Um aviso bem maluco!

(Mais um trecho de meu novo livro)

— Não, sô Janjão, fique sossegado. A primeira novidade é que eu vou morrer quinta-feira – e sô Juquinha disse aquilo com tal naturalidade que era como se ele tivesse o hábito de morrer toda semana.

— Quê isso, amigo! Isso é loucura…

— Não, sô Janjão, eu sei que vou morrer quinta-feira.

— Mas como isso é possível?!

— Me avisaram. Alguém do outro lado me avisou.

— Que outro lado?

— O outro lado… O lado dos que já foram. Um amigo de lá apareceu pra mim e me disse que a minha hora chega na quinta-feira. Mas não se preocupe, sô Janjão: já providenciei tudo. Vim apenas pedir ao senhor o favor de me enterrar. Já fiz uma cova lá no meu quintalzinho. Ficou bem caprichada. É só me botar lá dentro e jogar a terra por cima. Não carece nem de caixão. O corpo da gente daí a pouco apodrece mesmo, né… E a alma sobe rapidinho pro outro mundo. Bobagem gastar com caixão.

Aguarde o lançamento. A data e o local serão anunciados em breve. Publicação pela Páginas Editora e com prefácio da escritora e jornalista Jalmelice Luz.

Na República da Esbórnia

Na expectativa do lançamento de meu sétimo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela @paginas_editora , vou curtindo esta bela noite na República da Esbórnia, no Buritis.

É nesta sexta! O QUE TE FAZ FELIZ?

Uma antologia que já nasce fazendo muito sucesso!

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO. Aguarde! É pela Páginas Editora.

AS MARIAS DE ARTUR

Mais um de meus contos:

Branquinho, cabelos louros, bochechas rosadas, do alto de seus seis anos e pouco, o pequeno Artur cruzou pela primeira vez o portão da escola, aferrando-se à mão de dona Marina, sua mãe. Naquele exato instante se iniciava sua vida de obrigações e sustos. Chorou e soluçou, implorando a dona Marina que não o deixasse ali, entregue a um mundo estranho.

Filho único, seu mundo fora até então um tiquinho à toa de mundo: um pai que aparecia de vez em quando, uma mãe calada e triste, uma casinha triste com um terreirinho triste, isolada num canto de bairro triste, um cãozinho triste, e, do outro lado da rua, outra casinha, também isolada e triste, em cuja janela uma vizinha de seus duzentos anos – cálculos feitos pelo pequeno Artur – botava de vez em quando sua carinha, descorada e triste, para ver se haveria alguma coisa para ser vista numa rua onde nunca se via nada.

Pela primeira vez, portanto, o pequeno Artur via pessoas diferentes. A professora era elegante e cheirosa, mas metia medo por causa dos olhos rígidos atrás dos pesados óculos. Alguns meninos o encaravam curiosos, como se ele fosse um extraterrestre. Precisaram, contudo, de poucos minutos para começar a chamá-lo de macarrão, por ser muito branco. Reagiu distribuindo tapas – os olhos de um felino enraivecido, lágrimas brotando e rolando quentes sobre as faces rubras. Reagira assim apenas por não conhecer outro tipo de reação. Não sabia conviver, não reconhecia o mundo.

Com o passar dos dias, contudo, foi se acostumando às esquisitices daquele mundo recém-conhecido. Ficou até amigo do Betinho e do Pardal. No recreio merendava com eles, brincava, brigava…

Ah, e também conheceu o amor. Ou não era amor aquele calorzinho gostoso que ele sentia no peito toda vez que chegava perto da Maria Cecília? Quem disse que não era amor ficar relembrando a vozinha de cristal da Maria Cecília toda noite, depois que se deitava? Por que não seria amor teimar com a mãe, dizendo que “hoje não é sábado não, mãe, hoje tem aula sim!”, só porque necessitava avistar, mesmo que de longe, as madeixas louras da Maria Cecília?

Mas a Maria Cecília não ligava pra ele. Esnobava-o. E ele sofria. Um coraçãozinho de seis anos e pouco sofrendo por um amor não correspondido. Ela parecia preferir o Renato, menino feio e que tinha até chulé! Ele voltava triste pra casa, torcendo pra que dona Marina não lhe perguntasse a razão daquele desânimo; por sorte dona Marina nunca lhe perguntava nada. Mãe triste, casa triste, bairro triste, cachorro triste… Tudo triste. Por que alguém lhe notaria a tristeza? Mas é que nos primeiros dias, logo que começou a sentir aquele calorzinho gostoso, ele estivera alegre. Dona Marina, contudo, não chegara a notar nenhuma diferença.

E à noite ele chorava em silêncio até dormir.

Amou e sofreu por Maria Cecília até os dez anos, quando mudou de escola. Lá conheceu Maria Clara (só dava Maria naquele tempo) e de novo se apaixonou. De novo sofreu. Quem gostava dele era a esquisita da Maria Teresa, dentuça e fanhosa.

Aos doze anos foi a vez da Virgínia, que não era Maria, mas que nem por isso deixou de divertir-se à custa do esquisito Artur. Sim, ele era um menino esquisito – era o que todas as meninas diziam. “Fala esquisito, anda esquisito, olha esquisito – esse menino é todo esquisito!”

Coitado, era esquisito mesmo. Tímido demais, andava olhando pro chão, com seus óculos fundo-de-garrafa; andando, balançava demais os braços; quando falava, a voz falhava, sumia, ele gaguejava. E se apaixonava sempre por uma menina que o esnobava, e sempre havia uma feiosa tentando se aproximar.

E veio a juventude, a faculdade, e tudo se repetiu. Vez ou outra até chegava a namorar alguma garota atraente, mas nesses casos, para tentar manter o relacionamento, acabava tendo que engolir muito sapo para mais tarde cuspir marimbondos. E ficou adulto, firmou-se profissionalmente, mas… sempre havia uma Maria Cecília linda para desprezá-lo e uma Maria Teresa sem graça para tentar seduzi-lo. Aquilo parecia coisa do demônio, um carma, uma maldição! O resultado: o tímido Artur sempre era visto, pelos amigos, de braços dados com quem ele não escolhera – uma Maria Teresa qualquer.

Hoje, já na meia-idade, a maldição permanece. Por isso ele está se encaminhando agora, neste exato momento, para o consultório da doutora Sônia, especialista – dizem – em tratar idiot… quer dizer: homens com esse tipo de “maldição”.

(Do meu livro A ALJAVA DE CUPIDO, de 2016)

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguarde data e local de lançamento!

Hoje é aniversário de Guimarães Rosa

Eu não poderia deixar passar em branco esta data. Guimarães Rosa é dono de uma arte única. Ele, em sua densa obra, mostrou a muitos de nós, mineiros e não mineiros, as profundidades das Minas Gerais que não conhecíamos. E mais: retratou com arte e paciência as muitas humanidades que habitam os homens do sertão.

Parabéns, João Guimarães Rosa!

A ODISSEIA DE NICOLE

Seu Túlio decidiu: olha, Marieta, a cachorra não pode mais ficar com a gente. Daqui a uns dias a gente se muda desta casa, e em apartamento não dá pra ter cachorro. Eu sei que a Gabriela vai ficar triste, mas não tem outro jeito.

Dona Marieta ainda quis argumentar em favor da filha, e também da cadela Nicole, que adorava a moça. Mas Seu Túlio não transigiu.

Puseram então a pobrezinha numa caminhonete e a levaram para a fazenda do primo Jorge, muitas centenas de quilômetros dali. A Gabriela gostava demais da cadela, e seu coração ficou espremidinho dentro do peito quando ela se debruçou na janela para ver pela última vez Nicole, cujos olhos tristonhos a fitavam enquanto ia se afastando até dobrar a esquina.

A viagem durou mais de um dia. O motorista, que era também o caseiro do primo Jorge, precisou pernoitar em uma pousada e mal pôde pregar os olhos devido aos ganidos agoniados de Nicole. Ela passou a noite presa num cercadinho de tela no fundo de um quintal existente ali. Ao longo da jornada, ele cuidou para que ela não tivesse fome nem sede, mas ela sempre latia com os olhos voltados insistentemente para as paisagens que iam ficando para trás.

Na fazenda ela foi presenteada com um belo canil, especialmente construído para recebê-la. Ali teria água e alimentos com fartura.

Mas seguia latindo e ganindo. Quando pegava no sono, parecia sonhar com a antiga casa, com Gabriela, talvez até com o gatinho malhado com quem costumava ter algumas escaramuças. O primo Jorge às vezes presenciava esses seus supostos sonhos no meio da tarde e dizia para a mulher: “Olha lá, Margarete, parece que a Nicole tá sonhando, coitadinha. Tá com a carinha alegre e o rabinho balançando.”

Certa manhã Nicole conseguiu escapar. Não devia ter uma ideia clara do caminho que teria que percorrer até chegar à velha casa onde vivera com Gabriela e os pais desta, a tamanha distância dali. Mas se pôs a caminho sem nenhuma hesitação, porque cachorro é assim: o coração manda, ele obedece. É simples: eu quero ir, eu vou! Ela devia ter certeza da direção a seguir, porque o coração se alegrava. Se mudasse de rota, o coração iria se entristecer, fazendo com que ela corrigisse o rumo. Mas cachorro não tem dúvidas, cachorro tem instinto, olfato e pernas para correr. Seguiu, portanto, o seu coraçãozinho saudoso e valente e começou a dobrar colinas e mais colinas.

Às vezes parava para saciar a sede em algum regato, para logo em seguida prosseguir sem descanso, pelo menos enquanto pôde. Depois veio o cansaço, e ela se deitou à sombra de um arbusto para um breve sono.

Quando acordou, percebeu que tinha fome. Nunca havia precisado caçar, mas não foi tão difícil acordar dentro de si essa caçadora que dormia em seu DNA. Devorou o primeiro nhambu que vislumbrou entre as folhagens e botou de novo o pé na estrada.

Muitas outras vezes teve de caçar; numa dessas ocasiões teve de disputar a caça com um cachorro-do-mato ou outro bicho parecido. Caçava aves e também roedores como preás e uns ratões esquisitos. O que vinha ela traçava, pois precisava ter forças para seguir em frente.

Já havia viajado por muitos dias quando, certa tarde, enquanto dormia debaixo de um arbusto, como era seu costume, foi despertada por um nariz gelado que a cheirava. Ergueu meio corpo para encarar o intruso e deu de cara com um bicho fedorento, do focinho cumprido e afilado; parecia um cão. Mas não, não era; era um lobo. Ela não gostou da presença dele e resolveu prosseguir em sua jornada. Ele, contudo, passou a segui-la. Mas ela, por sorte, deixou a mata e passou a caminhar em uma rodovia. O bicho desistiu de segui-la.

Algumas horas depois, entrou em uma cidade. Em sua jornada já havia atravessado várias, mas dessa vez algo diferente ocorria: alguns cães começaram a segui-la. O primeiro veio e cheirou-lhe o corpo, começando pelo focinho e em seguida buscando outras áreas, para finalmente chegar às partes mais “interessantes”. Os outros seguiram o mesmo ritual e, é claro, houve muita confusão, rosnados, mordidas, etc. O próprio lobo a teria seguido caso ela não entrasse por acaso na rodovia. Nicole estava no cio.

E outros cães foram se juntando ao seu séquito, e dali em diante cada cidade ou lugarejo em que ela entrava fornecia mais e mais cachorros que iam sendo acrescentados à fila de machos que se candidatavam a pais de seus futuros filhotes. Em pouco tempo já eram mais de cem. E os dias se seguiam e outros iam se juntando. Os mais sortudos conseguiam fazer sexo com ela mais de uma vez, enquanto outros nem mesmo conseguiam se aproximar para uma cheiradinha.

Quando se cansavam, paravam, juntamente com Nicole, para o descanso e também para comer. Caçavam, mas, como não havia caça para todos, sempre havia disputas, e os mais fortes sempre tomavam o alimento dos mais fracos. Estes acabavam sendo derrotados pela fome e o cansaço e desistiam da cadela. Mas sempre iam se juntando outros, de modo que, dias depois, já somavam cerca de oitocentos. Um desses oitocentos era Rex, um vira-lata metido a pastor alemão, que ignorou os apelos de seu dono e resolveu seguir Nicole durante toda a sua jornada.

Atravessavam cidades, arraiais, campos, matas. Nicole e seus oitocentos e tantos seguidores. Certa vez atravessaram a avenida principal de uma grande cidade, e a cena foi memorável. Aconteceu de ser dia sete de setembro. Preparavam a avenida para os desfiles. Já estavam acertando os últimos preparativos para a entrada de colegiais, militares e outros participantes que marchariam ao longo daquela importante via pública. As arquibancadas já estavam repletas de espectadores. Nicole, displicente, resolveu passar por ali sem nenhuma cerimônia, seguida, é claro, de seus oitocentos e tantos namorados. Grande parte da plateia entendeu que aquele desfile inusitado fazia parte da festa, uma surpresa, talvez, preparada pelo prefeito. Uns riam, outros aplaudiam, e Nicole seguia imperturbável à frente dos outros cães. Mais tarde o boquiaberto prefeito não soube o que dizer ao batalhão de repórteres que o assediavam.

Aos poucos, porém, à medida que Nicole avançava em sua busca incansável de seu antigo lar, o número de cães que a seguiam foi diminuindo. De oitocentos, ficaram uns duzentos, depois uns cinquenta, dez… Nicole não estava mais no cio. E já estava bastante grávida. Muito grávida. Grávida demais. Dos dez últimos, restou apenas um: Rex, o vira-lata metido a pastor alemão, provável pai de uns dois ou três dos vários filhotes que ela teria em breve. Rex não quis deixá-la. Parecia apaixonado por ela.

E finalmente os dois chegaram à velha casa de Seu Túlio. Como se tivesse saído dali um dia antes – porque talvez cachorro seja mesmo assim – Nicole passou por uma abertura do portão e se dirigiu diretamente para a porta da cozinha, onde sempre encontrava Dona Marieta. Lá fora ficou o Rex, que não conseguia passar na pequena abertura do portão.

Mas Nicole não encontrou Dona Marieta, nem Seu Túlio, nem Gabriela; nem mesmo o gatinho malhado. Percorreu toda a casa e viu que ela estava vazia. Nenhum móvel, quadros, nada! Foi para o quintal com o rabinho entre as pernas e se acomodou no velho canil, mas aparentemente sem nenhuma saudade. Triste, sim. Magoada talvez. Não parecia se lembrar de Rex, até que ouviu os seus latidos lá fora. Latiu de volta, um pouquinho. Voltou a descansar o focinho sobre as patinhas, os olhinhos fechados.

Os muros naquela época não eram muito altos. Rex conseguiu saltar e passar para o lado de dentro e foi se acomodar também ao lado dela.

Mas o descanso de Rex foi curto. Resolveu sair. Nicole ensaiou acompanhá-lo, mas acabou permanecendo onde estava. Meia hora depois ele voltou. Trazia na boca o jantar: um frango caipira ainda meio vivo, que ele apanhara distraído em algum quintal ali perto. Aproximou-se dela, todo marido, e depôs ao seu lado a caça.

E não se separaram mais. Donos absolutos da casa abandonada. Nicole, contudo, não desistira de reencontrar seus donos. Mas estava grávida, muito grávida, e era preciso parir primeiro e esperar os meninos, ou melhor, os filhotes crescerem um pouco. O que, aliás, não levou tanto tempo assim.

Certa manhã, às sete e pouco, Gabriela deixou a cama, espreguiçou-se e, pouco antes de abrir a janela do seu quarto, como era seu costume, no apartamento onde agora morava com os pais, ouviu uns latidinhos finos. Pensou reconhecer aqueles latidos, ainda que sem se lembrar de pronto da cadela, e foi ver o que era. Lá estavam: Nicole, o marido Rex e seus nove filhotes.

(Do meu livro a aljava de cupido, publicado em 2016)

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguardem data e local do lançamento!

Foto por Taryn Elliott em Pexels.com

OS OLHOS DE LUÍSA

Era uma sexta-feira cinzenta, da cor do pó que eu sacudia do meu espírito. Meu coração ainda estava encolhido, com medo de ser atingido em sua pele fina, que ainda sangrava.

     Foi quando surgiu a Beatriz. O corpo, o cabelo, a pele, os olhos negros, misteriosos, de um brilho de lua, o sorriso que diz “você está perdido” – tudo me lembrava a outra, aquela cujo nome eu não deveria dizer aqui, agora que não trago comigo o roteiro dos melhores caminhos do paraíso infernal pelos quais ela me levava, puxando-me pela mão. Mas vou dizer: Ana Lúcia.

     Pra mim, essa Beatriz era a Ana Lúcia. Sabia que não era. Mas quis que fosse. E eu já estava na quarta dose. Como vi que era puta, pensei: vou tratá-la como se fosse uma princesa.

     – Aceita um drinque?

     – Obrigada, respondeu, e veio rebolando. Uma bela bunda. Sentou-se.

     – Primeira pergunta: seu nome?

     – Beatriz.

     – Ah…

     – Que cara é essa, não gostou do meu nome?

     – Não, é que… Bem, só faltava você se chamar… Deixa pra lá.

     Não sei quanto tempo e quantas doses depois deixamos o bar e fomos para o meu apartamento.

     Depois do sexo, ela, deitada e olhos no teto, tetas ainda úmidas dos meus lábios, indagou:

     – Há quanto tempo está sozinho?

     – Há mais ou menos um século, desde que a… desde que uma pessoa  me deixou, há um mês.

     – Foi bom transar comigo?

     – Você é um espetáculo na cama, tanto quanto ela.

     – Então esquece ela e fica comigo.

     – Nunca!

     – Por quê?

     – Ora, que pergunta!

     – Ah, desculpe; esqueci que sou puta… – ironizou.

     – Chega, Beatriz! – gritei, às duas da manhã.

     – Sabe por que sou puta?

     – Ahn…

     – Porque fui tratada como puta pelo único homem que eu amei.

     – Mentira!

     – Verdade! Ele me enfiava aquela coisa às pressas, duas vezes por semana, e no fim do mês me passava a metade do seu salário. Eu queria um toque, uma palavra, uma pausa para olharmos juntos a mesma paisagem. Mas ele só queria financiar duas trepadas semanais. Hoje ganho mais e ainda saio com homens como você. E não adianta bancar o durão. Você é doce. Doce até quando me enfia esses olhos perfurantes…

     – “Perfurantes!…” Você não pode beber – eu respondi numa risada um pouco ríspida.

     – Perfurantes, sim. Cadê meu coração, onde você o escondeu?

     – Não quero saber de seu coração, quero saber de sua… você sabe.

     – Você pagou por ela e levou de graça o coração.

     – Uma puta inspiradíssima… 

     – Não me chame mais de puta – berrou ela, às duas e pouco da manhã, no meu apartamento de terceiro andar.

     – Escute aqui, Beatriz, ou seja qual for o seu nome, eu disse, fuzilando-a com olhos que eu pretendia raivosos: você é puta, e eu só trouxe você aqui porque você é puta.

     – Idiota! Esqueça essa Ana Lúcia!

     Saltei da cama e me pus de pé, com a destreza de um gato, que eu conservava com barriga e tudo, aos quarenta e cinco.

     – Como você sabe o nome dela?!

     – Sou vizinha dela, idiota!

     – Então você…

     – Não, só sei onde ela mora e o nome.

     – Então você também mora no Caiçara?

     – Moro.

     – E não é puta…

     – Não sou.

     – Mas…

     – A parte do meu casamento é verdade. O sacana só queria dar uma de vez em quando. Separamos. Também eu nunca o amei como tinha dito. Moro sozinha, como você. Sei que pareço com sua ex-namorada. Ela nunca me viu, pois moro lá há pouco tempo.

     – Mas…

     – Segui você de táxi. Faz um mês que você não sai…

     – E como sabe que não saio há um mês, se eu moro aqui em Santa Teresa?

     – Sei muito mais de você do que imagina, Rogério…

     – E sabe meu nome! Você me assusta… Quem é você, afinal?

     – Calma, Rogério.

     – E você não trabalha, não faz nada?

     – Trabalho em casa. Sou taróloga.

     Nesse ponto eu não pude reprimir uma amarga risada.

     – Ria, se quiser. Mas não sou nenhuma ignorante, já fiz três cursos universitários, o último deles, Filosofia.

     – Não brinca…

     – Depois da Filosofia, senti um buraco se abrindo em meu espírito, e esse buraco…

     – Não quero saber desse tipo de buraco…

     – Espera: depois a gente desce ao seu nível, que às vezes também é interessante. Por enquanto, escuta. Depois da Filosofia, o buraco se abriu e eu caí nele. No fundo desse buraco uma luz se acendeu e esclareceu meu patético coração. Durante um tempo, flutuei sobre meu próprio mundo e também sobre o mundo das outras pessoas.

     – Flutuou, bisbilhotando filosoficamente…

     – Não é nada disso…

     – Chega, Beatriz!

     – Você tem razão. Bebeu demais hoje. É bobagem eu falar sério.

     – Isso mesmo. Agora me diga: Quem é você, afinal, seu nome verdadeiro, de onde me conhece…

     – Tem certeza de que nunca tinha me visto, Rogério?

     – Tenho.

     – Posso dormir aqui esta noite?

     – Pode. Mas qual é o seu nome?

     – Depois eu digo.

     Ela se levantou, escolheu um CD e colocou para tocar. Foi ao banheiro, e eu não vi quando voltou. A música muito suave me fez adormecer.

     Quando acordei, por volta das oito, senti cheiro de café. Minha cabeça doía intensamente. Ergui-me lento e fui ao banheiro. Tomei uma ducha, procurei um comprimido que engoli a seco e fui me vestir. Logo depois, à mesa, estava ela, cabelos úmidos, penteados, perfumada, sorridente. Me aguardava. Como se parecia com Ana Lúcia!

     Mas foi aí então que eu vi bem. “Meus Deus!” – exclamei.

     – O que foi? – ela indagou, com os olhos muito abertos.

     – Você, Luísa?!

     – Eu mesma. Senta aqui, que eu te conto tudo.

     Luísa mudara tanto depois dos doze anos! Meu primeiro amor, que eu deixei na adolescência, em São Gonçalo, para procurá-lo mais tarde em mulheres como Ana Lúcia. E ela, Luísa, sempre a me acompanhar, de longe, confiante no poder do destino.

     Abriu a bolsa e dela retirou um maço de cartas. Embaralhou e pediu que eu cortasse três vezes.

     Hoje somos marido e mulher.

     Compreendi afinal por que a vida toda eu só havia gostado de mulheres com aquele tipo de olhos – os olhos de Luísa, que me haviam prendido para sempre. Uns olhos negros, misteriosos, de um brilho de lua…

(Conto publicado no meu livro A ALJAVA DE CUPIDO)

Aguarde meu próximo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, a ser lançado em breve pela Páginas Editra.

FINALMENTE, A CAPA!

   Num contexto histórico delicado da vida do País, um homem valente e visionário encontra o amor e a guerra na fictícia Vale Manso.

   O inusitado, o pitoresco e o imponderável temperam as peripécias do protagonista, que vê sua vida e as de outras tantas personagens transformadas inexoravelmente.

   O amor o arrebata; a luta o convoca.

Aqui está a capa do meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, a ser lançado em breve pela Páginas Editora. Aguardem data e local de lançamento!

O COFRE DAS DOCES ILUSÕES

Ele a conhecera havia poucas semanas. Mas estava agora com ela ali, às margens do Sena, observando as águas que rolavam serenas naquela manhã de maio. Paris o surpreendera, pois estava muito mais deslumbrante do que ele havia imaginado. Mas tudo estava mais deslumbrante do que de costume. O amor torna tudo muito mais deslumbrante do que de costume, pensava ele, naquele momento em que só o perfume dela e o pulsar de sua respiração eram suficientes para preencher a vida dele, preencher o mundo. O silêncio que se fazia agora devia ser em homenagem ao amor. Abraçados, eles olhavam para a mesma direção, mas talvez nem fosse necessária tanta beleza, talvez nem se precisasse de Paris.

Caminhavam agora pela Champs-Élysées e estranhavam a quase ausência de carros, a quase ausência de transeuntes, numa manhã tão luminosa como aquela. Estariam mesmo em Paris? Ou era o amor que transformava qualquer São José de Alguma Coisa em Paris? Não: era Paris!

O dia passou e eles mal se deram conta disso. Estiveram em tantos lugares e, no entanto, para ele, que sempre sonhara em visitar Paris, todos os lugares e todas as paisagens ficaram em segundo plano. Estava com ela, e teria sido maravilhoso mesmo em São José de Alguma Coisa.

Ao anoitecer, entram num café e ele pediu “une bouteille de vin, s’il vous plaît”. Permaneceram ali por horas, e ele pôde dizer a ela tudo que vinha sonhando dizer nos últimos dias, ainda em Belo Horizonte. E pôde ouvir dela tudo que desejava e que seu habitual pessimismo sempre insinuava ser impossível. Linda e jovem, com aquele sorriso que o cativara desde o primeiro instante em que se conheceram, ela estava com ele ali, em plena Paris, intercalando cálidos beijos com as palavras que ele sonhara ouvir. Era difícil acreditar que não se tratava de um sonho.

Foram para o hotel, embalados pelo doce enlevo que só Cupido e Baco, juntos, são capazes de proporcionar.  Amaram-se com plenitude. A plenitude no amor, dizia ele consigo mesmo, só é possível assim, quando ainda não se teve tempo para magoar ou ser magoado.

De manhã, ele acordou ainda fruindo, em pensamento, as delícias da noite de amor. Nem queria abrir os olhos. Abria-os um pouco e voltava a fechá-los. Não, não queria admitir que tudo fora apenas um sonho, o mais doce sonho que tivera em sua vida recheada de tão longos períodos de solidão. Estava em Paris, ora essa! Com grande esforço, adquiriu coragem e, de olhos ainda fechados, estendeu o braço para verificar se ela dormia ao seu lado, ali naquela cama, naquele hotel de Paris. Não, ela não dormia ao seu lado; não, não estava num hotel; não, não estava em Paris. Estava em seu pequeno apartamento em Belo Horizonte, que parecia mais frio e triste do que de costume.

Ergueu-se e foi se olhar no espelho. Achou-se mais velho ainda. E ela sendo tão jovem e linda! Mas não se revoltou, nem admitiu que uma gota sequer de amargura maculasse seu espírito. Ao contrário, sorriu e agradeceu a Deus pelo sonho. Acariciou-o ternamente, como havia feito com ela em Paris. E o guardou no cofre das doces ilusões – aquele cantinho especial que nós, que não desistimos do amor, reservamos no coração.

(Do meu livro A aljava de Cupido, publicado em 2016)

Foto por Dimitri Kuliuk em Pexels.com

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguarde!

A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

Um dos livros mais interessantes de João Guimarães Rosa, principalmente para quem deseja iniciar a leitura de suas obras, é SAGARANA. E trago hoje aqui um trecho do famoso conto A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA:

Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do Coronel Afonsão Estêves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.

Procissão entrou, reza acabou. E o leilão andou depressa e se extinguiu, sem graça, porque a gente direita foi saindo embora, quase toda de uma vez.