Nunca cheguei a nenhuma conclusão acerca do tema. Aliás, não tenho religião, embora também não seja ateu. Costumo embasar minhas crenças em deduções que considero lógicas. Acerca da existência de Deus, por exemplo. Observando a própria vida e a existência das coisas, considero impossível e até absurda a ideia da não existência de uma Inteligência Universal que atua e vibra no âmago de tudo que existe.
Essa Inteligência Universal, pra mim, é Deus. Portanto, Deus necessariamente existe. Se Deus, necessariamente, existe, é preciso também que exista uma justiça divina. Ora, mas então como explicar tantas injustiças, tantos seres humanos que passam a vida humilhados, violentados em sua dignidade etc., ao final morrem, e fica tudo por isso mesmo!
Bem, se estou convicto de que Deus necessariamente existe (como essência última e primordial no âmago de todas as coisas) e de que sua justiça também precisa necessariamente existir (do contrário, que Deus seria esse?), logo só posso concluir que uma sucessão de vidas também precisa existir.
E minha preocupação principal nem é com a necessária justiça divina; é com o processo evolutivo do ser humano. Para evoluir, os espíritos precisam, talvez, de algumas tantas existências terrenas.
Que fique claro, contudo, que esse tipo de visão não deve servir de pretexto para a naturalização das injustiças sociais. Evoluir significa também tomar consciência e combater toda espécie de mal engendrado pelos modelos socioeconômicos perversos.
Parece que sou espírita? Não, não sou; apenas não gosto de fechar questões. Não seinada, mas desconfio de muita coisa, como diria o nosso insuperável Guimarães Rosa.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
“Eu gosto de admirar Deus, e é assim que aproveito a vida, é assim que me sinto feliz. Observar Deus: eis minha diversão predileta. Mesmo quando eu observava vocês, ali de minha mesa, eu de certa forma observava Deus. Nada pode estar fora de Deus. Mas há maneiras mais agradáveis de observar Deus do que acompanhando de longe o bate-papo de três idiotas como vocês, claro. Por exemplo: quando alguém vê uma flor e fica feliz ao presenciar sua beleza, essa pessoa está observando Deus. E não é a flor que fez a pessoa se sentir feliz, é a própria pessoa que se fez feliz ao ver a flor. Poderia ser uma pedra, e a pessoa se sentiria feliz também – pela sua capacidade de observar Deus (na flor, na pedra, na montanha, na superfície do mar, no canto do pássaro…). Aliás, nada que vem de fora é capaz de nos fazer feliz, a felicidade vem de dentro de nós ou não vem de lugar nenhum. Deus está em tudo, inclusive dentro de todos nós, mas se não nos conectamos com ele… É uma questão de estar consciente. A consciência é a chave… Bem, acho que talvez eu não esteja mais falando coisa com coisa, daqui a pouco começo a misturar tudo. A solidão costuma deixar o sujeito tagarela.“
O texto acima é a fala de um dos personagens de meu próximo livro. Ele tem 90 anos, e, nessa cena, dialoga com três jovens.
Eu também gosto de observar Deus.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Já rabisquei linhas apressadas em momentos de inspiração urgente na Praça da Liberdade:
Andou com seu jeito meio encurvado desde a Rua Pernambuco até a Praça da Liberdade. Sentou-se num banco e voltou a percorrer mentalmente os labirintos do passado. Tateava sombras à procura dos seus demônios. Ele os temia, mas queria capturá-los.
Fechou os olhos e deixou que sua mente vagasse. Logo entrou no carro da memória, que o levou para 1959. Aquele canto de bairro, que não mais existe, agora magicamente o acolhia, ele menino, acabrunhado, olhando pela janela a chuva fina na rua, os outros meninos em festa, lá fora, atirando na cara dele sua alegria despreocupada, seus buliçosos folguedos.
Já comprei livros de poetas andarilhos na Praça da Liberdade, já vendi livros na Praça da Liberdade, já deixei livros na Praça da Liberdade, já ouvi conversa de maluco na Praça da Liberdade, já participei de manifestações na Praça da Liberdade.
Já amei na Praça da Liberdade…
Amo a Praça da Liberdade.
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Tudo indica que a AI (inteligência artificial) está apenas em seus estágios iniciais, e podemos esperar por parte dela proezas capazes de arrepiar até os cabelos da alma!
Há três pontos a considerar. Primeiro, precisamos reconhecer que os benefícios dessa tecnologia serão inquestionáveis. Ela será de grande valia na área da saúde, por exemplo, desde que governos realmente preocupados em melhorar as condições de vida da população possam se engajar, aportando recursos para tal intento. Outros tantos benefícios poderiam ser elencados aqui, mas talvez a lista seja longa demais.
O segundo ponto, como se pode facilmente imaginar, é o uso nocivo e potencialmente perigoso da AI. Vi hoje mesmo uma imagem da “prisão” de Donald Trump por um grupo de policiais. O realismo da cena é impressionante. Isso significa que será muito fácil criar fake news “fundamentadas” em imagens muito realistas criadas pela inteligência artificial, além de outras vilanias ainda piores.
Donald Trump é “preso” por policiais após ser perseguido na rua. (Eliot Higgins/Reprodução)
E o terceiro ponto: como fica o prazer do artista em criar? Sim, porque já se sabe que a inteligência artifical é capaz de criar obras de arte, romances, poesias… Não, aqui, no meu universo íntimo, a inteligência artifical não pode mandar! Protesto, excelência!
Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
Se Honoré de Balzac, nascido em 1799 e falecido em 1850, vivesse nos dias de hoje, provavelmente seu livro A mulher de trinta anos teria um título um pouco diferente. talvez A mulher de cinquenta anos ou mesmo, quem sabe, A mulher de sessenta…
No século 21, mulheres de trinta anos são meninas! mesmo as de quarenta são meninas, embora vez ou outra possamos nos deparar com atitudes lamentáveis como a daquelas estudantes cheirando a talco no bumbum zombando de uma colega de faculdade. Uma delas disse que a outra deveria se aposentar porque já tinha… 44 anos!
A verdade é que mudamos e vamos esticando cada vez mais o horizonte da longevidade, embora, não nos esqueçamos, grande parte da população mundial ainda não possa partilhar esse privilégio. Isso devido às desigualdades sociais e econômicas que continuam ditando quem pode e quem não pode viver mais e melhor.
No tempo de Balzac era mais complicado, até mesmo para a elite, viver mais tempo. O próprio autor de A Comédia Humana mal passou dos cinquenta anos de vida. Por isso, para ele e para os de sua época, a mulher de trinta anos era uma coroa…
Atenção, meninas de cinquenta ou sessenta: avante!
Durval Augusto Jr. é escritor, psicólogo e astrólogo e já publicou os seguintes livros:
Fenando Capeta Urubu (fábula), 1999, pela extinta Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte;
Almas Tontas (romance), 2006, pela Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte;
Sem Paredes (romance), 2011, pela Alfstudio Produções, Belo Horizonte;
A aljava de Cupido (contos), 2016, pela Scortecci Editora, São Paulo;
Quero matar o prefeito (contos), 2017, pela Scortecci Editora, São Paulo;
Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, pela Scortecci Editora, São Paulo;
Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, pela Páginas Editora, Belo Horizonte.
Ganhador do Prêmio Jabuti 2021, o livro O AVESSO DA PELE, de Jeferson Tenório, é leitura indispensável para aqueles que desejam olhar mais de perto a luta de quem tem pele escura num país como o Brasil.
A história é narrada por Pedro, filho de Henrique, um professor negro que precisa enfrentar todas as consequências advindas do encontro (e confronto) da cor de sua pele com as hostilidades diárias de uma sociedade branca.
O cenário é a branca Porto Alegre, e Pedro, enquanto narra, se dirige diretamente ao pai, resgatando sua história de lutas e colocando o leitor (especialmente o de pele clara) muito perto da realidade vivida pelos negros.
O estilo não tem nada de rebuscado, e nem poderia ter. O contato entre o leitor e a história narrada é “pele a pele”, como requer a temática do livro.
Recomendo.
Durval Augusto Jr. é escritor, psicólogo e astrólogo e já publicou os seguintes livros:
Fenando Capeta Urubu (fábula), 1999, pela extinta Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte;
Almas Tontas (romance), 2006, pela Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte;
Sem Paredes (romance), 2011, pela Alfstudio Produções, Belo Horizonte;
A aljava de Cupido (contos), 2016, pela Scortecci Editora, São Paulo;
Quero matar o prefeito (contos), 2017, pela Scortecci Editora, São Paulo;
Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, pela Scortecci Editora, São Paulo;
Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, pela Páginas Editora, Belo Horizonte.
Na última sexta-feira, 17 de março, fui recebido para um bate-papo na Rádio Santana 87,9 FM, da cidade mineira de Sete Lagoas, pelo comunicador Bené Quintão.
Destaque-se, de início, a grande facilidade com que Bené conduz suas conversas com os convidados, o que faz com que os temas fluam de modo tão espontâneo que, de minha parte, cheguei a me esquecer de que estava falando ao vivo ao microfone de uma emissora de rádio. Isso me permitiu discorrer não apenas sobre minha trajetória como escritor, mas acerca de temas muito variados, garantindo um encontro acima de tudo muito prazeroso.
Pude falar um pouco de todos os meus livros publicados até o momento e, particularmente, de Amor e guerra em Vale Manso, o mais recente, publicado pela Páginas Editora.
Agradeço muito ao Bené Quintão pelo convite e estendo meus agradecimentos à Rádio Santana 87,9 FM, de Sete Lagoas.
Deixo aqui o convite, aos interessados que não puderam acompanhar a entrevista, que a assistam em meu canal @Durval Augusto Jr. no YouTube ou no canal da própria emissora, também no YouTube.
Conheci Durval Augusto Jr. em 1999. Então editor de livros da Editora Jornal da Floresta, o recebi com a proposta de publicar seu primeiro livro “Fernando Capeta Urubu”, título com certeza inspirado no clássico “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach. O tempo passou e fui, de longe, acompanhando a trajetória literária desse autor, suas decepções, assim como seu crescimento com a literatura. Hoje recebo seu último livro “Amor e Guerra em Vale Manso”, o sétimo de uma carreira promissora, no qual observamos uma narrativa em que temas como política, crimes, paixão e até mesmo a religiosidade espiritual vão crescendo a cada página virada.
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No tempo dessa história, o país vive momentos confusos e pelo que se nota, em plena ditadura militar brasileira, nos tempos do polarizado ARENA e MDB. Gabriel, um homem simples, isolado pelos pais na sua infância e que sempre teve problemas com as mulheres na sua vida pessoal, sai em busca de suas próprias descobertas, pega a estrada, abandonando a cidade grande na qual sempre vivera, inclusive um amor conturbado que não deu certo, na imagem de Patrícia, que mais tarde infernalizaria sua vida e vai em busca de novos horizontes, arriscando tudo sem saber o que lhe vem pela frente. Em Vale Manso, cidadezinha interiorana de Minas Gerais e que o acolhe de braços abertos, conhece Matheus e sem saber o porquê, se envolve com esse personagem e se apaixona por Júlia, que gostava de amar no mato, insegura e confusa, que tem visões com seu avô já falecido, com ela se casando e constituindo família e filhos.
Ao longo da história, Gabriel vai simpatizando amigos e angariando inimigos, principalmente políticos, numa cidade na qual ainda impera o coronelismo, misturando sua vida amorosa com as pretensões econômicas e políticas daquele lugar e é nesse ambiente tenso e pesado que se constrói o romance. Pela trajetória passam personagens comuns e outros que nos chamam a atenção, tais como: Murilo, Ivan, Renato, Ricardo, Sô Janjão, Miguilim, Galdino, Kud Galinha, Sô Pedrim do Bar, Sô Haroldo, João Trovoada e Geraldo Toco, além do poeta andarilho Asdrúbal Campobello, da Dona Maria e sua tristeza infinita, e o misterioso Sô Juquinha, que realiza a cura de Dona Marlene e prevê que morreria numa quinta-feira. Ali desenvolve-se seu projeto — que coincidentemente passa pelo socialismo — de criar uma comunidade na qual todos se beneficiam sendo sócios do projeto e por isso recebe críticas do jornal Gazeta de Vale Manso, que tem como editor Pedro Paulo, irmão do ex-prefeito. Daí nasce a Vila Esperança, uma comunidade humana aos extremos. A revelação de Dona Marlene no leito de morte, que mudaria os rumos da história, a fuga insegura de Júlia e o reencontro dos dois em meio a um ambiente de amor e guerra.
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Segundo o autor, as primeiras versões da escrita do romance tiveram início ainda nos anos 1980, mas foi nos últimos dois anos que ele coletou os aspectos políticos para escrever seu livro. “Eu me lembrei da dicotomia entre MDB e ARENA dos anos 1960 e trouxe para a obra, porque hoje vivemos isso. Quando o personagem cria uma comunidade com valores diferentes ele vai se opor aos donos do poder”, afirma o escritor. E com certeza, há sim uma aparente coincidência com a nossa realidade atual, na qual dois políticos se enfrentaram neste final de 2022. Em meio a uma ameaça à democracia, observamos um ex-presidente acusado de corromper o país e que teve um julgamento parcial e por isso sua prisão legalmente anulada, mas que tem uma política voltada para os mais humildes, eleito novamente numa eleição segura e esse mesmo candidato eleito sendo chamado de comunista, enquanto o que anteriormente sentara na cadeira do poder, nutre simpatias pela ditadura e a tortura, a não educação e a não cultura, e é agraciado como herói nacional por conservadores fanáticos e até religiosos, em nome de Deus.
Comparável a Roberto Drummond e Oswaldo França Júnior em qualidade literária, não em estilo, pois cada um tem seu próprio estilo, o autor em “Amor e Guerra em Vale Manso” usa de uma escrita simples, sem ser popularesca, e envolve o leitor da primeira à última página e pode ser, caso seja do interesse de sua editora, forte concorrente ao Prêmio Jabuti 2023. “Amor e Guerra em Vale Manso” sai pela Páginas Editora, que vem publicando autores consagrados, a exemplo de Milton Hatoum com o livro “Sete Crônicas”, assim como também novos autores em busca de um lugar ao sol. A Páginas Editora foi criada pela jornalista e escritora Leida Reis, inspirada no seu amor pelos livros e pela crença na realização dos sonhos, e se abre para novos horizontes literários.
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Durval Augusto de Souza Junior nasceu numa família pobre e passou a infância no Bairro Sion, em Belo Horizonte, bem próximo ao Morro do Papagaio. Menino solitário e quieto, muito cedo cultivou o hábito de ficar a sós com seus fantasmas. Daí para a produção literária teria sido apenas um pulo, não fosse a necessidade de trabalhar e ajudar seus pais. Cursou Psicologia na PUC-MG e atuou como psicólogo clínico por onze anos na Saúde Pública. Foi então trabalhar como revisor de textos no Poder Judiciário, onde permaneceu até se aposentar em 2012. Mas a produção literária começou muito antes disso. Já nos anos 1980, começou a escrever os primeiros textos, que foi guardando. Em 1999 saiu o primeiro livro “Fernando Capeta Urubu”, que teve a segunda edição em 2011. Em 2006, veio a público o romance “Almas Tontas”, pela Editora Armazém de Ideias. Em 2011, publicou o romance “Sem Paredes”, pela Alfstudio Produções. Em 2016, saiu o seu primeiro livro de contos, “A Aljava de Cupido”, pela Scortecci Editora. Em 2017, veio à tona a segunda coletânea de contos, “Quero Matar o Prefeito”, também pela Scortecci. Ainda pela Scortecci sai em 2020 o livro de astrologia “Desvendando a Linguagem dos Astros — o ABC para entender e interpretar mapas astrais”.
“Amor e Guerra em Vale Manso” é um dos possíveis clássicos da nossa contemporânea literatura brasileira, para crítico nenhum botar defeito. Livro que merece ser lido em conta gotas, desvendando as sensações humanas de cada personagem que encontramos em suas páginas.
O volume vem com capa de Ingrid Lacerda e o prefácio é da escritora e jornalista Jalmelice Luz. “Amor e Guerra em Vale Manso” está disponível no site www.paginaseditora.com.br, nos sites da Amazon, da Magalu ou diretamente com o autor pelo WhatsApp (31) 99316-9712 e pelo e-mail: durvalescritor@gmail.com.
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. * Rogério Salgado é poeta com 48 anos de carreira e é autor de entre outros, “Naqueles Tempos da Arte Quintal”, “Volúvel Fado” e “Agnus”.
Minha experiência como autor de textos em prosa vem, ao longo dos anos, consolidando em mim a convicção de que não sou o narrador. Isso ficou patente durante o processo de criação de meu recente romance, Amor e guerra em Vale Manso.
O leitor pode ter a impressão de que quem conta toda a história é o escritor. Bem, é verdade que o escritor dá o pontapé inicial, mas, a partir daí, “alguém” acaba assumindo o comando. Pelo menos é isso o que ocorre comigo — não posso falar pelos escritores em geral. O fato é que me surge uma ideia, quase sempre um tanto vaga, eu abro o computador e começo a digitar algumas linhas para ver no que vai dar. Um embrião vai se formando. Eu me distraio e já não sou eu quem conta a história. Um narrador “estranho” se intromete. Estranho entre aspas, pois sei que ele também mora em mim. Mora em mim como todas as personagens, pois acredito que a humanidade inteira mora em cada célula de todos nós. Mas esse narrador que se intromete impõe personagens e eventos alheios a minha vontade consciente.
Foi assim que, em Amor e guerra em Vale Manso, o protagonista Gabriel foi se envolvendo em peripécias fora de meu controle; personagens e situações insólitas se apresentaram, e o narrador “estranho”, sem cerimônia, assumiu o comando da narrativa.
Asdrúbal Campobello, por exemplo, um filósofo de rua, desses bem malucos, foi introduzido na história (Não se enterram pessoas, enterram-se casulos é uma de suas célebres frases); sô Juquinha, um curandeiro e vidente pra lá de esquisito, teve papel importante em vários momentos; Júlia, a moça que adorava amar no mato, embora já tendo participação previamente garantida por mim na história, trouxe para a trama elementos que eu não previa e que foram decisivos para o incremento da narrativa.
Aliás, agora me pergunto: até que ponto esse narrador estranho tem essa autonomia que a ele venho atribuindo? Talvez mesmo ele se veja enleado pelas demandas das personagens que reivindicam participação na história. Mas, se isso ocorre, o problema é dele. Quanto a mim, fico feliz quando ele está em atividade, pois é assim que a narrativa flui. Quando me sinto travado em minha escrita, já sei: fui abandonado pelo narrador estranho. O processo criativo fica truncado. É o escritor tentando fazer ficção sem a presença do narrador.
Da primeira versão de Amor e guerra em Vale Manso, escrita nos anos 1980, não restou quase nada; mudaram-se os cenários, mudou-se a maioria das personagens, a linha mestra da trama e, consequentemente, o título. Hoje sei que o narrador era outro, e é claro que ele era outro porque eu era outro. Se hoje não sou o mesmo, necessito de outro narrador “estranho” que mora em mim; se sou outro, suscito outras personagens que também moram em mim; pelo mesmo motivo, outras demandas são impostas e precisam fazer parte da narrativa. E eu não dispenso as artimanhas do narrador estranho.
AMOR E GUERRA EMM VALE MANSO pode ser adquirido diretamente com o autor pelo WhatsApp (31) 99316-9712 ou no site da paginaseditora.com.br ou, ainda, nos sites da Amazon e Magalu.
O livro Amor e Guerra em Vale Manso é surpreendente porque é carregado de entrecruzamentos de várias histórias que germinam outros acontecimentos e levam a desfechos inesperados. Um encadeamento de episódios e relações, muitas vezes subvertendo espaço e tempo, premonitórios, reflexivos. Um espesso cenário em que se desenvolve a saga com maestria. Os detalhes, descrições, indícios e indicativos que o narrador apresenta transportam o leitor para um período recente da história da política brasileira, com os cacoetes e práticas de coronelismo.
O autor Durval Augusto Jr. desenvolve uma narrativa instigante e provocativa para os espíritos dados a interrogar as razões e consequências das contradições e desejos humanos. Ao iniciar o texto com ênfase no estranhamento do protagonista Gabriel em relação ao mundo em que vive, abre portas para o pensamento do sujeito descentrado, como analisam textos seminais da filosofia, quanto ao sentimento de ser um eterno estrangeiro em um mundo em constante mudança.
O protagonista se desloca do centro urbano, Belo Horizonte, para uma pequena cidade do interior mineiro à procura de motivos — título da bela obra À procura de motivos do escritor mineiro Oswaldo França Júnior (1936-1989), que guarda alguma semelhança com essa história — que instalassem paz interior, até então, inalcançável. Ou que desenvolvessem nele o encantamento pela vida, a ânsia de colocar a criatividade em um projeto comum que teria o condão de transformar a vida das pessoas que conhecera naquele recanto.
A história romanceada revela em sua estrutura o desenrolar de uma trama com diversas camadas, onde a multiplicidade de personagens transita – protagonistas e coadjuvantes –, redesenhando as dificuldades de estar no mundo. Gabriel, personagem central, coloca-se como um estrangeiro tanto na cidade onde nasceu e foi criado quanto no campo, no aparentemente bucólico ambiente rural. O passado que carregava eram as pontadas que lhe impingiam na alma uma dor da qual teria de se livrar. E teria de ser em Vale Manso.
Pode-se identificar a ideia de descentramento do sujeito moderno, individualizado, de que trata o filósofo Michel Foucault na obra A Arqueologia do Saber. De acordo com estudiosos, esse estado de não pertencimento seria gerado ou tornar-se-ia a manifestação de uma crise cultural que indaga qual o papel social do sujeito e a noção de identidade moderna. Para o autor o menino Gabriel fora jogado bruscamente na luta pela vida com armas cujas balas eram de festim, enquanto as que o mundo lhe disparava eram de verdade.
A obra Amor e Guerra em Vale Manso coloca Gabriel em cenários distintos, conflituosos e contraditórios. A tarefa dele é buscar o amor, o pertencimento, a realização pessoal. Mas depara-se com a guerra interna e as reais que teria de vencer. As perdas sofridas, a morte que a guerra traz, também, o transformam. Esses episódios são representados por personas diversas no texto: ganância, o desejo do poder pelo poder, a vaidade, a insolência e a vingança. Assim como a simplicidade, a ingenuidade e a sabedoria do homem comum com suas crenças, misticismo e religiosidade. A narrativa apresenta ao leitor inúmeras facetas do ser humano em situações sociais diversas e adversas que permitem, creio, interpretar a condição humana.
Observa-se em Amor e Guerra em Vale Manso a narrativa que transpassa tempo e espaços diferentes, em época recente, em que a velocidade e a construção do viver são marcadas por profundas diferenças. O rebuliço e a exigência dos tempos modernos com a mecanização — na contemporaneidade o domínio da cibernética, os usos e controle de espaços digitais — e a leveza do campo onde o relógio parece registrar horas mais prolongadas. O calendário, a passagem lenta do tempo.
A simplicidade e certa dose de ingenuidade encontrada em Mateus de dona Marlene. Gabriel é tomado por sentimentos difusos, nobres, talvez, que suscitam a lembrança do mito de Pigmaleão narrado pelo poeta romano Ovídio, antes da era cristã. O protagonista, assim como o mito, se dedicaria a transformar a aparência e os conhecimentos de Mateus, que identificara como incauto, pouco letrado, em um homem de sapiência e boa aparência. Boca cheia de dentes, vestimentas ao estilo das grandes cidades. Não demora muito para perceber que teria mais a aprender do que a ensinar. Ele encontrou em Mateus um assemelhado, um estrangeiro, a quem deveria prestar socorro.
Gabriel tem guarida para seus sonhos, amor e sofrimento nos braços de Júlia e muitas lutas para travar. Somos – refletia ele – todos oriundos da mesma matéria, viemos todos do mesmo barro. Mateus lhe inspirava um estranho sentimento de dever para com ele. Contudo, entende que no mundo dos homens, a perfeição sempre será perseguida e jamais alcançada.
A obra, escrita numa linguagem corriqueira de mulheres e homens do campo, afeitos ao trabalho na terra, sem instrução, quase miseráveis, é recheada de reflexões diante das limitações vivenciadas pelos personagens no século XX e que perpetuam nos tempos turbulentos e quase desumanos em que vivemos.
Talvez a constatação de que viajantes somos todos, às vezes em naus sem rumo, tenha despertado no protagonista a consciência, a empatia, em relação ao outro. Ele, junto com os moradores despossuídos, constrói uma comunidade produtiva que é repudiada por detentores do poder e que lhe rende a pecha de “comuna”, sendo alvo dos ataques dos donos do poder.
A obra de Durval Augusto Jr. faz-me entender também que os semelhantes juntos podem produzir mudanças profundas que marcam décadas, séculos, quem sabe a trajetória da humanidade.
Não se trata de uma simples história bem escrita, mas um conjunto de reflexões elaboradas com esmero que o autor compartilha com o leitor.
*Jalmelice Luz
Jornalista e escritora
O livro AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, publicado em novembro de 2022, pode ser adquirido com o próprio autor pelo WhatsApp (31) 99316-9712, ou pelo site da editora: paginaseditora.com.br, ou ainda na Amazon ou na Magalu.