Sobre o conto FIM DE TARDE NO CASARÃO

“Jéssica mora com sua avó num casarão afastado da cidade. Por causa da teimosia da velha, nunca puderam se mudar. A moça pensa em sua infância. Relembra com saudade os tempos em que viviam ela, o pai e a mãe, ali mesmo, com sua avó.

   Tinha seis anos quando perdeu os pais num acidente.  Quisera ir com eles, esperneara, fizera pirraça, chorara muito. Em vão. Estaria morta hoje, se os pais cedessem aos seus apelos.

   Agora ela tem vinte e sete anos, é funcionária da prefeitura e namora Roberto há oito. A avó não consegue mais caminhar, vive quase todo o tempo na cama. É Jéssica quem cuida dela. 

   – Eu tenho mesmo que ir agora, Roberto, minha avó precisa de mim.

   – Tá certo, mas… Por que você não arruma uma enfermeira pra cuidar dela?

   – Que enfermeira, Roberto! Você sabe o custo disso?

   – Mas ela tem grana, não tem?

   – Tem, mas eu não vou mexer no dinheiro dela, não fica bem. Ela precisa é de mim, eu sou a família dela, será que você não entende?!

   Jéssica anda muito irritada com Roberto. Ela se pergunta por que ainda está com ele, um cara egoísta e frio. Pensa em terminar o namoro, mas, se o fizer, não lhe restará ninguém, a não ser a própria avó.”

   (Trecho do conto FIM DE TARDE NO CASARÃO, do livro BRASA TEIMOSA)

Sobre o conto JORNADA DE UM DEMÔNIO

Acordou xingando. Era segunda-feira e o despertador berrara aos seus ouvidos de domingo. Olhou com desprezo para Marieta, que fingia dormir. Vestiu-se, foi à cozinha, bebeu um resto de café da garrafa térmica, acendeu um cigarro e saiu batendo a porta.

   Chutou o vira-lata que não saía de seu portão, praguejou, esmagou com a sola do sapato a bagana do cigarro e foi se postar no ponto do ônibus. Vinte minutos depois, apontava na esquina o coletivo. Cheio demais, não parou. Arnaldo xingou o motorista, a mãe do motorista, a avó do motorista, todas as gerações do motorista. Depois xingou a empresa de ônibus, depois o governo, depois o Papa.

   Por sorte passava por ali o Adalberto, gente boa pra caramba. Entrou no carro dele e continuou xingando, despejando seu azedume nos pacientes ouvidos do amigo. Primeiro xingou a Marieta, depois o motorista do ônibus, depois a empresa de ônibus, depois o governo, depois o Papa; voltou a xingar a Marieta, depois o chefe, depois os colegas, depois a Marieta. Adalberto pedia-lhe calma, aconselhava. Arnaldo passou a xingá-lo também. Tentava mesmo ofendê-lo: Idiota! Trouxa! É por isso que ninguém te respeita! Vai ver que até chifres você tem.  Foi assim até à entrada da empresa. Irritado com a placidez de Adalberto, desceu do carro praguejando, bateu com força a porta e dirigiu-se ao trabalho. Nem pensou em agradecer pela carona…”

(Décimo sétimo conto do livro BRASA TEIMOSA, a ser publicado em breve.)

Sobre o conto MENINO-PEIXE

“Sô Geraldo não queria que a filha Madalena se casasse com o Fernando, filho justamente do Jerônimo, seu desafeto. O Jerônimo também não concordava com o casamento.

   Sô Geraldo disse à filha uma tarde: Se você se casar com ele, pode esquecer que sou seu pai. E vai ter que morar no mato!

   O Jerônimo também disse ao filho uma tarde: Se você se casar com ela, pode esquecer que sou seu pai. E vai ter que morar no mato!

   Como, nesses casos, Cupido sempre vence, casaram-se. Foram morar numa tapera solitária à beira do rio.

   Havia por ali um barco abandonado. Com ele o casal se deslocava em busca de víveres no povoado próximo. Fernando tentou usá-lo também para pescar. Mas suas buscas eram vãs, quase não havia peixes. O jeito era cultivar legumes e verduras, criar galinhas e porcos. Vendiam os produtos no povoado. Com o dinheiro, compravam mantimentos, roupas, calçados, remédios etc.

   Madalena ficou grávida. Tinha enjoos e desejos estranhos, como o de comer terra e rolhas de garrafa. Nos primeiros meses, não pôde sair de barco com o marido, devido às ânsias de vômito. Depois retomou a rotina.

   Certa madrugada Madalena acordou Fernando com seus gemidos. Tinha chegado a hora. Nos arredores da tapera não havia parteira – aliás, não vivia ninguém por ali. Tinham de ir às pressas para o povoado.

   O rapaz ajudou a esposa a se acomodar no barco antes de desamarrá-lo para iniciarem a viagem.”

(Trecho do conto Menino-Peixe, do livro Brasa Teimosa)

SANGUE BOM

(Décimo quinto conto do livro BRASA TEIMOSA)

(Depois de horas bebendo com o Rogerim, o Magrão saiu do bar convencido de que o amigo tinha razão: o negócio era deixar de ser mané e arrumar um jeito de se dar bem à custa dos otários. Afinal, o que não falta no mundo é otário, e ele mesmo vinha sendo um deles até aquela noite. Trabalhava o dia todo e ganhava aquela miséria, andando de ônibus, atravessando a cidade para se enfiar numa empresazinha de merda lá na casa do caralho!

   Não! Chega! Agora vai ser diferente – dizia a si mesmo.

   Antes de entrar em casa, passou, conforme conselho do Rogerim, na casa do Afonso. Queria saber se ele ainda tinha o revólver Taurus.

   – Tenho – disse o Afonso; olha só, tenho também esta semiautomática!

   – Deixa disso, cara! Eu só quero mesmo o revólver.

   – Cê não vai fazer besteira não, né?

   – Não, tranquilo, cara. Mas o problema é que… Sabe, Afonso, eu tô sem grana. Será que posso pagar depois?

   – Ah, não! Não dá. Faz o seguinte, me dá esse relógio e essa jaqueta, e fica pago.

   – Fechado.

   Pegou o Taurus e andou mais alguns passos até entrar em casa. Tomou um…)

   Trecho do conto SANGUE BOM, de meu livro BRASA TEIMOSA.

O DIA EM QUE FUI ANJO

(Trecho do décimo quarto conto de meu livro BRASA TEIMOSA)

(– Não sei bem como, mas… Presta atenção, cara! Cê não me pediu pra contar? Não sei bem como fui parar naquela rua erma àquela hora da noite, aliás, da madrugada. Tudo parado, sem trânsito nenhum. Eu andava feito uma alma doutro mundo, um fantasma. Eu era um fantasma. Pisava e não sentia meus pés tocarem o chão. Eu estava leve, entende? Me locomovia sem pressa, mas atravessava quadras inteiras em fração de segundo. Uma doideira. Algo me empurrava naquela direção. Um bairro distante, estranho pra mim – até hoje eu não sei que lugar era aquele. Mas havia uma urgência, uma tarefa que eu, e somente eu, deveria cumprir sem demora…

   – Olha, Gustavo, se for mais uma das suas histórias…

   – Fica quieto, porra! É por isso que eu não queria contar. Pensando bem, não vale a pena…

   – Não, conta, vai!

   – Então vê se não me interrompe mais. Como eu disse, a rua tava deserta… Cê tá gravando direitinho, né? A rua tava deserta… Depois a gente edita o vídeo pra ficar tudo certinho, sem as interrupções, e cortando também o miado esquisito que o gato deu quando eu pisei no rabo dele. Esse gato tá sempre aqui, tem hora que a gente não percebe, ele chega silencioso.

   Naquele bairro também tudo era silêncio, mesmo numa rua que parecia a principal. Agora, não me pergunte que bairro era aquele. Nem sei se era em BH. Senti que havia algo errado depois de uma esquina. Minha leveza desapareceu. As pernas ficaram pesadas. Tinha de fazer um esforço enorme pra me locomover. Uma força contrária me puxava. Fiquei aflito, minha presença era exigida adiante, eu sentia isso.

   – Mas, e aí…

   – Não me interrompa! Corta isso também depois. Quero fazer a coisa direitinho. Alguma emissora talvez queira fazer uma matéria. Quem sabe até a Globo, pra mostrar no Fantástico… Bobagem ficar preocupado com isso.)

Trecho do conto O DIA EM QUE FUI ANJO, décimo quarto de meu livro BRASA TEIMOSA.

Sobre o conto BONECA DE PANO

(Décimo terceiro conto de novo livro, BRASA TEIMOSA)

(Desde pequena, Narinha tinha um sorriso sereno, um sossego na luz tranquila dos olhos, paz que arrebatava corações agitados.

   Criança quieta, entabulava conversas inocentes com suas bonecas de pano, presentes de Dindinha. Todas com olhos de longos cílios e narizinho chato. O sorriso delas, colado entre bochechas rosadas, ignorava as intempéries da vida. Narinha deve ter aprendido a sorrir com suas bonecas. Sorriso pequeno, suave, silencioso, mas invencível. Ela era quase uma daquelas bonecas, era quase de pano também. Quando não queria mais brincar com as bonecas, simplesmente as jogava de volta no fundo do baú. Ali elas dormiriam até voltarem aos braços de sua dona e irmã.)

Trecho do conto BONECA DE PANO, de meu novo livro, BRASA TEIMOSA.

MULHERES ARCO-ÍRIS, de Leida Reis

O universo feminino se revela em variadas facetas nas páginas de Mulheres Arco-íris, esse impactante livro de Leida Reis.

   Nós, os homens, especialmente os brancos e heterossexuais, passamos longe da realidade das mulheres, e ainda mais distante do mundo das mulheres trans. Por isso acho fundamental que todos leiamos Mulheres Arco-íris. Especialmente aqueles “machos escrotos”. Mas eles… Acho que em sua maioria não costumam se aproximar de uma boa leitura, logo nem vão saber da existência desse livro, o que lamento muito.

   Mas a você, homem de boa vontade, eu sugiro que se prepare, dispa-se das esfarrapadas roupas socioculturais que formatam seus malformados conceitos acerca do que significa ser mulher, tome um banho, sente-se numa poltrona ou num banco de praça e abra, primeiro seu coração, depois o livro Mulheres Arco-íris.

   Mas peça licença para entrar no mundo de Betina! Entre nele, leitor, mas faça isso com muito respeito e cerimônia, pois Betinas são muitas, e a maioria delas enfrenta uma luta inglória.

   Existem também as Alices, Cássias, Suelys… E os seus algozes.

Publicado pela Literíssima Editora, Belo Horizonte, 2023.

Um pouco do décimo segundo conto de BRASA TEIMOSA

(Vô Pedro era um velho espevitado. Inquieto, olhos vivos, irreverente. Basta, branca e longa cabeleira emoldurava-lhe o rosto enrugado, mas rijo. Fã dos Beatles, Rolling Stones e de todas as principais bandas de rock dos anos 1960.  Às vezes empunhava a guitarra, recordando músicas daquele tempo.

   Morava apenas com Nicole, a neta, até o dia em que esta, casando-se, veio propor-lhe:

   – Vem com a gente pra BH, vô!

   – Não, vou ficar em Montes Claros mesmo. Meu lugar é aqui. Não se preocupe, Nicole, eu me viro. O dia que eu cismar, eu vendo esta casa, pego minha guitarra, esse porcaria desse gato que não me larga, e me mudo pro asilo. Chego lá e sacudo a preguiça daquela velharia – e vô Pedro riu divertido enquanto passava a mão de leve sobre o pelo de Napoleão, o gato.

   Não deu outra. Vô Pedro vendeu a casa.  Apresentou-se no asilo com uma pequena mala e as companhias de Napoleão e a guitarra.)

   Estes são os primeiros parágrafos do conto BRASA TEIMOSA, décimo segundo conto do livro de mesmo título, a ser lançado em breve.

Sobre o conto UM CASO DE VINGANÇA E RISO

(Décimo primeiro conto de BRASA TEIMOSA)

(Djalma e Celso vinham sempre me visitar. Celso rolava de rir das histórias do outro.

   Mas aquela noite o Djalma chegou com o semblante carregado. A voz era só um fiapo. Deixou-se cair no sofá. Recusou cerveja. Queria nos contar algo.

   – O que houve, Djalma?

   – Gente, preciso contar uma coisa, ele disse, rosto grave. Há muitos anos um menino franzino e triste foi admitido numa escola no interior. O calhorda do professor o perseguia; arrumava pretextos para humilhá-lo. O pobrezinho não passava um dia sem levar cascudos. O diabo do homem o xingava e lhe punha apelidos ridículos. De nada adiantava o coitado se esforçar, fazer todos os deveres, comportar-se. Não evitava o tratamento desumano.

   – Em que cidade foi isso?

   – Depois eu digo, Celso; vai escutando. Aquele cisquinho de gente só teve sossego depois que o professor se mudou. Mas não esqueceu. Na adolescência, soube que o crápula era ninguém menos que seu pai, ex-amante de sua mãe. Ela, por sua vez, faleceu quando o menino engatinhava. Ele foi viver com os tios, que o colocaram na tal escola. O professor, uma cavalgadura que mal sabia o beabá, tinha acompanhado de longe o menino, odiando-o como odiara a mulher. Não perdeu chance de humilhá-lo.

   – Mas o que isso tem a ver com sua esquisitice?

   – Calma, gente, eu chego lá (e o Djalma tinha a voz embargada). O menino cresceu. Nele também cresceu o desejo de vingança. Levava vida normal, mas bolava o fim da vida do outro. Acompanhou, anos a fio, os movimentos do professor. Bem, hoje ele fez o que tinha de fazer. Desesperado, precisa escapar ao flagrante…)

(Trecho do conto UM CASO DE VINGANÇA E RISO, do meu novo livro, BRASA TEIMOSA, a ser publicado em breve.)

Sobre COMO FICAR MILIONÁRIO EM SETE SEMANAS

(Décimo conto de BRASA TEIMOSA)

(Renato estacionou seu carro em frente à casinha de telhado baixo. Desceu, aproximou-se do portão e bateu palmas. Ouviu a voz calma de sô Janjão, vinda do quintal. Bramava com o Antônio Carlos. Até quando bramava com os bichos sô Janjão era calmo.

   Pôs a cabecinha branca e os olhinhos curiosos por sobre o portão. Franziu o semblante ao ver o moço bem-vestido que o aguardava. Adivinhou o motivo da visita. Abriu o portão e convidou Renato a entrar.

   Este, com seu jeito impaciente, acompanhou sô Janjão e entrou na pequena sala. Apresentando-se, sentou-se num tamborete. Mas Antônio Carlos forcejava com o focinho a porta da cozinha. Sô Janjão deixou Renato na sala e foi se entender com o porquinho. Resolvido o caso com uma cuia de farelo, voltou a se ocupar do visitante.

   – Sô Janjão, então o seu porquinho se chama Antônio Carlos?

   – Sim. Trata-se de uma homenagem a um de meus amigos que já morreram.

   Sô Janjão vivia sozinho desde que dona Jussara, sua mulher, morrera.

   – Não tivemos filhos. Quando enviuvei, fiquei sozinho. Meus amigos aos poucos foram desaparecendo, uns mortos, outros tomando rumos ignorados. É a vida. Por isso meus bichos têm nomes de pessoas – as pessoas que me foram caras.

   Agora era Jussara que adentrava a sala sem cerimônia. Inclinou a cabecinha curiosa para observar o visitante. Volta aqui, Jussara! Já te disse para não entrar em casa! E sô Janjão pegou a marreca, disse-lhe palavras carinhosas, acariciou-lhe o dorso e foi levá-la para o quintal. Lá estavam Antônio Carlos, Joaquinzão – que era o galo – e outros personagens do passado do velho.

   – Jussara era minha mulher. Eu sempre achei que ela se parecia com uma marreca. Até no jeito de andar. Amei Jussara como jamais amaria alguém nesta vida.)

Estes são os primeiros parágrafos do conto COMO FICAR MILIONÁRIO EM SETE SEMANAS, o décimo de meu novo livro, BRASA TEIMOSA, que será lançado em breve.