Reciclando lixo psíquico

Um texto literário pode ter ou não cunho catártico. Não importa.  Se for literatura, é reciclagem de lixo psíquico.  Quando criamos um texto literário, expelimos lixo, e, expelindo lixo, nos depuramos. Mas também trabalhamos esteticamente esse lixo, acrisolando sua matéria no cadinho das exigências estéticas de nosso espírito. Obrigamos nossos demônios a marchar em fila, bem comportados, travestidos, por breve tempo, em soldados que empunham a bandeira da contemplação estética. E levamos o produto à apreciação do leitor, que também tem seus demônios.

   Esses demônios saíram da alma do mundo, desse oceano intangível aonde fomos pescá-los. Essa alma do mundo mora em nós, assim como nós moramos nela. Por isso somos capazes de pescar nela nossos demônios – demônios que são de todos nós.

   Mas não é apenas fazendo literatura que reciclamos lixo. Toda arte é reciclagem de lixo. Qualquer trabalho, aliás, é reciclagem de lixo, é adestramento de demônios. Você recicla lixo e domestica demônios quando trata um doente, defende uma causa, projeta uma casa, planta couves ou varre um pátio. Desde que o faça com amor. Sem amor, estará somente maquiando seus diabinhos.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.