O Simples

   Chegar ao simples não é fácil. Simplificar é limpar, purificar, remover as placas do supérfluo.

   Há sujeiras de toda ordem. Muitas vezes, quando escrevemos, nosso espírito está sujo. Essa sujeira se incorpora ao texto. Precisamos limpá-lo. Limpamos para chegar ao simples, ao belo, ao divino.

   É difícil.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Desescrevendo

Acabo de escrever um livro, respiro fundo e parto para o principal: desescrevo. A história foi lançada no papel (leia-se computador), certo? Mas é hora de arregaçar as mangas e, sem dó, eliminar palavras, frases, quem sabe até parágrafos. Que pena livrar-me de expressões que eu apreciava – belas, porém supérfluas. Excesso de cores. Poluição. Muita palha em pouco milho.

Vou com paciência aparando as arestas da minha empolgação, me livrando de enfeites. Nunca podei tanto meus textos; nunca fui tão impiedoso com metáforas bonitinhas e dispensáveis.

Mesmo neste texto, acho que falei demais. Cuidado com minha tesoura!

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Reciclando lixo psíquico

Um texto literário pode ter ou não cunho catártico. Não importa.  Se for literatura, é reciclagem de lixo psíquico.  Quando criamos um texto literário, expelimos lixo, e, expelindo lixo, nos depuramos. Mas também trabalhamos esteticamente esse lixo, acrisolando sua matéria no cadinho das exigências estéticas de nosso espírito. Obrigamos nossos demônios a marchar em fila, bem comportados, travestidos, por breve tempo, em soldados que empunham a bandeira da contemplação estética. E levamos o produto à apreciação do leitor, que também tem seus demônios.

   Esses demônios saíram da alma do mundo, desse oceano intangível aonde fomos pescá-los. Essa alma do mundo mora em nós, assim como nós moramos nela. Por isso somos capazes de pescar nela nossos demônios – demônios que são de todos nós.

   Mas não é apenas fazendo literatura que reciclamos lixo. Toda arte é reciclagem de lixo. Qualquer trabalho, aliás, é reciclagem de lixo, é adestramento de demônios. Você recicla lixo e domestica demônios quando trata um doente, defende uma causa, projeta uma casa, planta couves ou varre um pátio. Desde que o faça com amor. Sem amor, estará somente maquiando seus diabinhos.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Algumas linhas sobre a criação literária em prosa*

  

Sabemos que a arte literária pode apresentar-se em duas formas distintas: em versos e em prosa. Aqui, no entanto, vamos nos limitar a tecer singelas considerações sobre a segunda dessas formas.

   Um autor pode expressar-se em prosa por meio da crônica, do ensaio, do conto, do romance, da novela, da crítica, do teatro.

   Diante dessas várias possibilidades de uso criativo da palavra em prosa, vamos nos ater a não mais que três: o conto, a novela e o romance.

   Vamos começar classificando esses três tipos de obra do ponto de vista meramente formal. Podemos estabelecer paralelos, de um modo bem simplista, entre esses três gêneros de criação literária e três instrumentos musicais muito conhecidos e apreciados: o violino, a viola e o violoncelo. O conto está para o violino como a novela está para a viola e o romance para o violoncelo. Em outros termos, o conto é, do ponto de vista de sua extensão, uma obra literária curta; a novela, uma obra de média extensão, e o romance, uma obra longa.

   É preciso desfazer alguns equívocos. Um conto, apesar do nome, não é simplesmente algo que se conta. O conto é, primeiro, uma ficção, uma mentira contada artisticamente pelo seu autor; necessita, por isso, ser estruturado com a observância de certos padrões, dentro dos quais, é verdade, o escritor tem o direito de inovar à vontade.

   Não é meu objetivo aprofundar-me no assunto – não há espaço aqui, nem me sinto gabaritado para tal empreitada. No entanto, podemos afirmar que todo conto apresenta as seguintes características: curta extensão, como já foi dito – os meus contos, por exemplo, têm, em geral, entre duas e cinco páginas, mas há contos com dezenas e outros com apenas meia página; poucos personagens, muitas vezes apenas um; conflito único, que precisa ser solucionado ao final da história e que cria no leitor uma tensão crescente até o seu clímax. Muitas vezes o conto não chega a gerar uma tensão significativa, apenas leve expectativa no leitor, mas guarda para o final uma surpresa que lhe causa certo susto, ou pelo menos tem a pretensão de fazê-lo.

   A novela literária, como já foi dito, é um texto de média extensão, quanto ao seu aspecto formal. Não se confunde, portanto, com as novelas televisivas. Não necessita possuir toda a intensidade dramática exigida pelo conto, nem número tão reduzido de personagens, nem conflito único. Também não pode conter todo o complexo emaranhado de tramas secundárias que muitas vezes se encontram num romance.

   Não se deve também pretender esticar um conto para transformá-lo em novela, nem esticar uma novela para transformá-la em romance! Não estou dizendo que isso seja impossível, mas creio que, ao final, o autor que se aventurar por esse caminho perceberá que terá perdido tempo e talvez comprometido a autenticidade de sua história. Um romance não é uma novela esticada, e uma novela não é um conto esticado – assim como “um cavaquinho não é um violão que não cresceu”, como disse certa vez um personagem do saudoso Chico Anísio.

   E o romance? Não, romance não é mera história de amor, como alguns – poucos, suponho – imaginam. Como já foi dito, romance é uma obra literária de longa extensão, geralmente com mais de cem páginas, podendo chegar a várias centenas, enquanto a novela possui entre cinquenta e cem. Essa classificação, obviamente, não é assim tão rígida. Também aqui não vou me atrever a considerações sobre as características que devem ser identificadas num bom romance.

   Mas há romances que falam de amor? Sim! Um mesmo romance pode – e muito frequentemente o faz – abordar o importantíssimo tema dos relacionamentos entre as pessoas, intercalando-o, ou não, com outros temas. Aliás, dificilmente haverá um romance que não contenha elementos dessa natureza. Mas é muito desagradável quando você diz que está publicando um romance e um desavisado diz: eu não gosto de histórias de amor! Um romance pode apresentar como tema central um ou mais tipos de assuntos dentre uma gama deles: política, filosofia, casos policiais, guerra, ficção científica, suspense, episódios sobrenaturais, fantásticos etc., e também pode ter como tema central… o relacionamento afetivo! Por isso falamos de romance policial, romance de suspense, romance de ficção científica etc. Mas romance, repito, não é sinônimo de história de amor. Desculpe-me, amigo leitor, se insisto nisso, mas há, sim, algumas pessoas – e eu já me deparei com mais de uma – que ainda se confundem a esse respeito.

   A confusão surge, creio, porque em Português, diferentemente do que ocorre em outras línguas, a palavra romance foi escolhida para designar uma obra literária de grande extensão. Em Espanhol, por exemplo, o que em Português chamamos romance é chamado de novela, a novela é chamada de novela corta, e o conto, cuento; em Inglês, o romance é chamado novel, a novela é chamada short-story, e o conto, tale. Acredito que o Português foi influenciado, nesse caso, pelo Francês, que denomina o romance de roman, a novela de nouvelle, e o conto de conte. Mas tudo isso são especulações. Não sou linguista.

* Aos que se interessam pelo instigante universo da criação literária, eu recomendo, dentre as inúmeras obras que tratam do assunto, os livros A criação literária – prosa, de Massaud Moisés, Ed. Cultrix, e Breve manual de estilo e romance, de Autran Dourado, Ed. UFMG.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

João Pedro Autista: palmas pra ele!

Hoje é dia de comemorarmos a existência de um grupo de pessoas muito especiais: os autistas.

Muitos vivem no anonimato e exercem papéis e talentos que não chegam ao conhecimento da maioria de nós.

Existem artistas e profissionais das mais variadas áreas diagnosticados ou identificados como autistas e que ocupam seus espaços tranquilamente na sociedade.

O único mal do autismo é o preconceito. A sociedade humana está condicionada, ao longo dos séculos, a estabelecer o que é “normal”, aceitável e o que, por ser diferente, deve ser separado, discriminado.

Um exemplo do grande equívoco cometido pela sociedade ao discriminar os autistas é João Pedro, o artista autista. Eu acompanho esse jovem há alguns anos, desde suas participações em chats na TV 247, quando ele ainda era um adolescente. Desenhista de grande talento, de lá para cá só fez aperfeiçoar sua arte, desenhando jornalistas e políticos de sua admiração.

João Pedro é hoje conhecido e admirado por pessoas famosas em várias partes do mundo. Autêntico, não esconde seu orgulho de ter conquistado a amizade de pessoas importantes. Não tem falsa modéstia porque é autêntico e não por ser pretensioso.

Viva João Pedro, viva os autistas!

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Serra do Cipó: uma das magias de Minas

Minas são muitas, é o que se diz sempre. E não é exagero. São tantas as Minas, tantas as razões para nos encantarmos, que alguns recantos precisam ser lembrados de vez em quando.

A Serra do Cipó é uma delas. Cachoeiras, caminhos, vegetações, paisagens, pássaros, histórias, comida gostosa. gente hospitaleira…

Na Serra do Cipó, apreciei tudo isso, e estou prestes a repetir a experiência. A última vez que estive lá, quebrei algumas costelas numa pedra, na Cachoeira Véu da Noiva. Mesmo assim valeu a pena.

Voltarei em breve. Mais maduro, mais comedido. Não quero mais quebrar costelas. E, também, preciso me apresentar de novo à Cachoeira Véu da Noiva para me reconhecer (conhecer melhor a nova pessoa em quem me tornei depois daquele dia fatídico em que quebrei as costelas). A culpa não foi da Cachoeira, foi de minha imaturidade.

Aguarde-me, Serra do Cipó!

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

A MALDIÇÃO DAS RIMAS

Patrícia, desde criança, trazia consigo uma peculiaridade: não conseguia se livrar de uma compulsão a dizer tudo com rimas. Podia ser bonitinho aquilo quando era pequena, mas o problema era que, mesmo depois de adulta, a coisa continuou grudada nela como uma maldição.

Quando criança, lá na casinha em que vivia com os pais, em São José de Alguma Coisa, era sempre chamada na sala para se exibir para as visitas.

– Patrícia, vem cá, vem cumprimentar dona Marina mais seu Gonçalo!

Ela deixava as bonecas no quarto e aparecia meio sem jeito na sala, meio encolhida e de má vontade. Aquilo era uma chatice, mas tinha de obedecer aos pais. “Pelo menos se não fosse filha única…” – ela dizia a si mesma em pensamento, antes de deixar escapar a primeira rima, que não podia evitar.

– Oi Patrícia, que vestido bonito! – comentava dona Marina ou qualquer outra comadre de sua mãe. E ela respondia, a contragosto:

“Este ganhei de Dindinha

Quando veio aqui no Natal

Ficou um pouco grande

Mas não faz mal!”

A comadre ria e o compadre também. A pobrezinha forçava um sorriso torto e amarelo. Mordia o polegar, encostada na parede, envergonhada e triste.

Perguntara ao pai um dia:

“Pai, por que sempre sai música na minha fala,

Por que minha voz não se cala,

Quando tem visita na sala?”

O pai respondera: Oh, filha, mas isso é tão bonitinho! E não é música, são rimas.

“Ah, pai, não importa

Da próxima vez me escondo na horta

Ou fico no quarto e tranco a porta!”

E a meninada da vizinhança a considerava maluca. Mangavam dela o tempo todo. Era um inferno aquilo.

Mas Patrícia logo se tornou adulta, com um caminhão de rimas acumuladas em menos de duas décadas.

Logo perdeu os pais e passou a viver sozinha. E a falar sozinha também. Claro, tudo com rima. Quem passava pela rua e se aproximava de sua janela podia ouvir sua voz cristalina jorrando rimas aos borbotões. Era só nesses momentos que ela se sentia à vontade para se expressar. Quando saía para comprar algo na rua, era um martírio.

No armazém:

“Seu Mariano, preciso de alho, pimenta e sal,

E também de colorau,

Mas não embrulhe em jornal!”

Na padaria:

“Dona Penha, quero pão e leite,

E também um vidro de azeite.

Nota de cem espero que aceite”

Por alguns anos pôde viver com os recursos que herdara dos pais. Deixaram-lhe algum dinheiro no banco, que ia usando com muita parcimônia, e algumas joias, que ficavam trancadas num cofre. Quando o dinheiro acabasse, venderia as joias, mas não todas de uma vez e sim uma a uma. Assim podia adiar ao máximo o dia em que teria de procurar um emprego.

Mas certo dia a casa foi invadida por dois assaltantes. Eram desconhecidos na pequena cidade, ela jamais os vira por aquelas bandas. Exigiram tudo que ela tinha. Sem cerimônia foram recolhendo tudo que consideravam de valor na casa.

Desesperada, ela correu para o telefone:

“Meu nome é Patrícia

E não tenho muita malícia,

Mas vou chamar a polícia!”

– Não banque a espertinha, disse um dos bandidos com um sotaque estranho e apontando uma arma para a cabeça da coitada.

Continuaram revirando a casa. A moça, trêmula, era arrastada sob a mira do revólver de um deles enquanto o outro escarafunchava tudo.

No final descobriram o cofre atrás do quadro que ficava na sala de jantar. Patrícia ficou gelada. Exigiram-lhe a combinação, mas ela estava muito nervosa e não mentira quando disse, entre rimas assustadas, que não conseguia se lembrar dos números.

Começou então a rezar:

“Oh meu santo Onofre,

Acuda uma alma que sofre:

Me faz lembrar a combinação do cofre!”

Lembrou-se. E eles levaram todas as joias, e ela nunca as recuperou.

Agora tinha de arrumar um emprego. Foi trabalhar na Prefeitura. Como a cidade era pequena, todos já a conheciam e sabiam do seu hábito de dizer tudo com rimas. O que, contudo, não atenuava o seu constrangimento quando tinha de abrir a boca.

Com o tempo, porém, acostumou-se com a situação, mesmo porque os próprios colegas de trabalho passaram a não se importar muito com aquela sua peculiaridade.

Mas havia lá um tal de Antônio que ela achava insuportável. O setor dele era outro, mas o trabalho dela exigia que os dois se comunicassem com muita frequência todos os dias. Ele era daquele tipo de sujeito que, talvez por falta de assunto, não considerava tedioso insistir em repetir os mesmos comentários jocosos a respeito da triste sina de Patrícia.

Com o tempo ela sentia que o seu próprio desempenho no trabalho parecia prejudicado por isso. O seu problema passou a ser o tal Antônio. Se pudesse não ir mais à seção onde o enjoado trabalhava! Mas o chefe não a substituía, talvez até de propósito, pensava ela. Ninguém parecia ligar para o seu tormento, embora ela sempre alugasse os ouvidos da Mônica, sua colega mais próxima, com seus lamentos dolorosamente rimados.

Ia para casa pensando no tal Antônio, em como se livrar daquilo. Por que ele não morria! Ou por que não se mudava! Ela mesma podia se mudar, mas para onde? Não podia deixar a prefeitura, pois em outro lugar o tormento seria pior, teria que encarar pessoas desconhecidas que lhe dariam ainda mais trabalho.

Talvez, se achasse um namorado, um casamento… Mas quem ali naquela cidade? Ela tinha esperado tempo demais. Agora os homens da sua geração já estavam todos casados. Todos, menos uns porcarias que nem o tal do Antônio.

Às vezes tinha vontade de rezar para algum santo, mas o santo casamenteiro é Santo Antônio, ou seja, xará daquele que vinha infernizando a vida dela.

E de noite era custoso pegar no sono. Ia para a cama sempre atormentada por aquele seu drama diário. E, quando dormia, em vez de ter um sonho bom, sonhava com o tal do Antônio. Aquele diabo não a deixava em paz nem no sono!

Não havia alternativa. Resolveu apelar mesmo para o santo casamenteiro. Certa madrugada, depois de mais um dos seus pesadelos protagonizados pelo chato do Antônio, decidiu se levantar e procurar no quarto que fora da mãe uma imagem do santo, guardada em algum canto desde que ficara órfã.

De joelhos rezou ardorosa e decidida:

“Oh bondoso Santo Antônio,

Me livre desse demônio,

Me arranje alguém para matrimônio,

Alguém que se chame… que se chame…

Que chame Ant..   que se chame Antônio!”

Casaram-se. E até que o Antônio não era tão chato assim. Apenas não encontrava outro modo de tocá-la. E, de todo modo, ela também nunca o tiraria da cabeça.

Consta que foram felizes.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

EU E LORENE EM PARIS

(De meu livro A aljava de Cupido, publicado em 2016)

A tarde era agradável, mas eu já havia caminhado bastante. Por isso resolvi me sentar num dos bancos do jardim que se estende pela margem direita da Champs-Élysées. Naquele momento passavam poucas pessoas por ali. “Que bom” – pensei. Queria um pouco de quietude. Mas, quando me virei para a direita, uma mulher que se aproximava me chamou a atenção. Vi logo que era brasileira, só pelo jeito de andar, de mexer nos cabelos e pelo olhar de franguinha assustada num terreiro estranho. Percebi que vinha na minha direção.

Aprumei o corpo, fiz cara de francês e fiquei na minha (fazer cara de francês significa fazer de conta que o outro não existe – ou que existe, mas cheira mal).

“É brasileira, tá na cara! Com um pouco de sorte, pode ser até mineira, quem sabe!” – pensei, sem desfazer a cara de francês.

Não deu outra. Aproximou-se de mim e veio com o seu bonjour, o seu s’il vous plaît e oesperado je suis brésilienne, je ne parle pas français.

– Não tem prroblema – respondi, enchendo a boca de erres para parecer francês. Já morrei no Brrasil algum tempo. Falo porrtuguês.

E o pior é que, para um cara que nasceu e viveu tanto tempo em Ube’r’lândia, não é fácil inventar, assim, de última hora, aquele sotaque cheio de erres, que eu acreditava ser o de um autêntico francês.

Mas ela caiu feito uma patinha. Aliás, não é que a diaba era mesmo mineira! E, pasmem: mineira de Uberlândia!

Dei-lhe a informação que desejava e continuei com cara de francês.

– Qual o seu nome? – ela quis saber.

– Cyrano – menti, inspirando-me no tamanho do meu nariz. Caprichei na pronúncia – acho que até usei erres demais: Cirrranô. E o seu?

– Lorene.

Elogiei o nome e tratei logo de chamá-la de Lorren’.

– Cê fala tão bonitim! – ela disse, com aquela graça só das mineiras. E aí – confesso – tive que me esforçar mais ainda para continuar “francês”. Por pouco não me derreti todo.

Duas horas depois, e já tendo gastado meio caminhão de erres, consegui beijá-la. Houve um segundo e um terceiro beijos. Mas aí ela se tornou de novo a franguinha assustada. Não podia ficar mais, pois a mãe a esperava no hotel.

Abraçou-me forte, com mais um beijo, e prometeu adicionar-me no Facebook.

Meses depois, entro eu no Barolo, meu bar preferido em Uberlândia, e quem eu vejo? Ela: Lorene. Uma coisa elétrica percorreu minha espinha dorsal. E eu conseguia ouvir um batuque no meu peito. Eu não estava mais tão francês, mas me aproximei disposto a resgatar os erres que havia deixado na França.

Lorren’! Que bom! Eu não esperrava encontrá-la!

– Quem é você… Ah, Cyrano! Conheci pelo sotaque!

E nos abraçamos, mas dessa vez sem beijos. Senti que os meus erres, longe de Paris, haviam perdido a magia.

– Mas, e aí: o que você faz por aqui? Que surpresa! – ela disse, mas sem muito entusiasmo. E antes que eu respondesse, vinha se aproximando quem não devia: Renata, a amiga de Lorene, que tinha ido ao toalete. Acontece que essa Renata era minha conhecida de muitos anos, desde os tempos do colegial. Não nos víamos havia muito tempo, mas ela não deixaria de me reconhecer. Pensei em escapar rápido, como se tivesse esquecido algo no carro, mas não dava mais tempo.

– Aqui, Renata, deixa eu te apresentar meu amigo francês, o Cyrano!

– Cyrano, é… – Renata disse com uma risadinha. Uai, Rafael, cê virou francês assim, de repente?

Baixei um pouco a cabeça, virei as costas para as duas e me encaminhei para a saída do bar com o rabinho entre as pernas. Sem nenhum vestígio de francês. Mas, cá pra nós: barrigudo, careca e com este nariz de Cyrano de Bergerac, eu teria conseguido beijá-la em Paris, se dissesse que era brasileiro?

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

A CARTOMANTE – um clássico de Machado de Assis

Embora devamos ter em mente as diferenças entre a literatura que se praticava nos tempos do realismo de Machado de Assis e as criações literárias dos dias atuais, não há dúvida de que o Bruxo do Cosme Velho escreveu contos que até hoje podem servir de modelo e de exemplo do tipo de estrutura narrativa que caracteriza esse gênero literário.

Entre os principais exemplos, não pode ficar de fora A cartomante. O leitor é levado quase pela mão para seguir de perto os passos de Camilo e Rita em sua aventura amorosa. No final, a rasteira! Sim, todo conto que se preza precisa surpreender o leitor com uma bela rasteira no final.

Quem ainda não leu, leia; quem leu há muito tempo, leia de novo. Vale a pena.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Bicho da noite

O Tadeu, quando bebia, pegava a falar pelos cotovelos. Quando sóbrio, mal se dirigia às pessoas. Todo mundo em São José conhecia seu jeito esquisito. Quando, após umas e outras, começava a dizer que ia matar, fazer e acontecer, ninguém o levava a sério.
Mas nos últimos tempos a população estava assustada. Assassinatos ocorriam na calada da noite. Cada cidadão agora era um detetive. Alguns, também suspeitos.
Um deles era o pobre do Tadeu, devido à mania falar bobagens quando bebia. O delegado torrava os neurônios dia e noite, tentando desvendar o mistério.
Havia outros suspeitos. Um deles, o próprio prefeito. Precisava, diziam as más línguas, justificar a construção – já apalavrada com uma empresa do ramo – de um novo cemitério. Era necessário que morresse mais gente no município. O vereador de oposição Chico Pereira, amigo, por sinal, do Tadeu, era um dos que defendiam essa tese. Muitas vezes bebiam juntos ele e o Tadeu, e o assunto dos dois – como, aliás, de toda a cidade – eram as mortes cada vez mais frequentes.
Os que defendiam o prefeito acusavam…

Trecho de meu conto Bicho da Noite. A íntegra estará em novo livro.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.