia correu para a rodoviária, dizendo que ia embora pra terra dele e que ia ficar lá pra sempre. E agora me sai uma notícia dessas no jornal, até com a foto dele, dizendo que foi encontrado morto. Diz o jornal que foi suicídio. Deve ter sido mesmo. Nem todo mundo gosta tanto de viver quanto eu.
(Publicado em meu livro A aljava de Cupido – 2016)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Dizem que o Edifício JK é um dos mais interessantes de Belo Horizonte devido à variedade de tipos humanos que ali habitam.
Quando, porém, Maria Júlia resolveu morar ali, ninguém imaginava que sua presença, pouco tempo depois de se instalar num duplex do nono andar, causaria reações as mais variadas, dependendo do temperamento, origem, formação ou orientação sexual de cada um dos vizinhos mais próximos. Não por ela ser uma morenaça esbelta, alta, bonita, perfumada, de esvoaçantes cabelos encaracolados, cuja presença nos corredores provocava nos homens e em algumas mulheres o estranho fenômeno de abrirem a boca e se esquecerem de fechá-la, o que, aliás, mais tarde, acabou lhe rendendo alguns dissabores. É que Alejandro – su novio argentino, brasileño de corazón y apasionado por pan de queso – somente a custo conseguia controlar seu ciúme.
Mas Alejandro acabou se acostumando, mesmo porque o que em seguida traria a ambos dor de cabeça muito maior fez com que as reações do tipo abre-e-não-fecha das bocas fossem substituídas por… Bem, Maria Júlia não era muito discreta quando recebia Alejandro em sua cama. Na hora H, ou mesmo antes, muito antes do momento M, do instante I, a morena se punha primeiro a miar feito uma gata no cio, para em seguida aumentar cada vez mais a intensidade das indiscretas vocalizações, até que todo o prédio e até mesmo os passantes da Rua Guajajaras pudessem ouvir seus gritos desvairados ecoando madrugada adentro.
É claro que aquilo incomodou muita gente. Foram ter com o síndico, que em seguida tocou a campainha do AP de Maria Júlia.
A morena o convidou a entrar e o recebeu na sala, um tanto constrangida, porém sem deixar de mirá-lo com seu indisfarçável ar de quem só pensa naquilo, embora quase nunca pensasse naquilo – ela apenas fazia aquilo, assim como nós não pensamos sempre em comida, apenas comemos. Explicou-lhe que era impossível controlar-se na hora do “vamo ver”, mas que discutiria o assunto com seu namorado.
O síndico aconselhou revestir as paredes com isopor, e Maria Júlia aprovou a ideia. Mais tarde, relembrando aquela visita, disse a si mesma que o síndico até que era um cara legal.
Providenciou-se o revestimento das paredes. Alejandro trouxe até uma botella de vino argentino para celebrar o primeiro encontro após aquela providência.
Muito bem. A gata se pôs a ronronar, depois a miar e… Até aí tudo bem. Mas quando, próximo da hora H, vieram os gritos, dessa feita talvez até mais intensos, pela suposta garantia dada pelo revestimento das paredes, os vizinhos voltaram a se sentir incomodados. Quem passasse próximo às portas dos apartamentos ouviria os comentários de indignação, muitos deles apenas sussurrados, e movimentos de passos de um lado para o outro dentro das habitações.
Nova visita do síndico, nova promessa, feita por Maria Júlia, de resolver o problema.
Dessa vez teve a ideia de pedir a Alejandro para fechar-lhe a boca com esparadrapo assim que o rala-e-rola se iniciasse. Assim foi feito. Mas a gata, gemendo muito e agitando a cabeça pra lá e pra cá, fez Alejandro pensar que estava aflita com o esparadrapo abafando-lhe o grito. O muchacho, preocupado, destapou-lhe com cuidado a boca. Ela então se pôs a gritar: “Ai, não, não tira! Não tira! Ai, ai, não tira! Não tira! Não tira!” – referindo-se, logicamente, ao esparadrapo. Mas Alejandro não entendeu assim, e repetia: “No lo voy a sacar! No lo voy a sacar! Tranquila, tranquila!”
Chegaram à conclusão, Maria Júlia e Alejandro, de que não havia outro recurso a não ser não transarem mais no apartamento da gata, no JK. Decidiram que agora só ficariam juntos no motel.
Mas, pobre Júlia! Não teve mais sossego. Quando saía de casa ou chegava do trabalho, sempre havia um ou mais engraçadinhos a dizer de longe: “Não tira! Não tira!”. Ela ouvia isso e em seguida ouvia também as risadas, mas quando se virava na direção das vozes não via ninguém. Eles sempre se escondiam a tempo. Maria Júlia não podia mais viver ali.
É por isso que ela está pensando em voltar para a casa dos pais. Mas talvez Alejandro lhe peça em casamento e os dois passem a morar em outro bairro. Casando-se, o problema pode ser contornado. Em conversa com a prima Sara, Maria Júlia ficou sabendo que as mulheres casadas geralmente não gritam na hora H. “Por que será?” – ela se pergunta, ingênua e linda.
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Depois de ter passado a manhã passeando pelas plácidas e verdíssimas planícies salpicadas de dóceis, inocentes e despreocupadas ovelhas; ter avistado, logo adiante, a montanha cujo pico era esbranquiçado pelo gelo, e, atrás desta, o céu de um azul desmaiado, manchado, aqui e ali, por escassas nuvens, agora eu estava de novo no centro de Dublin.
Caminhava pelo lado Sul do rio Liffey e, à medida que avançava, percebia o movimento de minha alma indo e vindo entre a paisagem nova que me cercava e a paisagem antiga de meu coração viciado em lucubrações. Nunca, no entanto, me sentira tão inteiro e tão em paz comigo mesmo, tão concertado com minha decisão recente de caminhar sozinho pelo mundo, se não pudesse fazê-lo acompanhado de quem eu realmente amasse. Essa coerência e essa honestidade proporcionavam-me leveza e força. Sim, se precisasse seguir sozinho pelo resto da vida, eu o faria sem nenhuma dúvida, só para preservar em mim aquela preciosa sensação de poder sobre mim mesmo, poder esse desconhecido, ia eu refletindo, daqueles que se enganam a si mesmos por medo da solidão.
Eu me deixava ir, admirando tudo a minha volta, mas nem por isso abandonando a doce viagem interior que também fazia enquanto andava por Dublin. Passei, indo e voltando, por algumas pontes – a O’Connell Bridge, a Sean O’Casey Bridge, a Samuel Beckett (esta última, em forma de harpa, gira para dar passagem às embarcações) – e admirei o belo edifício público chamado Custom House, construção do século XVIII, em estilo neoclássico. O clima estava ideal para um brasileiro caminhar, pois era agosto e a temperatura chegava aos vinte graus centígrados.
Logo me veio aquela fome gostosa de quem tem saúde e está feliz. Encaminhei-me então para a Dama Street e, enquanto comia, cheguei a me perguntar o motivo daquela felicidade, já que havia em mim outra fome que naquele momento eu não via como aplacar.
Depois de comer, pus-me de novo a perambular pela cidade, até que, um pouco mais tarde, chegou o momento de fazer o passeio de barco.
Embarquei. E não precisei de mais de dez minutos após o início do passeio para ter a convicção de que aquela outra fome a que me referi poderia ser aplacada ali mesmo em Dublin. A loura alta e bonita me olhava com insistência – e que olhar! – e eu não sei até hoje dizer como foi que, de um instante para o outro, eu me vi sentado ao lado dela, que, se dizendo holandesa, falava em Inglês – um inglês um tanto engraçado, que eu, com meu Inglês ainda mais macarrônico, tinha de me virar para entender.
Mais tarde, quando bebíamos na Temble Bar, a safada acabou me confessando que era argentina! E eu sofrendo à toa para falar com ela em Inglês! Então lhe disse: “Prefiero que hablemos en Español, porque lo comprendo mejor.”
Passamos a noite no hotel onde eu me hospedava. No dia seguinte fomos explorar um pouco mais a cidade. Ela, que já estava ali havia quase uma semana, tratou de me guiar, e assim visitei em menos tempo um número maior de locais. Ela me levou a alguns museus e parques. Pedi a ela que me levasse ao parque Merrion Square, porque queria muito ver a estátua de Oscar Wilde. Fomos também ao Saint Stephen’s Green Park. Lá nos sentamos e, cercados por toda aquela beleza, começamos – pasmem! – a traçar planos, como se já nos relacionássemos há muito tempo!
Aquela loura tão bela, elegante e dona daquele sorriso e daquele olhar que haviam me arrebatado com a facilidade com que se toma um sorvete de uma criança, aquela beldade que primeiro se passou por holandesa para depois se confessar argentina, acreditem, confessou que há muito tempo tinha o hábito de viajar sozinha!
“Era para encontrarte” – gracejou, quando eu lhe manifestei minha admiração por aquele seu hábito tão pouco comum para uma mulher tão bela.
O meu Espanhol não é dos melhores, de modo que eu, em vez de falar muito, preferia ouvi-la. E recebia como música o jeitinho tão gracioso como ela hablaba.
Nossos planos, traçados lá no Saint Stephen’s Green Park, incluíam, vejam só, vivermos juntos no Brasil. Ela não tinha, confessou-me, nenhum parente nem nada que a prendesse na Argentina. De modo que decidiu me acompanhar na viagem de volta, e viemos direto para o Brasil.
Chegando a Belo Horizonte, ela, de modo despreocupado, entrou com suas malas no meu apartamento. Devido ao cansaço, fomos dormir cedo. De manhã, ao acordar, dei falta dela ao meu lado. Mas senti cheiro de café vindo da cozinha. Instantes depois ela me aparece no quarto, toda faceira, tão feliz e tão minha naquele momento! Tão à vontade, com tamanha certeza de que sempre fora minha, e eu dela, que, distraidamente, deixou escapar: “Não quis te acordar, queria que você dormisse mais um tiquim. Aproveitei e fui na padaria buscar algum trem pra gente comer.” A safada era mineira e sempre vivera em BH! Mas falava tão bem o Espanhol… E de um jeito tão bonitim! Confessou que já tinha me visto muitas vezes em bares do Sion e da Savassi. E a gente tinha de se conhecer tão longe daqui! O simples nem sempre é fácil.
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Mineiro de Patos de Minas, Autran Dourado, que nos deixou em 30 de setembro de 2012, viveu por um tempo em Belo Horizonte, onde estudou Direito. Em 1954, mudou-se para o Rio.
Obras como Os sinos da agonia, Ópera dos mortos e Uma Vida emSegredo – esta última particularmente tocante pela maestria e sensibilidade com que Autran fotografa, bem de perto, a matuta Biela, protagonista – são apenas amostras do rico legado que ele nos deixou.
O último romance que li de Dourado foi Lucas Procópio, lançado em 1985. O meu mestre imaginário, de 1982, e Uma poética de romance, de 1976, são também obras suas que eu havia lido pouco tempo atrás. Em ambas ele se afasta da literatura propriamente dito para analisar o seu próprio fazer literário. Em O meu mestreimaginário, Autran Dourado nos põe em contato com seu alter ego, Erasmo Rangel, que é também seu mestre imaginário.
Mas foi uma pequenina obra desse brilhante autor, talvez a sua obra de menor extensão, a que maior impacto causou sobre meu espírito aprendiz. Refiro-me a Breve manual de estilo e romance, um livrinho que veio a público em 2003, em pequena tiragem, pela Editora UFMG. Cometi o erro de não tentar entrar em contato com ele e expressar-lhe a minha gratidão – enviar-lhe uma carta, algo assim – por ter escrito e publicado esse pequeno tesouro que guardo com muito ciúme. Eu devia ter feito isso antes de sua morte. Mas a gente não imagina que alguém como ele possa deixar a vida; a gente se acostuma com a imortalidade de pessoas assim.
Breve manual de estilo e romance causou grande impacto, como já disse, em meu espírito aprendiz. E, quando tive acesso a esse precioso livrinho, eu já havia escrito dois romances, uma novela e inúmeros contos, embora só tivesse publicado uma das obras. Mas tinha e ainda tenho um espírito aprendiz. E aquele pequeno volume branco acalmou este meu espírito aprendiz. Mostrou-me que podia prosseguir. Ensinou-me paciência, mas encorajou-me; fez-me entender que “é preciso saber fazer o trivial simples; nem todo dia é dia de banquete.”; alertou-me que “Literatura, como toda arte, é afinco, trabalho e amor (…) Pode ser amor mal contrariado, pode doer muito, porém é amor.”
“Escritor – diz Dourado no diminuto volume – é aquele sujeito que escreve com dificuldade; quem escreve com facilidade é orador.” E esse talvez tenha sido, para o meu espírito aprendiz, o seu maior ensinamento.
Ensinou-me a não dar muita bola para a crítica: “Uma opinião desfavorável é como uma picada de mosquito: dói apenas na hora. Se você ficar o resto da vida só pensando no mosquito, não fará nada que preste.” Hoje ainda gosto de prestar atenção tanto às opiniões favoráveis quanto às desfavoráveis. Mas, cá no meu canto, dialogando com meu espírito aprendiz, procuro aparar as arestas de ambos os tipos de opinião. Faço uma ligeira reverência ao mosquitinho da opinião desfavorável – pois acho que ele serve para me manter acordado – e prossigo. Aos afagos de uma opinião favorável, procuro ser parcimonioso ao agradecer e aproveito para me ater às prováveis falhas que o generoso leitor não percebeu.
Se teimo em seguir sonhando com um guarda-sol na praia escaldante da literatura, acho que devo isso, em parte, ao pequeno livro Breve manual de estilo e romance, de Autran Dourado. E também porque sou teimoso mesmo.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Todos nós temos, em algum cantinho, nos recônditos de nosso ser, um tesouro que aguarda paciente o momento em que poderá ser descoberto. Quantos de nós, porém, chegam a atingir o âmago desse tesouro? Suponho que a maioria das pessoas morre sem ao menos se aproximar dessa preciosidade que talvez nos acompanhe ao longo de infinitas gerações, transmitindo-se por inexorável atavismo no decorrer dos séculos, pois creio que esse ouro não tem pressa de se manifestar. Penso que isso é uma questão de justiça – justiça cósmica, diríamos? –, e o Universo não vai permitir que esse tesouro seja entregue a um explorador inábil, preguiçoso e grosseiro. O explorador inábil, preguiçoso e grosseiro não se presta a cavar além de certa profundidade abaixo da superfície.
É preciso cavar fundo nas lavras de nosso ser; O nosso ouro quase nunca se apresenta próximo à superfície, oferecendo-se às primeiras escavações. E é preciso, acima de tudo, coragem para esse tipo de exploração. Porque, até atingir o ouro, será necessário atravessar as regiões sombrias e assombrosas de nós mesmos, chafurdando em pântanos putrefatos onde, através dos tempos, vamos ocultando nosso lixo.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Não se pode iniciar a leitura de nenhum texto de Clarice Lispector inadvertidamente, sem preparo para uma incursão a regiões da alma humana que não se anunciam na aparente inocência das primeiras linhas.
Em Laços de Família, a autora nos apanha em armadilha sutil e vai nos enredando em uma teia irresistível, feito aranha mestra, com seu jeito único de nos surpreender com certas singelezas maldosas que saltam a nossos olhos como se tivessem surgido do nada. Clarice nos delicia com seu poder de nos entregar, em poucos segundos e súbitas pinceladas, preciosos segredos que ela pinça com precisão cirúrgica no meio desse emaranhado complexo que se oculta sob a superfície mais ou menos homogênea das aparências.
Em todos os seus contos nós nos deparamos com esse seu jeito inimitável de nos fazer rir de nós mesmos. De nós mesmos, pois é a humanidade inteira que ela atinge cada vez que seu fino alfinete toca infalível nos pontos mais nevrálgicos de seus personagens.
Rimos ao ler os contos de Clarice, mas rimos com certa angústia – a angústia de nos sabermos tão impotentes para realizar o projeto de fazer corresponder nosso miolo à nossa casca. E ela quase ignora essa casca quando, por exemplo, referindo-se à protagonista do primeiro conto, diz que esta, “já que os filhos estavam na quinta da titia, aproveitou para amanhecer esquisita…”, ou que Antônio – personagem do conto que empresta seu título ao volume – “aproveitara sua gripe para tossir”, num momento de flagrante embaraço diante da hipocrisia da sogra.
E qual é o leitor que, embora fascinado, não aguardaria com a mesma angústia de alguns personagens o término do conto “Feliz aniversário”, pois, como não ser solidário com José e sua falta de jeito para levar a bom termo a farsa que coube a ele conduzir, filho mais velho “agora que Jonga tinha morrido”?
Esses laços de Clarice são irresistíveis precisamente por serem confeccionados com a mesma substância que eles capturam: a fascinante alma humana.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Quando ouvimos a palavra “mente” ou nela pensamos, automaticamente nos voltamos para nossa cabeça – essa estrutura óssea arredondada dentro da qual se encontra uma massa chamada cérebro, que se constitui, por sua vez, de um intrincado conjunto de circuitos estabelecidos entre células denominadas neurônios etc. Desculpem-me os entendidos se essa minha referência a tais componentes do cérebro se mostra por demais grosseira. Confesso que sou mesmo ignorante nessa matéria.
Não me proponho aqui a falar de cérebro. Quero falar de mente. É irresistível para mim, contudo, toda vez que penso na minha cabeça, e consequentemente no meu cérebro, a ideia de estabelecer uma comparação entre ela – a minha cabeça! – e um aparelho de rádio. Quando ligamos um aparelho de rádio e sintonizamos uma determinada emissora, recebemos um sinal sonoro, seja uma música ou a voz de um locutor. Se abrirmos o aparelho, desmontá-lo, escarafuncharmos tudo lá dentro, todo aquele emaranhado de fios, eletrodos e circuitos, encontraremos lá dentro a música ou a voz do locutor? Todos sabemos que não, não é verdade? Sabemos que os sinais de áudio estão no ar, estão “por aí”, emitidos pelos transmissores das estações de rádio. E sabemos que o mesmo ocorre com a televisão. O que o aparelho de rádio, em nossa casa, faz é servir de canal de recepção desses sinais. Uma vez sintonizado naquela frequência, será ouvida aquela emissora que escolhemos.
Ainda um pouco antes de falar da nossa mente propriamente dito, pensemos nos e-mails que recebemos. Eles estão nos nossos computadores? Também sabemos que não! Quando abrimos nossa caixa de entrada para verificar as mensagens que recebemos, acessamos imediatamente um servidor – que pode estar a muitos milhares de quilômetros de distância – e temos contato então com o conteúdo daquelas mensagens. Só teremos contato com as nossas mensagens, mas elas não estarão, a princípio, guardadas em nosso computador, a menos que as arquivemos nele.
E a nossa mente? Está no nosso cérebro? Não, eu penso que não! Nós fazemos download dela a todo momento por meio de nosso cérebro. Ela não se limita nem no tempo nem no espaço, embora possua uma frequência muito específica, única, para cada indivíduo. É claro que falo aqui dos indivíduos considerados “normais”, já que os chamados “paranormais”, sensitivos e alguns psicóticos parecem conseguir a façanha de captar ondas fora de sua frequência. E como a mente não se limita nem no espaço nem no tempo, esses indivíduos muitas vezes avançam no tempo e conseguem contato com o que ainda não aconteceu!
Na realidade, a nossa mente não passa de uma pequena parcela bem específica de uma mente maior – a Mente Cósmica. Nesta se emaranham, sem se misturar, uma infinidade de frequências específicas, correspondendo cada uma dessas frequências a uma mente individual.
Assim, à pergunta: “Onde está a nossa mente?”, eu responderia: “Está por aí! Sim, está por aí, sem limitações de tempo ou de espaço. Mas na frequência específica para cada receptor, ou melhor, para cada cérebro.
A diferença é que, enquanto inúmeros indivíduos podem sintonizar uma mesma emissora de rádio, apenas cada um de nós, teoricamente, pode entrar em sintonia com a nossa emissora particular, ou seja, a nossa mente. E escolhemos cuidadosamente, através da fala, da escrita ou qualquer outro meio de comunicação consciente, o que vamos retransmitir aos que nos cercam. Com a devida censura, logicamente.
Esse tema pode e deve ser desenvolvido. Eu só aticei.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Eu gosto de pensar que quem narra as minhas histórias nunca sou eu. Quando o leitor se depara com uma narrativa em primeira pessoa, logo em seguida pode descobrir que o personagem que narra não é o autor – pelo nome diferente, pelas suas características, pela própria história etc. Mas, se a narrativa ocorre em terceira pessoa, tem-se a impressão de que quem narra é o próprio autor.
Excetuando-se autores como Machado de Assis – que gostava de dialogar com o leitor, apresentando-se francamente como aquele que está escrevendo a história – ou o nosso Roberto Drummond – que em Hilda Furacão foi ele próprio autor, personagem e narrador (mas nesse segundo caso a história não é narrada em terceira pessoa) – eu quero acreditar que quem narra as histórias em terceira pessoa não é o escritor.
No meu caso, pelo menos, eu não quero ser o narrador! Eu gosto de sentir a liberdade e a irresponsabilidade de entregar a narração a um desconhecido. Alguém toma as rédeas da história e eu apenas empresto meu tempo, meu corpo, meus dedos no teclado. Esse narrador-fantasma se apodera do destino e das vidas das personagens e, para meu deleite, faz o diabo com elas.
Mas de onde vem esse narrador intrometido e misterioso? Vem das profundezas de meu próprio eu, evidentemente. Mas emerge também, creio, desse oceano de mentes que habitam uma mente maior – e podemos chamar a isso, como Jung, inconsciente coletivo, ou mente cósmica, ou superconsciência etc.
É certo, contudo, que esse narrador-fantasma só vai conseguir o seu intento se a história que ele conta encontrar algum ponto de contato, alguma onda vibratória no âmago de meu próprio ser, que faça ressonância com a natureza daquilo que ele inventa. Mas, dentro de todos nós, demônios e anjos se engalfinham o tempo todo. Sem isso, aliás, não pode haver literatura.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.