Existe uma brasinha teimosa dentro de mim que não me deixa desistir de navegar nas águas turvas deste rio errante da criação literária.
Criar é dar passagem a uma urgência que grita dentro de nós. Se aceitamos que algo ou alguém impeça essa passagem, a urgência se manifesta como doença. Criamos para domesticar nossos demônios, convocando nossos anjos para interagir com eles. Desse amálgama surge a síntese do que somos.
Por ter consciência disso, essa brasinha teimosa dentro de mim não se apaga. No último 27 de setembro, concluí mais um romance. Antes dele, um livro de contos será apresentado à editora para publicação no início de 2024. Bota teimosia nisso!
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Questão séria essa do chamado livre arbítrio. A ideia de que ele existe na medida de nossa consciência é, sim, válida. A consciência de quem somos e das circunstâncias que nos influenciam é requisito fundamental para nossa liberdade.
No entanto, podem existir acordos nos porões de nosso ser entre uma pretensa consciência do que somos e a estruturação do mundo externo que nos acena com suas ofertas de segurança e prestígio.
De certa forma, dizemos a nós mesmos, na penumbra dessa suposta autoconsciência: Sei que sou escravo, mas morro de medo do caos.
Tememos esse suposto caos. Isso revela nossa ignorância. Supomos que, sem as delimitações e convenções sociais que nos oprimem, restaria o caos. Nós nos sentimos assim porque ignoramos a existência de uma ordem maior. Não existe verdadeiro caos, existe a ordem cósmica. Como duvidamos disso, aceitamos nos submeter ao grande roteiro que nos é imposto pela sociedade.
Não, não há nada errado com a ideia de uma ordem social. Ela é, aliás, necessária ao nosso processo civilizatório. Não se defende aqui nenhuma rebelião contra tal ordem.
Mas existe um grande roteiro com determinações sutis de comportamentos, gostos, preferências, interesses etc. que pretendem nos impor valores fúteis. No mesmo pacote, vem a ameaça velada de não sermos aceitos caso ousemos atuar fora do roteiro.
Em outros termos, esse grande roteiro está nos dizendo: Não ouse ser criativo!
Da boca pra fora, nos dizem: Seja criativo. Em seguida: Epa! Espereum pouco, você está contrariando a nova tendência! Porque é preciso seguir as… tendências! Mas me parece que seguir as tendências se contrapõe a ser criativo, estou errado?
Seja criativo, mas ande na moda! Seja criativo, mas olhe esse seu cabelo, essa sua roupa, esse seu palavreado, essa sua postura! Seja criativo, mas observe o que se vende mais hoje em dia!
E, assim, preferimos seguir à risca o grande roteiro.
Mas existem dois outros roteiros que desprezamos: um roteiro micro e um roteiro macro, este muito mais abrangente que o grande roteiro social.
O roteiro micro é o que poderíamos traçar para nossas ações individuais sem romper com o necessário ordenamento social e seus regramentos indispensáveis para garantir nossa civilidade. Isso poderia ser feito simplesmente desprezando as embalagens fúteis a que nos obrigam para vender nosso peixe, ou seja, para sermos aceitos. Atendendo ao que é justo e estritamente necessário para a convivência em sociedade, poderíamos exercer nossa criatividade e expressar o que há de mais autêntico em nós. Só que seria preciso, é claro, coragem para abrir mão do prestígio e da aceitação. Mas o preço é esse. Quem de nós pode encarar?
O roteiro macro é o da Ordem Cósmica, ou Inteligência Universal, ou Deus… Desse não podemos escapar, embora ele não tenha pressa, por ser eterno. Ao longo dos milênios, nós vamos seguindo suas determinações.
Bom mesmo seria descobrir o macro dentro do micro. Porque o macro está dentro de nós, dentro de todas as coisas. É apenas uma questão de sintonia. Se nós conseguirmos sintonizar nosso roteiro pessoal com o roteiro cósmico que palpita no mais recôndito de nosso ser, podemos criar em conformidade com ele. O que dificulta o processo é nossa dependência do olhar do outro. É o olhar do outro que nos obriga a fazer uso das embalagens fúteis.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Duas irmãs – meninas que se tornam mulheres fortes, forjadas pelas agruras de uma espécie de pós-escravidão no sertão baiano – ocupam as páginas dessa magnífica obra do premiado escritor Itamar Vieira Junior e narram, cada uma a seu modo, suas peripécias, aventuras e desventuras. Uma terceira narradora se apresenta na derradeira parte do livro, com sua capacidade de cobrir uma extensão muito mais ampla do tempo.
Acima de tudo, o que temos aqui é valentia na defesa do pouco que lhes é concedido pelos donos das terras e do poder. Zeca Chapéu Grande, o pai, alcançou algum poder graças a seu talento como curador, mas esse poder é bastante limitado diante da força dos senhores da terra, obstáculo a toda tentativa de emancipação por parte dos descendentes dos antigos escravos.
TORTO ARADO ganhou o Prêmio Jabuti 2020 como melhor romance literário; venceu também o Prêmio Oceanos, do mesmo ano. Vale a pena conferir!
TORTO ARADO, de Itamar Vieira Junior, publicado pela Editora Todavia.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
O Gustavo enfrentara na infância e na adolescência algumas dificuldades que ameaçavam afligi-lo a vida toda. Era, por exemplo, inábil para todos os tipos de jogos e esportes. Era-lhe também impossível compreender, ainda que num nível muito elementar, qualquer assunto, por mais banal que fosse, de que se ocupassem as pessoas a sua volta.
Os outros meninos, na rua e na escola, riam dele. Sua voz era só um fiapinho. Falava baixo e era um pouco gago.
À medida que migrava da infância para a adolescência ia se sentindo cada vez mais entregue ao silêncio. Falava muito, mas apenas consigo mesmo. Às tardes, depois da escola costumava ficar trancado em seu quarto lendo, estudando, pensando, tentando entender o mundo através dos livros, tentando falar consigo mesmo daquela maneira como os escritores se expressavam e que ele julgava tão interessante. Mas a todo momento recordava a voz de seu pai, que, com duas ou três palavras, reafirmava em tom sarcástico o quanto ele era estúpido.
Outro hábito de sua adolescência era vagar pelos arredores da cidade, locais ermos, onde o silêncio era quebrado apenas pelo pipilo de pássaros, num tempo em que sua cidade ainda era cercada de grandes extensões de terras inabitadas. Nessas ocasiões também falava muito consigo mesmo, em voz alta, tentando articular bem as palavras, usando termos pinçados dos textos que lia, na esperança de construir um modo de se expressar que afastasse de si a impressão de que era um imbecil, como sempre afirmava seu pai.
Gustavo finalmente cresceu e levou para o mundo adulto o produto de todo aquele esforço para não parecer estúpido. Tornou-se até mesmo muito falante. Entusiasmava-se muitas vezes ao expor seus pontos de vista, tanto no trabalho quanto nos encontros ocasionais com os amigos, e também nos cursos extracurriculares que gostava de fazer.
Mas Gustavo continuava a ser uma pessoa inábil em muitos aspectos. Não lhe foi difícil chegar à dolorosa conclusão de que não deixara de ser um idiota. Sofria, segundo ele mesmo, de uma espécie de idiotia social. Jamais percebia um sarcasmo, uma observação maliciosa, uma indireta; jamais dizia a palavra adequada que uma ocasião exigia.
Tudo que Gustavo conseguiu foi construir um complicado arcabouço de falso intelectualismo ao qual se agarrava na esperança de encontrar um lugar no mundo das pessoas, no mundo dessa espécie de animal que, segundo imaginava, somente o aceitaria se ele provasse que não era imbecil.
Por isso se tornara um chato, um pedante. Sabia do seu mal, mas não conseguia se desvencilhar dele. E a cada dia percebia com mais precisão a distância que separava o seu falso intelectualismo, a sua verborragia, do mundo real, do mundo em que as pessoas se expressavam com facilidade e sem nenhuma preocupação de impressionar quem quer que fosse.
Gustavo não entendia a fundo de nenhum tema. Passava a vida a colecionar pedaços de informações, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, para assim construir um suposto saber que imaginava fosse o que as pessoas dele esperavam para admirá-lo. Sabia que no fundo era ao seu pai, já falecido havia tanto tempo, que ele queria agradar na figura das outras pessoas, quando se esforçava para não parecer idiota – aprendera isso em algumas sessões de psicoterapia. Mas saber disso não o livrava daquela obsessão.
Pois bem. Gustavo, levando consigo por onde passava essa sua idiotia social, essa visão distorcida do mundo e de como ele funcionava na prática, não podia se sair bem nos relacionamentos. Por isso, cada paixão em sua vida era desastre certo. E houve muitas, e com cada uma aprendeu um pouquinho, mas só um pouquinho. E a vida precisaria ser muito mais longa para que ele aprendesse o suficiente.
Certa vez, após algum tempo livre dessas paixões e desses desastres, ele se viu, de novo, apaixonado. E para não perder o hábito, ou por não conseguir agir de modo diferente, deitou verborragia em cima da moça, chamada Melissa. E ela, muito perspicaz, percebeu logo – aliás, todas as pessoas percebem – o esforço dele para parecer interessante. Era um esforço sincero, pois estava mesmo apaixonado por ela e usava os recursos de que dispunha. Mas era um esforço, e se era um esforço deixava de ser natural, e, se não era natural, assustava.
O desespero por perceber que aquilo não estava funcionando fez com que ele se apressasse em se declarar. E ao se declarar exagerou um pouco, aliás, exagerou muito, e Melissa de novo se assustou. No mínimo ele não está sendo sincero, pensava ela. E com razão. Ele estava, sim, apaixonado, mas fora dramático demais e aquilo soou falso.
Não obteve a resposta que desejava. Ela lhe ofereceu apenas sua amizade. E ele não teve forças para insistir.
Meses depois, porém, ele ainda não conseguira tirá-la da cabeça. Decidiu propor-lhe um encontro. Telefonou para a moça e combinaram um local, horário e data.
Os cinco ou seis dias que antecederam o encontro, Gustavo aproveitou para pensar sobre o que iria dizer. Mas já estava certo do que diria. Tiraria a máscara, simplesmente. Diria a ela que lhe desse a chance de tentar ser o que ele verdadeiramente era, ou seja, um idiota que não sabia quase nada da vida e que vivera até então com vergonha disso; e que esquecesse as palavras infelizes que ele escolhera todas as vezes em que quis impressioná-la.
E enfim chegou o dia do encontro. Pouco antes de sair de casa, tinha as mãos frias e úmidas e a garganta estava seca. Respirou fundo e foi.
Chegou um pouco antes e pediu uma bebida, que ia sorvendo em pequenos goles enquanto esperava. Ficou recordando os seus costumeiros arroubos de falso intelectualismo, o seu pedantismo, do qual tinha tanta consciência e que, por isso mesmo, lhe causava tanto sofrimento. Era tão treinado que sua fala às vezes até lhe parecia fácil, por isso talvez difícil de conter.
Mas dessa vez seria diferente. Tiraria a máscara, como já decidira, diante da moça aquela noite.
E ela finalmente chegou. Linda, os cabelos molhados, soltos sobre os ombros, pois chovia, e ela descera do táxi diretamente para a mesa do bar onde ele a aguardava.
A voz – que antes fora solta, sonora, verborrágica – desapareceu; a garganta não emitia mais nenhum som; os olhos se tornaram patéticos – eram os olhos de um autêntico idiota – ao fitar os dela, que esperava, contendo a custo o riso.
Ele então acenou ao garçom e apenas gesticulou para pedir a conta, tendo desistido já de recuperar a voz. E não ficou ali esperando que o moço retornasse. Deixou sobre a mesa uma nota de cem e saiu às pressas, sem nem mesmo despedir-se da moça, que o fitava boquiaberta.
Nunca mais se encontraria com ela, ia refletindo, enquanto se encaminhava para a calçada, de onde acenaria para um táxi. Por isso não lhe importava mais ter ou não ter de volta a sua voz.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Ele ainda se recordava daquela manhã iluminada de um setembro distante. Uma família chegava para morar na casa do outro lado da rua, bem em frente à sua, em Três Marias. Pai, mãe e filha – esta com seus sete anos, lourinha, cabelos encaracolados e usando um vestidinho florido. Ele tinha, depois de tanto tempo, muito viva na memória a imagem da casa de muro baixo, coberto de heras, e a extensa varanda na qual pendiam samambaias e gaiolas de pássaros. Afinal, foi naquela manhã que ele, Pedrinho, com não mais de oito anos, se apaixonou para sempre por Olívia, a menininha do vestido florido.
Mesmo no meio da meninada, nas brincadeiras de rua, os dois sempre se esbarravam, ainda que fosse apenas para se insultarem, incomodados por não entenderem direito a razão de estarem sempre juntos.
Na adolescência Olívia teve de se mudar com seus pais para Januária; assim se separou de Pedrinho. Nessa época ainda se insultavam muito, nenhum dos dois jamais admitindo para si mesmo que o principal motivo era o ciúme.
Anos depois Pedrinho se viu casado com Marina sem nunca ter tirado Olívia da cabeça. Separou-se em pouco tempo e voltou para a casa dos pais. Estes logo morreram, e ele passou a viver sozinho ali, trabalhando com artesanato e cerâmica, e nunca tirando os olhos da casa do outro lado da rua, onde havia morado a menina Olívia.
Ela também, em pouco tempo, se viu casada, também sem nunca ter esquecido Pedrinho. Ele, sem saber de nada, ainda sonhava ver, talvez numa manhã de setembro, Olívia e os pais passarem de novo pelo velho portão da casa em frente e devolver aos seus olhos a luz que os abandonara.
Mas os pais de Olívia também haviam falecido. E o casamento dela não durara mais que dois anos.
Pedrinho, por muitos anos, relutou em procurá-la na outra cidade, talvez por orgulho, talvez por medo de alguma decepção; talvez por mera timidez.
Mas um dia não se conteve e foi. Não foi tão difícil encontrar Olívia.
“Dona Olívia? Mora lá naquela casa amarela, com aquela mangueira na frente” – dissera-lhe o meninote que ele abordara na praça.
Bateu palmas ao chegar perto do portão. Ela veio e primeiro fez uma careta; depois, reconhecendo-o, não soube reagir. Ele também não. Limitaram-se a fitar um ao outro, em silêncio, por alguns instantes. Depois riram, e ele disse:
– Por que você me xingava tanto?
– E por que você era tão chato? – ela retrucou, e ambos riram muito.
Entraram e passaram a conversar como gente grande, como nunca haviam feito antes.
Voltaram juntos para Três Marias e em pouco tempo se casaram.
De vez em quando se mudavam para a casa de Januária, ficavam morando lá uns dois, três anos, depois voltavam. Ela sempre o ajudava com o artesanato. Mas brigavam por qualquer dê-cá-aquela-palha. Às vezes essas brigas, ainda que por motivos fúteis, resultavam em breves separações, quando ele pegava as tralhas e saía soltando fogo pelas ventas, retornando a Três Marias. Outras vezes era ela que, estando na cidade dele, fazia o mesmo e voltava para Januária.
Nessas idas e vindas tiveram dois filhos: Gustavo e Bruno, que foram crescendo entre uma cidade e outra. Quando se tornaram adolescentes, bateram pé, pedindo ao pai para comprar a casa onde morara Olívia quando menina, em Três Marias. Isso porque não queriam mais ficar naquele vaivém, a cada dois anos, de um lugar para o outro.
Passaram os dois – Gustavo e Bruno – a viver na casa em frente à do pai, e ali se tornaram adultos. Trabalhavam com o comércio de peixes à beira do rio São Francisco.
Aconteceu que um dia Marina, a ex-mulher de Pedrinho, apareceu lá sem mais nem menos e o cercou na rua para conversar. De longe, Olívia acompanhava a conversa e achava que aquilo já estava durando demais. Chamou o Gustavo e ordenou: “Filho, me leva agora pra Januária!”
– Mas, mãe…
– Eu disse agora!
Gustavo não teve opção. Pôs a mãe no carro e rumou com ela mais uma vez para o norte.
Por essa época, ambos, Pedrinho e Olívia, já passavam dos cinquenta. E, a partir de então, pelas próximas três décadas, os filhos tiveram que fazer idas e vindas entre Três Marias e Januária, tentando sem êxito a reconciliação dos pais.
– Eu não volto, filho. Seu pai é um safado! Ele que fique com aquela piranha!
– Mãe, mas isso já tem anos, e ela nunca mais apareceu por lá!
– Não volto, não volto, e acabou!
Seu Pedrinho, mesmo depois dos setenta, e morto de saudade, também não dava o braço a torcer:
– Não volto, filho; ela foi injusta comigo. Eu nunca nem pensei em trair sua mãe.
Aconteceu que um dia seu Pedrinho caiu doente, isso já com mais de oitenta anos. Gustavo e Bruno, já casados e cinquentões, faziam de tudo para trazer dona Olívia de volta para Três Marias. Em vão. Bruno resolveu ir morar em Januária com a mulher e os filhos, para ficar perto da mãe, que também já passara dos oitenta.
Dez anos depois, seu Pedrinho ainda estava doente. Não saía mais da cama.
– Mãe, por favor, perdoa o Pai, uma hora dessas ele acaba morrendo!
– Pois que morra, Bruno! Ele que morra, se quiser, mas perdoar eu não perdoo!
E seu Pedrinho, do alto de seus noventa e dois anos, ouvindo isso de Gustavo – dilatadas as pupilas, ressaltadas as veias do pescoço e enrubescidas as antes pálidas faces – retrucou:
– Pois enquanto ela não vier aqui e não me pedir perdão, eu não morro. Por desaforo!
(Publicado no meu livro A ALJAVA DE CUPIDO, 2016)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Você ouve agora o murmúrio das águas deste rio, aqui pertinho de nós, ocultas pelas folhagens. Quando venho aqui, fecho os olhos e vejo paisagens que eu percorri em minha infância e juventude. Minha alma atravessa tempos e espaços e viaja livre, sentindo os mesmos prazeres e as mesmas dores.
Nasci em um lugar distante daqui. A semelhança entre os dois lugares é que me evoca essas lembranças. Permaneci por lá até crescer e me mudar para a cidade, quando pude estudar, trabalhar de terno e pensar que tinha virado gente. Percorri muitas outras cidades, infligi minha presença nos mais inóspitos e diversificados ambientes, lancei-me às mais desafiantes circunstâncias, com o desejo um tanto inconsciente de endurecer as cascas de meu espírito.
Você me pergunta por que chego aos noventa anos tão solitário e vivendo num casebre afastado da civilização. Não sei se sua pesquisa vai servir para grande coisa. E estou com preguiça de estender esta nossa conversa. Mas sei que vida de estudante não é fácil. Talvez você possa romancear seu trabalho e despertar o interesse de seu professor e de seus colegas, embora não haja nada de tão interessante a ser dito.
Endureci, sim, as cascas do meu espírito. Mas me pergunto: e daí? Amei. Amei muito, embora talvez tenha me equivocado no modo de amar. Aliás, pergunto ainda: existe um modo certo de amar? Amar é apenas amar! Sim, amei muitas mulheres, e a que mais me marcou foi a Teresa. Mas até hoje amo muitas mulheres, mesmo sem vê-las, pois as acho perfeitas, todas. São seres inteiros. A nós homens é que parece faltar algo. Tive, contudo, poucas. Amei-as com meu amor desajeitado, com meu espírito cascudo. Nunca as entendi, mas não acho que isso justifique minha solidão. Afinal, os outros homens – aqueles que conseguem tê-las à sua cabeceira no momento de seu último suspiro – também não as entendem.
Tenho aprendido algo nos últimos anos. Sim, sozinho. Todos os dias faço um exercício. Venho para a beira do rio, sento-me nesta mesma pedra, fecho os olhos, como já disse, e me transporto em espírito para todas as situações de amor que já vivi. E, quando digo situações de amor, quero dizer todas as situações de encontro, e quando digo todas as situações de encontro, quero dizer não apenas encontro com pessoas, mas encontro com tudo que manifesta o pulsar da vida. Porque somos todos irmãos – nós, os seres, animados ou inanimados, somos todos irmãos – e só compreendendo isso é que se chega a entender o amor. Transporto-me, portanto, como disse, a todas as situações de amor que já vivi. E refaço, reescrevo toda a minha história, todas as minhas histórias de amor. E as reescrevo literalmente, aqui nestes cadernos surrados que você pediu para ler. Não, não permitirei que você os leia, mesmo porque seria inútil. Eu reescrevo as histórias que vivi porque esta nova versão que dou a elas me dá a certeza cristalina de como teria sido fácil ser bem-sucedido no amor. Esta nova versão de minhas histórias dá risadas da minha inacreditável inépcia para o amor.
Você pode dizer que agora é tarde. Sim, aprendi a amar reescrevendo, reinventando minhas histórias de amor, mas já tenho noventa anos e estou decidido a findar meus dias naquele casebre onde você foi me buscar para esta conversa. Mas eu lhe digo: primeiro, descobri que nosso objetivo na vida é o aprendizado, não a felicidade, como se costuma pensar, já que o mundo é uma escola, e a vida não passa de um curso escolar. Assim, ter a felicidade como principal objetivo seria como ir à escola pensando apenas no recreio. Mas concordo que se pode ser feliz enquanto se aprende. E lhe digo mais: estou amando mais do que nunca! Ali, sozinho naquele casebre, ou aqui, à beira deste rio, eu tenho praticado o amor – o amor que aprendi ao reescrever minhas histórias. Sozinho, sim. Porque corrigi meu espírito, expurguei dele toda amargura, todo desejo egoísta que me levava a me confrontar com as pessoas que eu amava. Não eram verdadeiros encontros, eram confrontos.
Amaria de novo uma mulher, com esta refeita, reinventada forma de amar, se pudesse retroceder alguns anos, levando comigo o aprendizado que alcancei aqui. Se eu ainda tivesse corpo, e não esta decrepitude ambulante, para voltar atrás e amar… Ou se eutivesse mais alma, como dizia naquele tempo a música de um cantor de cujo nome não me lembro mais… Ah, sim, me lembrei, o Djavan. Você é muito jovem, mas seus pais devem ter ouvido muito as músicas dele. Talvez ainda façam sucesso. Sonho às vezes com a Teresa surgindo à porta de meu casebre para me visitar. Acordo e sorrio, contemplando a quietude e o silêncio à minha volta. Feliz por ter o coração leve e em harmonia com todos os seres do mundo. É como se o meu espírito não fosse mais cascudo, embora eu saiba que essa casca, se bem que suavizada, incorporou-se para sempre ao meu ser.
Você disse, logo no início da nossa conversa, que teria uma surpresa para mim. Meu amigo, não há mais surpresas. Não para mim. Presente, passado e futuro são para mim uma realidade única.
Repito: amaria de novo, sim, uma mulher. Contudo, lhe digo: não é necessário. O essencial é que o amor esteja no coração.
Não, não se assuste com estas minhas caretas. São pontadas que tenho de vez em quando, só que ultimamente elas têm sido mais fortes e frequentes. Mas são apenas pontadas, coisas da idade. Basta respirar fundo, assim, olha só, e a dor logo passa… Se bem que… Bom, deixe-me descansar um pouco. Afinal, você sabe, a idade… Hei, para quem você acenou? Quem vem lá? Puxa! essas pontadas… Mas quem vem lá? Espere um pouco, então foi tudo combinado? Você conhece a Teresa? Pois é ela quem vem lá! Mas ela vem devagar, coitadinha, também já caminha com dificuldade. E minhas vistas estão escurecendo, já não posso ver bem, agora só vejo o vulto dela. Que pena! Puxa, estou caindo, me ajude a me deitar no chão… Isso. Puxa, fiquei muito tempo sentado nessa pedra. Vá até ela, isso. Diga-lhe que… Diga-lhe que… Se eu tivesse… Se eu tivesse mais alma, eu…
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido – 2016)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Não existe movimento espontâneo: todo movimento surge de uma vontade. Em última análise, a vontade de uma Inteligência Universal (divina) está na origem de todo movimento, ainda que determinado movimento tenha consequências provisoriamente nefastas. Tudo faz parte da pintura eterna e dinâmica produzida pelos pincéis de Deus.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Considero que a vida está recheada de episódios literários. Qualquer pequeno nada pode motivar uma história interessante. Não me lembro, aliás, de ter escrito, uma vez sequer, uma história baseada em episódios de grande impacto. Deixo que minha imaginação prevaleça e produza o efeito que pretensamente impactará o leitor.
Escrevo mais quando não estou escrevendo. Exemplo: quando faço caminhadas, frequentemente me surgem ideias para um conto, ou para um trecho do romance que estou criando, ou uma frase que vai preencher lacuna num trecho que ainda não satisfez meus ouvidos de escritor. Isso porque eu escrevo como se estivesse ouvindo a minha própria voz, e então a frase precisa soar bem; do contrário, aquilo segue me incomodando.
Traço planos quando estou escrevendo um romance. Primeiro me surge a semente, ou o embrião, de algo que poderá vir a ser, ou não, uma história. Em seguida imagino uma trajetória resumidíssima a ser seguida pelo protagonista e me sento para colocar isso no papel. Começo a escrever sem muita preocupação, nessa fase inicial, com o desenrolar dos fatos, mas começo a imaginar um esquema no qual se inclui o desfecho – que pode ou não se confirmar. Em seguida, num arquivo à parte, escrevo esse esqueleto, que servirá, até certo ponto, de roteiro para o desenvolvimento da história. Na prática, quase sempre abandono esse esquema e deixo a história fluir do jeito que ela quiser, mesmo porque parte desse esquema parece, a partir de certa altura, agir no meu subconsciente.
Quando escrevo contos, o processo é diferente. Algumas vezes, a história surge, eu me sento e escrevo tudo em pouco mais de uma hora. Não há necessidade de esquemas. Outras vezes, eu simplesmente me obrigo a produzir um conto, me sento sem nenhuma ideia e vou escrevendo o que me vem à cabeça. Aos poucos aquilo ganha corpo e sentido e eu passo a me preocupar com o desfecho. Esse desfecho deve ser, no caso de contos, a principal preocupação do escritor. O bom conto precisa causar impacto, precisa dar um susto no leitor, precisa surpreendê-lo, dentro do possível. Pode também acontecer de eu imaginar o desfecho antes mesmo de ter uma história pra contar. Nesse caso, crio uma história em função daquele desfecho, e o texto que se desenrola persegue esse final previamente imaginado.
Corrijo obsessivamente meus textos. Faço várias leituras antes de dizer a mim mesmo que um texto está pronto. No entanto, mesmo depois de publicado, é inevitável que encontre nele algo passível de modificação.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
O jovem padre recolhia donativos às portas do comércio para entregar a uma comunidade pobre. A rodovia estava a poucos metros dali. Os dois bandidos que passavam de carro não tiveram dúvida: sequestro-relâmpago. Levaram o padre com seus donativos, inclusive dinheiro.
Soltaram-no a quilômetros dali, à beira da estrada.
– Vam’ levar a batina também! – falou o bandido alto e magricela. O outro, baixo e gordo, concordou.
– Mas ela é minha, avisou o primeiro. Tenho planos. A gente vai se dar bem. Cê vai ser o sacristão, falou?
Levaram a batina. Só de sacanagem, tiraram também a cueca do padre e a queimaram na presença dele. Arrancaram o carro e sumiram.
O padre, cobrindo as “partes” com uma das mãos, com a outra acenava para os carros na rodovia, pedindo carona. Sem sucesso.
Desanimado, foi andando ao lado do acostamento. Quando via um carro, ocultava-se um pouco – a vergonha era maior que o desespero.
Fome, sede e cansaço. Mas seguia. Vislumbrou pequeno comércio à frente. Alentou-se. Logo achou um bar. A porta estava aberta. Porém, nu como estava, entraria lá?
Não. Viu uma moto estacionada. Não teve dúvida. Mesmo nu, montou na bichinha e se mandou.
Para onde iria? Ou antes: até onde iria assim, sem nenhuma roupa? Nem sabia a que distância estava de casa ou mesmo da comunidade onde recolhia donativos.
Tinha de avisar a polícia. No entanto, usar um telefone público sem ser visto não seria fácil. Alguns carros já haviam passado por ele, e seus ocupantes, como se esperava, fizeram chover toda sorte de vaias, insultos e impropérios sobre seus lombos desnudos.
Avisar a polícia de que dois bandidos o tinham roubado, levando-lhe até a batina, não seria mesmo fácil. Mas a polícia soube: um maluco nuzinho da silva pilotava uma moto a toda velocidade na rodovia. Acabou preso.
No mesmo dia, o pai de certo Diego recebeu um telefonema do delegado. Foi lá, pagou a fiança e o levou para casa.
– Que história é essa, filho?
– A gente precisa de grana pra formatura, pai. Então fizemos um sorteio. O escolhido teria de se vestir de padre e recolher donativos numa cidade do interior. Sobrou pra mim.
– E essa batina que os bandidos levaram, onde você arranjou?
– Ih!… Foi a tia do Gustavo que fez pra gente. Ela vai me matar!
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Amanheceu pensando no Marcelo. Pouco depois, enquanto tomava café, as pernas estiradas sobre a outra cadeira que colocara a sua frente, ainda pensava nele. Parou para observar a tênue fumaça que subia da xícara, mas quase nesse exato momento já não observava nada. Parou de olhar o café e agora olhava para o nada, não estava mais ali. Viajava em busca de minutos antigos, em que tinha a sua disposição a presença inquietante de Marcelo, a quem, no entanto, ela não dera muita chance de se aproximar.
Por que então nos últimos dias não parava de pensar nele? Foram várias as vezes em que ele tentara um contato mais estreito com ela, e na semana passada ele lhe telefonou de novo, após tanto tempo. E chegou a fazer nova ligação, insistindo para que ela lhe concedesse oportunidade de conversarem. Era difícil para ela confiar em homens. E havia algo no jeito de olhar, nos modos do Marcelo… Não dava pra confiar.
“Mas eu não deixo de pensar nele, que coisa!” – disse consigo mesma. Ergueu-se, esquecida quase do café, e foi se olhar no espelho. Sorriu. Estava corada e os olhos brilhavam. Estava quase feliz.
“Acho que vou ligar para a Mônica… Acho que engordei… Acho que… Ah, não, quero um vestido novo, hoje! Acho que vou ao shopping. Vou ligar para a Mônica.”
Voltando à mesa, prometeu a si mesma que da próxima vez aceitaria sair com o Marcelo.
“Será que ele ainda vai tentar de novo, eu tendo recusado tantas vezes? Vai sim, a semana passada ele ligou duas vezes. Ele vai tentar de novo e eu vou dizer sim!”
Ligou para a Mônica e combinaram um encontro no shopping. Era tarde de sexta-feira, e ela foi esperar pela amiga num café não muito longe de uma das entradas do shopping.
Mas se levantava a todo momento, andando de um lado para o outro, correndo os olhos nas vitrines, voltando a se sentar, levantando-se de novo…
Até que surgiu Mônica, que, ainda de longe, avistou-a e veio saltitante, correndo daquele jeito engraçado, como Sandra Bullock; aproximou-se logo da outra, abraçaram-se, fizeram uma festinha de uns vinte segundos, dando risinhos e gritinhos, e dali foram passear pelos corredores, olhando vitrines, comentando sobre o que viam e ao mesmo tempo sobre o Marcelo, sobre dieta, sobre o vestido que a fulana estava usando na festa na casa da sicrana e sobre como era invejosa a beltrana, sobre o Marcelo de novo e sobre como se relacionar hoje em dia não é nada fácil e sobre o carinha da academia que fica dando em cima da Mônica e sobre a chuva que caiu ontem e sobre o Marcelo de novo e…
Sentaram-se e resolveram tomar um chope.
– Sinceramente, eu não sei o motivo de sua dúvida, Gabi.
– Agora eu acho que não tenho mais dúvida, eu tenho é medo dele não me ligar mais. Um dia o cara acaba se cansando, né. Já esnobei ele demais… Quer dizer, não é que eu esnobo ele, é que… Cê sabe, né… Mas pra ele deve parecer esnobação.
– Amiga, se o cara já insistiu tanto, ligou tantas vezes, por que não ligaria mais uma? Logo agora que você decidiu dar a ele uma chance!
– Mas ele não sabe disso!
– Ah, agora entendi! – disse rindo Mônica. Você quer que eu dê uma ajudinha…
– Nada disso! Só chamei você pra gente conversar, trocar ideias…
Mônica não insistiu, pois a outra parecia falar sério.
Daí a pouco deixaram o café e foram fazer compras. Mônica ajudou a amiga a comprar um vestido bonito antes de se despedir. Mas antes reafirmou sua crença de que Marcelo ligaria de novo para a outra, provavelmente no dia seguinte, que era sábado.
Ela não soube, mas a danada da Mônica naquela mesma noite entrou em contato com o Marcelo e o deixou muito esperançoso, aconselhando-o a ligar para a Gabi. “Faz só mais uma tentativa, e eu garanto que você não vai se arrepender” – disse-lhe por telefone.
O Marcelo dessa vez relutou, embora sentisse seriedade no que a Mônica lhe dissera. Mas é que já havia, antes, decidido não mais procurar a Gabi. Lutando um pouco contra aquela ideia, acabou derrotado pelo fiapinho de esperança que teimava dentro dele. “Quantos sonhos – disse a si mesmo ao passar perto de uma floricultura – já brotaram e em seguida feneceram nos dúbios canteiros do meu coração? Uma tentativa a mais ou a menos…”
E resolveu ligar para a moça.
Como ficou sabendo, pela Mônica, do hábito que tinha a Gabi de se deitar à beira da piscina nas manhãs de sábado, e ficar lendo alguma coisa, com o celular ali ao seu lado, resolveu ir até lá naquele horário.
Aproximou-se sorrateiro da casa, andando um pouco agachado, até que pudesse observá-la, sem ser visto, através do gradil que completava o muro.
Estando já posicionado, esticava de vez em quando o pescoço para vê-la lá dentro, ao lado da piscina, lendo um livrinho. Viu o celular a pouco mais de um metro de distância da mão dela.
Marcelo trazia um buquê de rosas. Respirou fundo e sacou o celular. Acionou o número dela e pressionou o botão. Ficou observando de longe, ainda sem ser visto, para ver a reação da moça quando ouvisse o chamado em seu aparelho.
Ela se ergueu assim que ouviu o primeiro toque. Olhou, viu de quem era a ligação – claro, era aquela ligação que ela tanto esperara! – mas se conteve e decidiu esperar que o toque se repetisse, talvez até mesmo que parasse de tocar para que Marcelo insistisse mais um pouco, telefonasse de novo, mais tarde, outro dia, talvez… E foi se deitar de novo ao lado da piscina.
No entanto o coração dela estava aos pulos, se bem que sua fisionomia, de longe, não demonstrasse isso.
E o Marcelo, vendo apenas frieza e indiferença naquela atitude, guardou o celular, atirou as flores numa lixeira e foi embora. Não houve mais nenhum telefonema. Nem flores.
(Publicado no meu livro A aljava de Cupido, 2016)
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.