(Décimo conto de BRASA TEIMOSA)
(Renato estacionou seu carro em frente à casinha de telhado baixo. Desceu, aproximou-se do portão e bateu palmas. Ouviu a voz calma de sô Janjão, vinda do quintal. Bramava com o Antônio Carlos. Até quando bramava com os bichos sô Janjão era calmo.
Pôs a cabecinha branca e os olhinhos curiosos por sobre o portão. Franziu o semblante ao ver o moço bem-vestido que o aguardava. Adivinhou o motivo da visita. Abriu o portão e convidou Renato a entrar.
Este, com seu jeito impaciente, acompanhou sô Janjão e entrou na pequena sala. Apresentando-se, sentou-se num tamborete. Mas Antônio Carlos forcejava com o focinho a porta da cozinha. Sô Janjão deixou Renato na sala e foi se entender com o porquinho. Resolvido o caso com uma cuia de farelo, voltou a se ocupar do visitante.
– Sô Janjão, então o seu porquinho se chama Antônio Carlos?
– Sim. Trata-se de uma homenagem a um de meus amigos que já morreram.
Sô Janjão vivia sozinho desde que dona Jussara, sua mulher, morrera.
– Não tivemos filhos. Quando enviuvei, fiquei sozinho. Meus amigos aos poucos foram desaparecendo, uns mortos, outros tomando rumos ignorados. É a vida. Por isso meus bichos têm nomes de pessoas – as pessoas que me foram caras.
Agora era Jussara que adentrava a sala sem cerimônia. Inclinou a cabecinha curiosa para observar o visitante. Volta aqui, Jussara! Já te disse para não entrar em casa! E sô Janjão pegou a marreca, disse-lhe palavras carinhosas, acariciou-lhe o dorso e foi levá-la para o quintal. Lá estavam Antônio Carlos, Joaquinzão – que era o galo – e outros personagens do passado do velho.
– Jussara era minha mulher. Eu sempre achei que ela se parecia com uma marreca. Até no jeito de andar. Amei Jussara como jamais amaria alguém nesta vida.)
Estes são os primeiros parágrafos do conto COMO FICAR MILIONÁRIO EM SETE SEMANAS, o décimo de meu novo livro, BRASA TEIMOSA, que será lançado em breve.
