Dedicado à obra literária do escritor Durval Augusto Jr.
Autor: Durval Augusto Jr.
Mineiro de Belo Horizonte, Durval Augusto Jr. é formado em Psicologia pela PUC-MG e trabalhou como psicólogo clínico por onze anos. Em seguida migrou para a Justiça Eleitoral, onde atuou como revisor de textos até se aposentar em 2012. Há muitos anos vem produzindo literatura e já publicou as seguintes obras: Fernando Capeta Urubu (fábula – 1999); Almas Tontas (romance – 2006); Sem Paredes (romance – 2011); A aljava de Cupido (contos – 2016); Quero matar o prefeito (contos - 2017); Desvendando a linguagem dos astros – o ABC para entender e interpretar mapas astrais (Astrologia - 2019); e Amor e guerra em Vale Manso (romance – 2022).
Outros dois livros estão sendo preparados para publicação em breve.
Num contexto histórico delicado da vida do País, um homem valente e visionário encontra o amor e a guerra na fictícia Vale Manso.
O inusitado, o pitoresco e o imponderável temperam as peripécias do protagonista, que vê sua vida e as de outras tantas personagens transformadas inexoravelmente.
O amor o arrebata; a luta o convoca.
Aqui está a capa do meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, a ser lançado em breve pela Páginas Editora. Aguardem data e local de lançamento!
Ele a conhecera havia poucas semanas. Mas estava agora com ela ali, às margens do Sena, observando as águas que rolavam serenas naquela manhã de maio. Paris o surpreendera, pois estava muito mais deslumbrante do que ele havia imaginado. Mas tudo estava mais deslumbrante do que de costume. O amor torna tudo muito mais deslumbrante do que de costume, pensava ele, naquele momento em que só o perfume dela e o pulsar de sua respiração eram suficientes para preencher a vida dele, preencher o mundo. O silêncio que se fazia agora devia ser em homenagem ao amor. Abraçados, eles olhavam para a mesma direção, mas talvez nem fosse necessária tanta beleza, talvez nem se precisasse de Paris.
Caminhavam agora pela Champs-Élysées e estranhavam a quase ausência de carros, a quase ausência de transeuntes, numa manhã tão luminosa como aquela. Estariam mesmo em Paris? Ou era o amor que transformava qualquer São José de Alguma Coisa em Paris? Não: era Paris!
O dia passou e eles mal se deram conta disso. Estiveram em tantos lugares e, no entanto, para ele, que sempre sonhara em visitar Paris, todos os lugares e todas as paisagens ficaram em segundo plano. Estava com ela, e teria sido maravilhoso mesmo em São José de Alguma Coisa.
Ao anoitecer, entram num café e ele pediu “une bouteille de vin, s’il vous plaît”. Permaneceram ali por horas, e ele pôde dizer a ela tudo que vinha sonhando dizer nos últimos dias, ainda em Belo Horizonte. E pôde ouvir dela tudo que desejava e que seu habitual pessimismo sempre insinuava ser impossível. Linda e jovem, com aquele sorriso que o cativara desde o primeiro instante em que se conheceram, ela estava com ele ali, em plena Paris, intercalando cálidos beijos com as palavras que ele sonhara ouvir. Era difícil acreditar que não se tratava de um sonho.
Foram para o hotel, embalados pelo doce enlevo que só Cupido e Baco, juntos, são capazes de proporcionar. Amaram-se com plenitude. A plenitude no amor, dizia ele consigo mesmo, só é possível assim, quando ainda não se teve tempo para magoar ou ser magoado.
De manhã, ele acordou ainda fruindo, em pensamento, as delícias da noite de amor. Nem queria abrir os olhos. Abria-os um pouco e voltava a fechá-los. Não, não queria admitir que tudo fora apenas um sonho, o mais doce sonho que tivera em sua vida recheada de tão longos períodos de solidão. Estava em Paris, ora essa! Com grande esforço, adquiriu coragem e, de olhos ainda fechados, estendeu o braço para verificar se ela dormia ao seu lado, ali naquela cama, naquele hotel de Paris. Não, ela não dormia ao seu lado; não, não estava num hotel; não, não estava em Paris. Estava em seu pequeno apartamento em Belo Horizonte, que parecia mais frio e triste do que de costume.
Ergueu-se e foi se olhar no espelho. Achou-se mais velho ainda. E ela sendo tão jovem e linda! Mas não se revoltou, nem admitiu que uma gota sequer de amargura maculasse seu espírito. Ao contrário, sorriu e agradeceu a Deus pelo sonho. Acariciou-o ternamente, como havia feito com ela em Paris. E o guardou no cofre das doces ilusões – aquele cantinho especial que nós, que não desistimos do amor, reservamos no coração.
(Do meu livro A aljava de Cupido, publicado em 2016)
Um dos livros mais interessantes de João Guimarães Rosa, principalmente para quem deseja iniciar a leitura de suas obras, é SAGARANA. E trago hoje aqui um trecho do famoso conto A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA:
Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do Coronel Afonsão Estêves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.
Procissão entrou, reza acabou. E o leilão andou depressa e se extinguiu, sem graça, porque a gente direita foi saindo embora, quase toda de uma vez.
Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de medo porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, – uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, – vida de agitação, de cóleras, de desespero e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele diálogo.
(Capítulo LIII de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS)
E lembre-se: vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO. Pela Páginas Editora.
Terra de arroz. Tendo ali vestígios de pré-idade? A menina, mão na boca, manhosos olhos de tinta clara, as pupilas bem pingadas. Só a tratavam de Dja ou Iaí, menininha, de babar em travesseiro. Sua presença não dominava 1/1000 do ambiente. De ser, se inventava: – voz menor que uma trova, os cabelos cacho, cacho.
(Primeiro parágrafo do conto TRESAVENTURA, do livro TUTAMÉIA, de Guimarães Rosa)
Aqui vai um trecho de Helena, de Machado de Assis.
Aquele dia foi marcado no calendário de Mendonça com letras de ouro e cetim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Ele viveu essas horas todas num estado de sonambulismo e êxtase. Tencionava referir tudo à mãe, logo que entrou em casa ao meio-dia; mas não se atreveu, porque ele mesmo não estava certo se vivia a realidade ou se voava nas asas de uma quimera. De noite voltou a Andaraí; achou em Helena o mesmo modo afetuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada; um meio-termo que o continha a ele próprio, e não era menos aprazível ao coração. A nova situação era, entretanto, sensível, porque os vigilantes de fora trocaram entre si olhares cheios de graves descobertas; um deles, o coronel-major, chegou a proferir uma alusão, que os interessados fingiram não perceber.
Assim começa o Capítulo XVII do romance Helena, de Machado de Assis.
E lembre-se: vem aí meu novo livro – AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora.
Mas agora Miguilim queria merecer paz dos passados, se rir seco sem razão. Ele bebia um pouco de velhice. (João Guimarães Rosa – Campo Geral, em Manuelzão e Miguilim)
Aguarde meu novo livro: AMOR E GUERRA EM VALE MANSO. Lançamento, em breve, pela Páginas Editora.
Vou postar aqui estes dias alguns textos desses dois gigantes da literatura brasileira: Machado de Assis e Guimarães Rosa. Os dois nasceram no mês de junho – Machado, no dia 21, e Rosa no dia 27.
Jantei triste. Não era a falta do relógio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscências de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão… Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do capítulo XXI, e então jantei depressa, para correr à casa de Virgília. Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar às opressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, no qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.
(Trecho do capítulo LXI de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS)
A bela Melissa acabara de completar seus dezesseis anos. Viera privilegiar a cidade de Tiradentes com a presença de seus esvoaçantes cabelos e seu olhar curioso, enquanto seguia com seus pais pelas ruas de pedras. Para eles, ela era ainda a menininha que outro dia mesmo, do alto de seus dois aninhos, invadia a penumbra do quarto do casal para pedir: posso dormir aqui com vocês? Contudo, era já de mulher aquele corpo que agora se ajustava tão bem dentro do leve vestido de verão. E eram também de mulher o coração, os pensamentos e os suspiros sufocados.
Sentaram-se num banco da praça. Os pais observavam plácidos o vaivém das pessoas, enquanto os olhos de Melissa passeavam inquietos, ávidos por devorar o que pudesse haver de novidade. Era o segundo e último dia de visita à cidade, mas os olhos da menina ainda estavam famintos.
Ergueu-se do banco e caminhou rumo a algo que lhe despertara o interesse.
Aonde você vai, menina? – ouviu o pai dizer para a menina que ela já não era. Vou ali e já volto, pai! – respondeu a mulher de dezesseis anos dentro do vestido de verão. E seguiu resoluta.
Não hesitou em se aproximar do tipo descabelado e de vestes rotas que manipulava pincéis e tintas. Vários quadros estavam expostos ali, ao ar livre, e Melissa os examinava atenta.
O pintor parou para observá-la. Num primeiro momento sentiu-se lisonjeado ao perceber nos olhos dela o prazer que sua pintura lhe proporcionava. Mas quando ela se voltou para ele, sorriu e disse parabéns!, o que ele sentiu permaneceu para sempre inefável. Era amor, e era amor para sempre, e ele sabia disso! Mas era indizível – foi ali, naquele instante fugaz, que ele descobriu que o amor é indizível. E a eternidade inteira coube naquele instante fugaz em que os olhos dele não conseguiram se desviar dos dela. E ela, os lábios trêmulos, os joelhos vacilantes, sentia-se perdida diante daquele olhar que parecia buscar por ela há séculos. Soube naquele instante que jamais esqueceria aqueles olhos.
– Po… posso pintar você? – gaguejou ele com um fiapo de voz.
– Eu adoraria! – ela respondeu, e o sorriso dela o arrebatou de novo.
– Então se sente aqui – propôs ele, puxando para perto dela um banquinho. – Como se chama?
– Melissa.
Iniciou seu trabalho tentando retratar os olhos de Melissa – aqueles que ele jamais esqueceria. As mãos dele ainda tremiam, e os joelhos de Melissa também.
De súbito o pai surgiu e pegou Melissa pelo braço. Arrastou, com certa rudeza, a sua menininha, mas quem ia com ele, tentando resistir e sacudida por soluços, era uma mulher apaixonada de dezesseis anos. Ela ainda se virou para ver o pintor, cujo nome nem teve tempo de perguntar. Mas ele tinha os olhos ocultos, a cabeça inclinada sobre o braço apoiado nos joelhos. Parecia chorar. Desgrenhado, maltrapilho; envergonhado, humilhado. Impotente. Pintara os olhos – somente os olhos – de Melissa.
Seu Jeremias, pai da moça, ignorando os protestos da esposa, empurrou a filha para dentro do carro e partiram sem demora de volta para Belo Horizonte.
Alguns anos depois, Melissa esteve de novo em Tiradentes, mas não obteve nenhuma pista do paradeiro do pintor, que, segundo lhe disseram, estivera apenas de passagem por lá.
Após namorar vários rapazes, os trinta anos de Melissa chegaram e ela se casou.
– Pode não ser uma grande paixão, Michele, mas o Rodrigo é um cara legal, tem uma boa carreira, é sério, confiável…
– E o amor, Melissa, onde fica?
– Não sei onde fica. Pensei que tivesse ficado em Tiradentes, muito tempo atrás, mas sumiu de lá!
Aos quarenta anos veio o divórcio. Mas a Michele não tinha mais contato com ela. Agora desabafava com a Débora, entre um chope e outro, depois do trabalho. E volta e meia se lembrava do pintor maltrapilho que conhecera em Tiradentes.
– Vinte e quatro anos depois e você ainda não tirou esse cara da cabeça, Melissa! Que loucura.
– Não sei, mas algo me diz que ele também, onde quer que esteja, ainda pensa em mim.
– Tudo é possível, né, amiga… Olha, tô indo a São Paulo na próxima semana. Vem comigo? Vou te apresentar meu primo. Divorciado também. Garanto que vai rolar alguma coisa.
– Rola nada, Débora. Relacionamento agora só se for na próxima encarnação. Mas eu topo ir com você. É bom mudar de ares.
Foram. Na manhã seguinte, antes de irem passear no Ibirapuera, Débora ligou para o tal primo, Rodolfo. Combinaram encontro no parque.
As duas acabavam de se sentar para tomar sorvete, quando surgiu à frente delas um sujeito todo engomadinho, de óculos, bigode, meio calvo e com toda pinta de executivo.
– Oi prima, quanto temp… Epa! Essa moça não me é estranha! Não, eu jamais esqueceria esses olhos!
Abriu a pasta e de dentro dela retirou um retrato – ou melhor, o esboço de uns olhos, feito havia décadas, numa cidade mineira chamada Tiradentes.
Ela também reconheceu de pronto os olhos do pintor descabelado e maltrapilho de Tiradentes, escondidos por trás dos óculos do agora executivo paulistano.
Débora, que soubera da história pelo próprio primo, deixou-os aos beijos e abraços no parque e se foi, com a certeza da missão cumprida.
Agora Melissa tem setenta anos, e Rodolfo passou dos oitenta. Ela ainda tem os mesmos doces olhos, e ele ainda os pinta. Eles se amam. É simples.
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Aguarde o lançamento de meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO. Pela Páginas Editora.
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