Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de medo porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, – uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, – vida de agitação, de cóleras, de desespero e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele diálogo.
(Capítulo LIII de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS)
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Terra de arroz. Tendo ali vestígios de pré-idade? A menina, mão na boca, manhosos olhos de tinta clara, as pupilas bem pingadas. Só a tratavam de Dja ou Iaí, menininha, de babar em travesseiro. Sua presença não dominava 1/1000 do ambiente. De ser, se inventava: – voz menor que uma trova, os cabelos cacho, cacho.
(Primeiro parágrafo do conto TRESAVENTURA, do livro TUTAMÉIA, de Guimarães Rosa)
Aqui vai um trecho de Helena, de Machado de Assis.
Aquele dia foi marcado no calendário de Mendonça com letras de ouro e cetim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Ele viveu essas horas todas num estado de sonambulismo e êxtase. Tencionava referir tudo à mãe, logo que entrou em casa ao meio-dia; mas não se atreveu, porque ele mesmo não estava certo se vivia a realidade ou se voava nas asas de uma quimera. De noite voltou a Andaraí; achou em Helena o mesmo modo afetuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada; um meio-termo que o continha a ele próprio, e não era menos aprazível ao coração. A nova situação era, entretanto, sensível, porque os vigilantes de fora trocaram entre si olhares cheios de graves descobertas; um deles, o coronel-major, chegou a proferir uma alusão, que os interessados fingiram não perceber.
Assim começa o Capítulo XVII do romance Helena, de Machado de Assis.
E lembre-se: vem aí meu novo livro – AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora.
Mas agora Miguilim queria merecer paz dos passados, se rir seco sem razão. Ele bebia um pouco de velhice. (João Guimarães Rosa – Campo Geral, em Manuelzão e Miguilim)
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Vou postar aqui estes dias alguns textos desses dois gigantes da literatura brasileira: Machado de Assis e Guimarães Rosa. Os dois nasceram no mês de junho – Machado, no dia 21, e Rosa no dia 27.
Jantei triste. Não era a falta do relógio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscências de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão… Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do capítulo XXI, e então jantei depressa, para correr à casa de Virgília. Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar às opressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, no qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.
(Trecho do capítulo LXI de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS)
A bela Melissa acabara de completar seus dezesseis anos. Viera privilegiar a cidade de Tiradentes com a presença de seus esvoaçantes cabelos e seu olhar curioso, enquanto seguia com seus pais pelas ruas de pedras. Para eles, ela era ainda a menininha que outro dia mesmo, do alto de seus dois aninhos, invadia a penumbra do quarto do casal para pedir: posso dormir aqui com vocês? Contudo, era já de mulher aquele corpo que agora se ajustava tão bem dentro do leve vestido de verão. E eram também de mulher o coração, os pensamentos e os suspiros sufocados.
Sentaram-se num banco da praça. Os pais observavam plácidos o vaivém das pessoas, enquanto os olhos de Melissa passeavam inquietos, ávidos por devorar o que pudesse haver de novidade. Era o segundo e último dia de visita à cidade, mas os olhos da menina ainda estavam famintos.
Ergueu-se do banco e caminhou rumo a algo que lhe despertara o interesse.
Aonde você vai, menina? – ouviu o pai dizer para a menina que ela já não era. Vou ali e já volto, pai! – respondeu a mulher de dezesseis anos dentro do vestido de verão. E seguiu resoluta.
Não hesitou em se aproximar do tipo descabelado e de vestes rotas que manipulava pincéis e tintas. Vários quadros estavam expostos ali, ao ar livre, e Melissa os examinava atenta.
O pintor parou para observá-la. Num primeiro momento sentiu-se lisonjeado ao perceber nos olhos dela o prazer que sua pintura lhe proporcionava. Mas quando ela se voltou para ele, sorriu e disse parabéns!, o que ele sentiu permaneceu para sempre inefável. Era amor, e era amor para sempre, e ele sabia disso! Mas era indizível – foi ali, naquele instante fugaz, que ele descobriu que o amor é indizível. E a eternidade inteira coube naquele instante fugaz em que os olhos dele não conseguiram se desviar dos dela. E ela, os lábios trêmulos, os joelhos vacilantes, sentia-se perdida diante daquele olhar que parecia buscar por ela há séculos. Soube naquele instante que jamais esqueceria aqueles olhos.
– Po… posso pintar você? – gaguejou ele com um fiapo de voz.
– Eu adoraria! – ela respondeu, e o sorriso dela o arrebatou de novo.
– Então se sente aqui – propôs ele, puxando para perto dela um banquinho. – Como se chama?
– Melissa.
Iniciou seu trabalho tentando retratar os olhos de Melissa – aqueles que ele jamais esqueceria. As mãos dele ainda tremiam, e os joelhos de Melissa também.
De súbito o pai surgiu e pegou Melissa pelo braço. Arrastou, com certa rudeza, a sua menininha, mas quem ia com ele, tentando resistir e sacudida por soluços, era uma mulher apaixonada de dezesseis anos. Ela ainda se virou para ver o pintor, cujo nome nem teve tempo de perguntar. Mas ele tinha os olhos ocultos, a cabeça inclinada sobre o braço apoiado nos joelhos. Parecia chorar. Desgrenhado, maltrapilho; envergonhado, humilhado. Impotente. Pintara os olhos – somente os olhos – de Melissa.
Seu Jeremias, pai da moça, ignorando os protestos da esposa, empurrou a filha para dentro do carro e partiram sem demora de volta para Belo Horizonte.
Alguns anos depois, Melissa esteve de novo em Tiradentes, mas não obteve nenhuma pista do paradeiro do pintor, que, segundo lhe disseram, estivera apenas de passagem por lá.
Após namorar vários rapazes, os trinta anos de Melissa chegaram e ela se casou.
– Pode não ser uma grande paixão, Michele, mas o Rodrigo é um cara legal, tem uma boa carreira, é sério, confiável…
– E o amor, Melissa, onde fica?
– Não sei onde fica. Pensei que tivesse ficado em Tiradentes, muito tempo atrás, mas sumiu de lá!
Aos quarenta anos veio o divórcio. Mas a Michele não tinha mais contato com ela. Agora desabafava com a Débora, entre um chope e outro, depois do trabalho. E volta e meia se lembrava do pintor maltrapilho que conhecera em Tiradentes.
– Vinte e quatro anos depois e você ainda não tirou esse cara da cabeça, Melissa! Que loucura.
– Não sei, mas algo me diz que ele também, onde quer que esteja, ainda pensa em mim.
– Tudo é possível, né, amiga… Olha, tô indo a São Paulo na próxima semana. Vem comigo? Vou te apresentar meu primo. Divorciado também. Garanto que vai rolar alguma coisa.
– Rola nada, Débora. Relacionamento agora só se for na próxima encarnação. Mas eu topo ir com você. É bom mudar de ares.
Foram. Na manhã seguinte, antes de irem passear no Ibirapuera, Débora ligou para o tal primo, Rodolfo. Combinaram encontro no parque.
As duas acabavam de se sentar para tomar sorvete, quando surgiu à frente delas um sujeito todo engomadinho, de óculos, bigode, meio calvo e com toda pinta de executivo.
– Oi prima, quanto temp… Epa! Essa moça não me é estranha! Não, eu jamais esqueceria esses olhos!
Abriu a pasta e de dentro dela retirou um retrato – ou melhor, o esboço de uns olhos, feito havia décadas, numa cidade mineira chamada Tiradentes.
Ela também reconheceu de pronto os olhos do pintor descabelado e maltrapilho de Tiradentes, escondidos por trás dos óculos do agora executivo paulistano.
Débora, que soubera da história pelo próprio primo, deixou-os aos beijos e abraços no parque e se foi, com a certeza da missão cumprida.
Agora Melissa tem setenta anos, e Rodolfo passou dos oitenta. Ela ainda tem os mesmos doces olhos, e ele ainda os pinta. Eles se amam. É simples.
Foto por u0412u043bu0430u0434u0438u043cu0438u0440 u0412u0430u0441u0438u043bu044cu0435u0432 em Pexels.com
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Às onze e pouco da noite, suspirou pela última vez e partiu.
Na sexta-feira à tarde, procedeu-se ao enterro. Cumpriram o seu desejo de ser enterrado na cova que ele mesmo abrira. Porém, deram-lhe o direito a um caixão, que encomendaram direto de Santa Amália. Na funerária de Vale Manso não havia nenhum cujas dimensões fossem adequadas ao pequeno corpo de sô Juquinha, e queriam retirá-lo do postinho o mais cedo possível. Levaram-no para a fazenda de sô Janjão sem fazer muito alarde, evitando que uma multidão comparecesse à cerimônia fúnebre – o que estaria em desacordo com a vontade do morto.
Compareceram somente os amigos mais chegados, além do padre Antero – a quem sô Janjão achou por bem avisar – e o andarilho e filósofo Asdrúbal Campobello. Este, por acaso, perambulava pelas imediações da fazenda quando chegaram com o defunto. Quando o caixão desceu à cova, ele, mão no queixo, pensativo, o olhar distante, deixou escapar com voz soturna: Não se enganem: não se enterram pessoas, enterram-se casulos.
Caixão deposto no fundo da cova. Terra jogada por cima. Flores. Soluços. Singela oração do padre. Fisionomias consternadas. Silêncio na caminhada de volta. Enterrou-se a casca de sô Juquinha.
O poema acima é apenas uma pequena amostra do que vai deliciar você quando ler o livro A CASA DOS POETAS MINERAIS, de Leida Reis. Acho até que meus comentários são dispensáveis. Apenas peça o seu exemplar e leia!
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“Ele chegou à capital em agosto daquele turvo ano de 1979. Aos 16 anos incompletos, trouxera pouca bagagem e muitos sonhos. Os miliares estavam no poder, mas isso não o intimidava, menos por valentia e mais por ingenuidade. Pouco sabia do obscurantismo que um regime dessa natureza é capaz de produzir. Do lugar de onde viera, não se falava sobre o assunto. Portanto, seguirá por caminhos diversos (…)”
Assim começa a narrativa de Noites Pretas, de Jalmelice Luz. Porém, caro leitor, à medida que você for avançando na leitura, não vai mais conseguir parar enquanto não chegar à última linha dessa tocante história de Charlie – um jovem que ousou ser maior que si mesmo, rompeu barreiras, abraçou um mundo incerto com a determinação de quem não aceita morder a vida pela metade.
(O livro foi publicado pela Páginas Editora. Peça lá o seu!)
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