O COFRE DAS DOCES ILUSÕES

Ele a conhecera havia poucas semanas. Mas estava agora com ela ali, às margens do Sena, observando as águas que rolavam serenas naquela manhã de maio. Paris o surpreendera, pois estava muito mais deslumbrante do que ele havia imaginado. Mas tudo estava mais deslumbrante do que de costume. O amor torna tudo muito mais deslumbrante do que de costume, pensava ele, naquele momento em que só o perfume dela e o pulsar de sua respiração eram suficientes para preencher a vida dele, preencher o mundo. O silêncio que se fazia agora devia ser em homenagem ao amor. Abraçados, eles olhavam para a mesma direção, mas talvez nem fosse necessária tanta beleza, talvez nem se precisasse de Paris.

Caminhavam agora pela Champs-Élysées e estranhavam a quase ausência de carros, a quase ausência de transeuntes, numa manhã tão luminosa como aquela. Estariam mesmo em Paris? Ou era o amor que transformava qualquer São José de Alguma Coisa em Paris? Não: era Paris!

O dia passou e eles mal se deram conta disso. Estiveram em tantos lugares e, no entanto, para ele, que sempre sonhara em visitar Paris, todos os lugares e todas as paisagens ficaram em segundo plano. Estava com ela, e teria sido maravilhoso mesmo em São José de Alguma Coisa.

Ao anoitecer, entram num café e ele pediu “une bouteille de vin, s’il vous plaît”. Permaneceram ali por horas, e ele pôde dizer a ela tudo que vinha sonhando dizer nos últimos dias, ainda em Belo Horizonte. E pôde ouvir dela tudo que desejava e que seu habitual pessimismo sempre insinuava ser impossível. Linda e jovem, com aquele sorriso que o cativara desde o primeiro instante em que se conheceram, ela estava com ele ali, em plena Paris, intercalando cálidos beijos com as palavras que ele sonhara ouvir. Era difícil acreditar que não se tratava de um sonho.

Foram para o hotel, embalados pelo doce enlevo que só Cupido e Baco, juntos, são capazes de proporcionar.  Amaram-se com plenitude. A plenitude no amor, dizia ele consigo mesmo, só é possível assim, quando ainda não se teve tempo para magoar ou ser magoado.

De manhã, ele acordou ainda fruindo, em pensamento, as delícias da noite de amor. Nem queria abrir os olhos. Abria-os um pouco e voltava a fechá-los. Não, não queria admitir que tudo fora apenas um sonho, o mais doce sonho que tivera em sua vida recheada de tão longos períodos de solidão. Estava em Paris, ora essa! Com grande esforço, adquiriu coragem e, de olhos ainda fechados, estendeu o braço para verificar se ela dormia ao seu lado, ali naquela cama, naquele hotel de Paris. Não, ela não dormia ao seu lado; não, não estava num hotel; não, não estava em Paris. Estava em seu pequeno apartamento em Belo Horizonte, que parecia mais frio e triste do que de costume.

Ergueu-se e foi se olhar no espelho. Achou-se mais velho ainda. E ela sendo tão jovem e linda! Mas não se revoltou, nem admitiu que uma gota sequer de amargura maculasse seu espírito. Ao contrário, sorriu e agradeceu a Deus pelo sonho. Acariciou-o ternamente, como havia feito com ela em Paris. E o guardou no cofre das doces ilusões – aquele cantinho especial que nós, que não desistimos do amor, reservamos no coração.

(Do meu livro A aljava de Cupido, publicado em 2016)

Foto por Dimitri Kuliuk em Pexels.com

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguarde!

TRECHO DE TRESAVENTURA, de Guimarães Rosa

Terra de arroz. Tendo ali vestígios de pré-idade? A menina, mão na boca, manhosos olhos de tinta clara, as pupilas bem pingadas. Só a tratavam de Dja ou Iaí, menininha, de babar em travesseiro. Sua presença não dominava 1/1000 do ambiente. De ser, se inventava: – voz menor que uma trova, os cabelos cacho, cacho.

(Primeiro parágrafo do conto TRESAVENTURA, do livro TUTAMÉIA, de Guimarães Rosa)

VOU MORRER QUINTA-FEIRA

  Entre as muitas características de meu novo romance, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, uma delas é que existem personagens e fenômenos muito estranhos. Como, por exemplo, o caso de sô Juquinha, um curandeiro e vidente pra lá de esquisito! Confira abaixo um trecho dedicado a esse personagem:

– Não, sô Janjão, fique sossegado. A primeira novidade é que eu vou morrer quinta-feira – e sô Juquinha disse aquilo com tal naturalidade que era como se ele tivesse o hábito de morrer toda semana.

   – Quê isso, amigo! Isso é loucura…

   – Não, sô Janjão, eu sei que vou morrer quinta-feira.

   – Mas como isso é possível?!

   – Me avisaram. Alguém do outro lado me avisou.

   – Que outro lado?

   – O outro lado… O lado dos que já foram. Um amigo de lá apareceu pra mim e me disse que a minha hora chega na quinta-feira. Mas não se preocupe, sô Janjão: já providenciei tudo. Vim apenas pedir ao senhor o favor de me enterrar. Já fiz uma cova lá no meu quintalzinho. Ficou bem caprichada. É só me botar lá dentro e jogar a terra por cima. Não carece nem de caixão. O corpo da gente daí a pouco apodrece mesmo, né… E a alma sobe rapidinho pro outro mundo. Bobagem gastar com caixão.

Confesso que estou ansioso para apresentrar aqui a capa do livro. Aguardem!

Um abraço,

Durval Augusto Jr.

Foto por julie aagaard em Pexels.com

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DESVENDANDO A LINGUAGEM DOS ASTROS

Sim, eu sou astrólogo também! Em 2019 decidi escrever um livro que servisse como um apoio àquelas pessoas que já estudam ou que têm interesse em estudar e entender um mapa astral. A Astrologia tem sido muitas vezes desprezada por algumas pessoas, umas por simples desinteresse “nessas coisas”, outras por considerarem que “pessoas inteligentes não devem levar essas coisas a sério”. Mas o Universo é um ser que se manifesta em tudo, e é energia, e energia inteligente. Tudo está conectado e coordenado por essa energia inteligente universal. Os astros, portanto, também expressam essa energia inteligente e se fazem espelhar em tudo que nos rodeia, inclusive nossa própria natureza individual. O que não se pode é imaginar que Astrologia é mero estudo de signos zodiacais.

Lancei o livro em plena pandemia e creio que ele tem sido útil a muitos que desejam se aproximar um pouco mais desse fascinante campo do conhecimento humano.

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A ALJAVA DE CUPIDO

A Aljava de Cupido é a reunião de trinta contos selecionados dentre todos aqueles que eu havia escrito até então (2016). Procurei, nesta coletânea, agrupar somente histórias que abordam o relacionamento entre pessoas de vários perfis psicológicos, seus dramas, suas buscas, seus conflitos, sonhos, angústias, conquistas, decepções – sempre preservando espaço para o cômico e o inusitado.

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SEM PAREDES

O romance SEM PAREDES foi escrito entre 2000 e 2001, mas publicado somente em 2012.

Fortunato deixou sua terra natal, ainda em idade tenra, para se lançar no mundo – um mundo sem paredes – numa espécie de fuga e ao mesmo tempo procura de si mesmo. O próprio protagonista narra sua história, talvez sentado numa banqueta rústica em sua cozinha, dirigindo-se, numa linguagem despojada e repleta de expressões pitorescas, a um interlocutor que o escuta até o final.

Com toda sinceridade, Fortunato relata, em várias passagens de seu monólogo, episódios que, conquanto possam afrontar o bom senso pela ausência de verossimilhança, se apresentam carregados do mais profundo realismo humano. è do seu coração e é do coração da humanidade que ele fala o tempo todo.

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O PRIMEIRO LIVRO

Como eu disse, o primeiro livro que publiquei foi em 1999. Trata-se de uma novela (setenta e poucas páginas). Comecei a escrever essa história como uma brincadeira. Lembro que foi num setembro ou outubro do início dos anos 1990. Devido a um acidente, fiquei três semanas licenciado e sem poder sair de casa. Comecei então a rabiscar algo num pedaço de papel. A coisa foi ficando séria e, como resultado, surgiu Fernando Capeta Urubu, título inspirado (mas só o título) no conhecidíssimo Fernão Capelo Gaivota.

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