
Mais uma vez o Mendes ia atender a um recado da mulher dele, a Jussara. E dessa vez eu ia com ele, pois me encontrou pouco depois de ter recebido o recado, um bilhete que um menino tinha levado pra ele no bar do Marcelo, naquela manhã de sábado. Me chamou pra ir caminhando com ele; foi desabafando comigo.
“Olha, Júlio, eu não suporto mais esta história da mulher ficar me mandando recadinho para eu ir me encontrar com ela lá na casa da Lourdinha, depois de ter me enchido o saco com suas desconfianças. Se eu fosse um sujeito malandro que nem o Tales, que vive mentindo para a pobre da Isaurinha, dizendo que teve de trabalhar até mais tarde por exigência do chefe, ou que precisou tomar uma cerveja com o Otávio porque o Otávio precisava desabafar etc., coisas assim que ele inventa quando na verdade vive chifrando a coitada, se eu fosse um cara assim, ela teria alguma razão de apelar comigo, de ficar com desconfianças, com ceninhas de ciúme. Mas eu sou um cara sério, porra, e sou apaixonado por ela, só penso nela, só vivo por ela. Isso deixa a gente desanimado e até revoltado. Já até sei o que ela vai me dizer: que ela estava nervosa, que depois conversou com a Lourdinha e que a Lourdinha mostrou pra ela que eu não sou o cachorro que ela fica dizendo que eu sou, que todo mundo que me conhece sabe que eu sou um cara honesto, discreto, trabalhador, e que nem presta atenção em outras mulheres, e que eu pareço até um idiota, um retardado, pois só vivo falando nela, como se ela fosse a única mulher do mundo. Enfim: tudo que ela sempre diz quando se arrepende e quer reatar. E tem hora que eu acho que sou é isso mesmo: um idiota, sou ou não sou? Eu fico observando os caras que se dão bem com as mulheres: só os sacanas se dão bem. Os bonzinhos que nem eu… A gente só se ferra!”
A gente ia caminhando devagar. De vez em quando parecia até que ele se esquecia da minha presença e falava como se estivesse pensando alto. “Pensei em levar, de novo, como das outras vezes, um buquê de rosas pra ela, mas quer saber de uma coisa? Desta vez, não. Quem sabe a diaba não fica querendo é isso mesmo: inventa briguinhas comigo, pra depois me ver chegando lá feito um idiota, um cachorrinho arrependido, todo humilde, requerendo o perdão dela, como se eu tivesse feito algum trem errado! Ou então, quem sabe não é justamente por isso – por eu chegar lá com ar de culpado – que ela acaba ficando ainda com alguma desconfiança, e achando que pode ser enganada, pois “homem nenhum presta”, como ela não se cansa de dizer? Não vou levar flores desta vez. E nem vou chegar lá todo humilde, todo pedinte, como das outras vezes. Vou chegar de cabeça erguida; afinal não sou nenhum cafajeste, não fiz nada errado, não menti, não enganei.”
Naquela manhã, naqueles poucos minutos de caminhada entre o bar do Marcelo e a casa da Lourdinha, o coração do meu amigo Mendes experimentou muitas variações de sentimentos.
“Aquele dia que ela me deixou lá em casa sozinho, sabendo que estava passando mal, com uma dor terrível, sem nem poder sair para buscar um remédio na farmácia, aquele dia foi demais. Se eu não gostasse dela, eu ainda ir querer ir atrás dela no outro dia? Se fui é porque gosto dela. E agora ela de novo dá seus chiliques e corre de novo pra casa da Lourdinha, fica lá dois dias e hoje me manda um bilhete dizendo que quer falar comigo. Eu vou, mas desta vez nada de flores.”
“Quando eu chegar, cê vai ver, Júlio, ela nem vai esperar eu dizer nada e já vai vir logo correndo pra mim de braços abertos, como ela sempre faz. Eu acho que é por isso que eu sempre volto pra ela, pois quando ela corre pra mim daquele jeito, com aquele sorriso, aquele momento é gostoso demais, é impagável. Aliás, Júlio, pensando bem, eu vou levar umas flores sim. Ali perto tem um florista. Num instante a gente manda fazer um buquê.”
Pobre Mendes! Levava as flores. Mas logo que avistamos a varanda da casa da Lourdinha, vimos também uma cena que acabou com ele. A Jussara estava agarradinha na cintura de um sujeito e olhando sorridente para o nosso lado, com ar de quem se divertia à custa da desgraça do meu amigo. Eu tentei retê-lo, mas ele avançou cego na direção dos dois. Eu também fui correndo um pouco atrás dele, tentando ainda fazer com que ele se acalmasse. Não tive como contê-lo. Quando ele estava a cinco passos dos dois, o outro sacou o revólver e atirou. O tiro passou de raspão pelo braço do Mendes. Por sorte ou azar, eu também estava armado aquele dia. Atirei e o cara caiu. Graças a Deus, não morreu e já deve até ter saído do hospital.
Mas o Mendes no mesmo dia correu para a rodoviária, dizendo que ia embora pra terra dele e que ia ficar lá pra sempre. E agora me sai uma notícia dessas no jornal, até com a foto dele, dizendo que foi encontrado morto. Diz o jornal que foi suicídio. Deve ter sido mesmo. Nem todo mundo gosta tanto de viver quanto eu.
(Publicado em meu livro A aljava de Cupido – 2016)

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.









