
Sabemos que a arte literária pode apresentar-se em duas formas distintas: em versos e em prosa. Aqui, no entanto, vamos nos limitar a tecer singelas considerações sobre a segunda dessas formas.
Um autor pode expressar-se em prosa por meio da crônica, do ensaio, do conto, do romance, da novela, da crítica, do teatro.
Diante dessas várias possibilidades de uso criativo da palavra em prosa, vamos nos ater a não mais que três: o conto, a novela e o romance.
Vamos começar classificando esses três tipos de obra do ponto de vista meramente formal. Podemos estabelecer paralelos, de um modo bem simplista, entre esses três gêneros de criação literária e três instrumentos musicais muito conhecidos e apreciados: o violino, a viola e o violoncelo. O conto está para o violino como a novela está para a viola e o romance para o violoncelo. Em outros termos, o conto é, do ponto de vista de sua extensão, uma obra literária curta; a novela, uma obra de média extensão, e o romance, uma obra longa.
É preciso desfazer alguns equívocos. Um conto, apesar do nome, não é simplesmente algo que se conta. O conto é, primeiro, uma ficção, uma mentira contada artisticamente pelo seu autor; necessita, por isso, ser estruturado com a observância de certos padrões, dentro dos quais, é verdade, o escritor tem o direito de inovar à vontade.
Não é meu objetivo aprofundar-me no assunto – não há espaço aqui, nem me sinto gabaritado para tal empreitada. No entanto, podemos afirmar que todo conto apresenta as seguintes características: curta extensão, como já foi dito – os meus contos, por exemplo, têm, em geral, entre duas e cinco páginas, mas há contos com dezenas e outros com apenas meia página; poucos personagens, muitas vezes apenas um; conflito único, que precisa ser solucionado ao final da história e que cria no leitor uma tensão crescente até o seu clímax. Muitas vezes o conto não chega a gerar uma tensão significativa, apenas leve expectativa no leitor, mas guarda para o final uma surpresa que lhe causa certo susto, ou pelo menos tem a pretensão de fazê-lo.
A novela literária, como já foi dito, é um texto de média extensão, quanto ao seu aspecto formal. Não se confunde, portanto, com as novelas televisivas. Não necessita possuir toda a intensidade dramática exigida pelo conto, nem número tão reduzido de personagens, nem conflito único. Também não pode conter todo o complexo emaranhado de tramas secundárias que muitas vezes se encontram num romance.
Não se deve também pretender esticar um conto para transformá-lo em novela, nem esticar uma novela para transformá-la em romance! Não estou dizendo que isso seja impossível, mas creio que, ao final, o autor que se aventurar por esse caminho perceberá que terá perdido tempo e talvez comprometido a autenticidade de sua história. Um romance não é uma novela esticada, e uma novela não é um conto esticado – assim como “um cavaquinho não é um violão que não cresceu”, como disse certa vez um personagem do saudoso Chico Anísio.
E o romance? Não, romance não é mera história de amor, como alguns – poucos, suponho – imaginam. Como já foi dito, romance é uma obra literária de longa extensão, geralmente com mais de cem páginas, podendo chegar a várias centenas, enquanto a novela possui entre cinquenta e cem. Essa classificação, obviamente, não é assim tão rígida. Também aqui não vou me atrever a considerações sobre as características que devem ser identificadas num bom romance.
Mas há romances que falam de amor? Sim! Um mesmo romance pode – e muito frequentemente o faz – abordar o importantíssimo tema dos relacionamentos entre as pessoas, intercalando-o, ou não, com outros temas. Aliás, dificilmente haverá um romance que não contenha elementos dessa natureza. Mas é muito desagradável quando você diz que está publicando um romance e um desavisado diz: eu não gosto de histórias de amor! Um romance pode apresentar como tema central um ou mais tipos de assuntos dentre uma gama deles: política, filosofia, casos policiais, guerra, ficção científica, suspense, episódios sobrenaturais, fantásticos etc., e também pode ter como tema central… o relacionamento afetivo! Por isso falamos de romance policial, romance de suspense, romance de ficção científica etc. Mas romance, repito, não é sinônimo de história de amor. Desculpe-me, amigo leitor, se insisto nisso, mas há, sim, algumas pessoas – e eu já me deparei com mais de uma – que ainda se confundem a esse respeito.
A confusão surge, creio, porque em Português, diferentemente do que ocorre em outras línguas, a palavra romance foi escolhida para designar uma obra literária de grande extensão. Em Espanhol, por exemplo, o que em Português chamamos romance é chamado de novela, a novela é chamada de novela corta, e o conto, cuento; em Inglês, o romance é chamado novel, a novela é chamada short-story, e o conto, tale. Acredito que o Português foi influenciado, nesse caso, pelo Francês, que denomina o romance de roman, a novela de nouvelle, e o conto de conte. Mas tudo isso são especulações. Não sou linguista.
* Aos que se interessam pelo instigante universo da criação literária, eu recomendo, dentre as inúmeras obras que tratam do assunto, os livros A criação literária – prosa, de Massaud Moisés, Ed. Cultrix, e Breve manual de estilo e romance, de Autran Dourado, Ed. UFMG.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.
