CRIAR É DAR PASSAGEM A UMA URGÊNCIA QUE GRITA

Existe uma brasinha teimosa dentro de mim que não me deixa desistir de navegar nas águas turvas deste rio errante da criação literária.

   Criar é dar passagem a uma urgência que grita dentro de nós. Se aceitamos que algo ou alguém impeça essa passagem, a urgência se manifesta como doença. Criamos para domesticar nossos demônios, convocando nossos anjos para interagir com eles.  Desse amálgama surge a síntese do que somos.

   Por ter consciência disso, essa brasinha teimosa dentro de mim não se apaga. No último 27 de setembro, concluí mais um romance. Antes dele, um livro de contos será apresentado à editora para publicação no início de 2024. Bota teimosia nisso!

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

Reciclando lixo psíquico

Um texto literário pode ter ou não cunho catártico. Não importa.  Se for literatura, é reciclagem de lixo psíquico.  Quando criamos um texto literário, expelimos lixo, e, expelindo lixo, nos depuramos. Mas também trabalhamos esteticamente esse lixo, acrisolando sua matéria no cadinho das exigências estéticas de nosso espírito. Obrigamos nossos demônios a marchar em fila, bem comportados, travestidos, por breve tempo, em soldados que empunham a bandeira da contemplação estética. E levamos o produto à apreciação do leitor, que também tem seus demônios.

   Esses demônios saíram da alma do mundo, desse oceano intangível aonde fomos pescá-los. Essa alma do mundo mora em nós, assim como nós moramos nela. Por isso somos capazes de pescar nela nossos demônios – demônios que são de todos nós.

   Mas não é apenas fazendo literatura que reciclamos lixo. Toda arte é reciclagem de lixo. Qualquer trabalho, aliás, é reciclagem de lixo, é adestramento de demônios. Você recicla lixo e domestica demônios quando trata um doente, defende uma causa, projeta uma casa, planta couves ou varre um pátio. Desde que o faça com amor. Sem amor, estará somente maquiando seus diabinhos.

Durval Augusto Jr. já publicou os seguintes livros: Fernando Capeta Urubu (fábula), 1999, Editora Jornal da Floresta, Belo Horizonte; Almas Tontas (romance), 2006, Editora Armazém de Ideias, Belo Horizonte; Sem Paredes (romance), 2011, Alfstudio Produções, Belo Horizonte; A aljava de Cupido (contos), 2016, Scortecci Editora, São Paulo; Quero matar o prefeito (contos), 2017, Scortecci Editora, São Paulo; Desvendando a linguagem dos astros (Astrologia), 2019, Scortecci Editora, São Paulo; e Amor e guerra em Vale Manso (romance), 2022, Páginas Editora, Belo Horizonte.

AS MARIAS DE ARTUR

Mais um de meus contos:

Branquinho, cabelos louros, bochechas rosadas, do alto de seus seis anos e pouco, o pequeno Artur cruzou pela primeira vez o portão da escola, aferrando-se à mão de dona Marina, sua mãe. Naquele exato instante se iniciava sua vida de obrigações e sustos. Chorou e soluçou, implorando a dona Marina que não o deixasse ali, entregue a um mundo estranho.

Filho único, seu mundo fora até então um tiquinho à toa de mundo: um pai que aparecia de vez em quando, uma mãe calada e triste, uma casinha triste com um terreirinho triste, isolada num canto de bairro triste, um cãozinho triste, e, do outro lado da rua, outra casinha, também isolada e triste, em cuja janela uma vizinha de seus duzentos anos – cálculos feitos pelo pequeno Artur – botava de vez em quando sua carinha, descorada e triste, para ver se haveria alguma coisa para ser vista numa rua onde nunca se via nada.

Pela primeira vez, portanto, o pequeno Artur via pessoas diferentes. A professora era elegante e cheirosa, mas metia medo por causa dos olhos rígidos atrás dos pesados óculos. Alguns meninos o encaravam curiosos, como se ele fosse um extraterrestre. Precisaram, contudo, de poucos minutos para começar a chamá-lo de macarrão, por ser muito branco. Reagiu distribuindo tapas – os olhos de um felino enraivecido, lágrimas brotando e rolando quentes sobre as faces rubras. Reagira assim apenas por não conhecer outro tipo de reação. Não sabia conviver, não reconhecia o mundo.

Com o passar dos dias, contudo, foi se acostumando às esquisitices daquele mundo recém-conhecido. Ficou até amigo do Betinho e do Pardal. No recreio merendava com eles, brincava, brigava…

Ah, e também conheceu o amor. Ou não era amor aquele calorzinho gostoso que ele sentia no peito toda vez que chegava perto da Maria Cecília? Quem disse que não era amor ficar relembrando a vozinha de cristal da Maria Cecília toda noite, depois que se deitava? Por que não seria amor teimar com a mãe, dizendo que “hoje não é sábado não, mãe, hoje tem aula sim!”, só porque necessitava avistar, mesmo que de longe, as madeixas louras da Maria Cecília?

Mas a Maria Cecília não ligava pra ele. Esnobava-o. E ele sofria. Um coraçãozinho de seis anos e pouco sofrendo por um amor não correspondido. Ela parecia preferir o Renato, menino feio e que tinha até chulé! Ele voltava triste pra casa, torcendo pra que dona Marina não lhe perguntasse a razão daquele desânimo; por sorte dona Marina nunca lhe perguntava nada. Mãe triste, casa triste, bairro triste, cachorro triste… Tudo triste. Por que alguém lhe notaria a tristeza? Mas é que nos primeiros dias, logo que começou a sentir aquele calorzinho gostoso, ele estivera alegre. Dona Marina, contudo, não chegara a notar nenhuma diferença.

E à noite ele chorava em silêncio até dormir.

Amou e sofreu por Maria Cecília até os dez anos, quando mudou de escola. Lá conheceu Maria Clara (só dava Maria naquele tempo) e de novo se apaixonou. De novo sofreu. Quem gostava dele era a esquisita da Maria Teresa, dentuça e fanhosa.

Aos doze anos foi a vez da Virgínia, que não era Maria, mas que nem por isso deixou de divertir-se à custa do esquisito Artur. Sim, ele era um menino esquisito – era o que todas as meninas diziam. “Fala esquisito, anda esquisito, olha esquisito – esse menino é todo esquisito!”

Coitado, era esquisito mesmo. Tímido demais, andava olhando pro chão, com seus óculos fundo-de-garrafa; andando, balançava demais os braços; quando falava, a voz falhava, sumia, ele gaguejava. E se apaixonava sempre por uma menina que o esnobava, e sempre havia uma feiosa tentando se aproximar.

E veio a juventude, a faculdade, e tudo se repetiu. Vez ou outra até chegava a namorar alguma garota atraente, mas nesses casos, para tentar manter o relacionamento, acabava tendo que engolir muito sapo para mais tarde cuspir marimbondos. E ficou adulto, firmou-se profissionalmente, mas… sempre havia uma Maria Cecília linda para desprezá-lo e uma Maria Teresa sem graça para tentar seduzi-lo. Aquilo parecia coisa do demônio, um carma, uma maldição! O resultado: o tímido Artur sempre era visto, pelos amigos, de braços dados com quem ele não escolhera – uma Maria Teresa qualquer.

Hoje, já na meia-idade, a maldição permanece. Por isso ele está se encaminhando agora, neste exato momento, para o consultório da doutora Sônia, especialista – dizem – em tratar idiot… quer dizer: homens com esse tipo de “maldição”.

(Do meu livro A ALJAVA DE CUPIDO, de 2016)

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguarde data e local de lançamento!

O COFRE DAS DOCES ILUSÕES

Ele a conhecera havia poucas semanas. Mas estava agora com ela ali, às margens do Sena, observando as águas que rolavam serenas naquela manhã de maio. Paris o surpreendera, pois estava muito mais deslumbrante do que ele havia imaginado. Mas tudo estava mais deslumbrante do que de costume. O amor torna tudo muito mais deslumbrante do que de costume, pensava ele, naquele momento em que só o perfume dela e o pulsar de sua respiração eram suficientes para preencher a vida dele, preencher o mundo. O silêncio que se fazia agora devia ser em homenagem ao amor. Abraçados, eles olhavam para a mesma direção, mas talvez nem fosse necessária tanta beleza, talvez nem se precisasse de Paris.

Caminhavam agora pela Champs-Élysées e estranhavam a quase ausência de carros, a quase ausência de transeuntes, numa manhã tão luminosa como aquela. Estariam mesmo em Paris? Ou era o amor que transformava qualquer São José de Alguma Coisa em Paris? Não: era Paris!

O dia passou e eles mal se deram conta disso. Estiveram em tantos lugares e, no entanto, para ele, que sempre sonhara em visitar Paris, todos os lugares e todas as paisagens ficaram em segundo plano. Estava com ela, e teria sido maravilhoso mesmo em São José de Alguma Coisa.

Ao anoitecer, entram num café e ele pediu “une bouteille de vin, s’il vous plaît”. Permaneceram ali por horas, e ele pôde dizer a ela tudo que vinha sonhando dizer nos últimos dias, ainda em Belo Horizonte. E pôde ouvir dela tudo que desejava e que seu habitual pessimismo sempre insinuava ser impossível. Linda e jovem, com aquele sorriso que o cativara desde o primeiro instante em que se conheceram, ela estava com ele ali, em plena Paris, intercalando cálidos beijos com as palavras que ele sonhara ouvir. Era difícil acreditar que não se tratava de um sonho.

Foram para o hotel, embalados pelo doce enlevo que só Cupido e Baco, juntos, são capazes de proporcionar.  Amaram-se com plenitude. A plenitude no amor, dizia ele consigo mesmo, só é possível assim, quando ainda não se teve tempo para magoar ou ser magoado.

De manhã, ele acordou ainda fruindo, em pensamento, as delícias da noite de amor. Nem queria abrir os olhos. Abria-os um pouco e voltava a fechá-los. Não, não queria admitir que tudo fora apenas um sonho, o mais doce sonho que tivera em sua vida recheada de tão longos períodos de solidão. Estava em Paris, ora essa! Com grande esforço, adquiriu coragem e, de olhos ainda fechados, estendeu o braço para verificar se ela dormia ao seu lado, ali naquela cama, naquele hotel de Paris. Não, ela não dormia ao seu lado; não, não estava num hotel; não, não estava em Paris. Estava em seu pequeno apartamento em Belo Horizonte, que parecia mais frio e triste do que de costume.

Ergueu-se e foi se olhar no espelho. Achou-se mais velho ainda. E ela sendo tão jovem e linda! Mas não se revoltou, nem admitiu que uma gota sequer de amargura maculasse seu espírito. Ao contrário, sorriu e agradeceu a Deus pelo sonho. Acariciou-o ternamente, como havia feito com ela em Paris. E o guardou no cofre das doces ilusões – aquele cantinho especial que nós, que não desistimos do amor, reservamos no coração.

(Do meu livro A aljava de Cupido, publicado em 2016)

Foto por Dimitri Kuliuk em Pexels.com

E vem aí meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, pela Páginas Editora. Aguarde!

TRECHO DE TRESAVENTURA, de Guimarães Rosa

Terra de arroz. Tendo ali vestígios de pré-idade? A menina, mão na boca, manhosos olhos de tinta clara, as pupilas bem pingadas. Só a tratavam de Dja ou Iaí, menininha, de babar em travesseiro. Sua presença não dominava 1/1000 do ambiente. De ser, se inventava: – voz menor que uma trova, os cabelos cacho, cacho.

(Primeiro parágrafo do conto TRESAVENTURA, do livro TUTAMÉIA, de Guimarães Rosa)

VOU MORRER QUINTA-FEIRA

  Entre as muitas características de meu novo romance, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO, uma delas é que existem personagens e fenômenos muito estranhos. Como, por exemplo, o caso de sô Juquinha, um curandeiro e vidente pra lá de esquisito! Confira abaixo um trecho dedicado a esse personagem:

– Não, sô Janjão, fique sossegado. A primeira novidade é que eu vou morrer quinta-feira – e sô Juquinha disse aquilo com tal naturalidade que era como se ele tivesse o hábito de morrer toda semana.

   – Quê isso, amigo! Isso é loucura…

   – Não, sô Janjão, eu sei que vou morrer quinta-feira.

   – Mas como isso é possível?!

   – Me avisaram. Alguém do outro lado me avisou.

   – Que outro lado?

   – O outro lado… O lado dos que já foram. Um amigo de lá apareceu pra mim e me disse que a minha hora chega na quinta-feira. Mas não se preocupe, sô Janjão: já providenciei tudo. Vim apenas pedir ao senhor o favor de me enterrar. Já fiz uma cova lá no meu quintalzinho. Ficou bem caprichada. É só me botar lá dentro e jogar a terra por cima. Não carece nem de caixão. O corpo da gente daí a pouco apodrece mesmo, né… E a alma sobe rapidinho pro outro mundo. Bobagem gastar com caixão.

Confesso que estou ansioso para apresentrar aqui a capa do livro. Aguardem!

Um abraço,

Durval Augusto Jr.

Foto por julie aagaard em Pexels.com

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DESVENDANDO A LINGUAGEM DOS ASTROS

Sim, eu sou astrólogo também! Em 2019 decidi escrever um livro que servisse como um apoio àquelas pessoas que já estudam ou que têm interesse em estudar e entender um mapa astral. A Astrologia tem sido muitas vezes desprezada por algumas pessoas, umas por simples desinteresse “nessas coisas”, outras por considerarem que “pessoas inteligentes não devem levar essas coisas a sério”. Mas o Universo é um ser que se manifesta em tudo, e é energia, e energia inteligente. Tudo está conectado e coordenado por essa energia inteligente universal. Os astros, portanto, também expressam essa energia inteligente e se fazem espelhar em tudo que nos rodeia, inclusive nossa própria natureza individual. O que não se pode é imaginar que Astrologia é mero estudo de signos zodiacais.

Lancei o livro em plena pandemia e creio que ele tem sido útil a muitos que desejam se aproximar um pouco mais desse fascinante campo do conhecimento humano.

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SEM PAREDES

O romance SEM PAREDES foi escrito entre 2000 e 2001, mas publicado somente em 2012.

Fortunato deixou sua terra natal, ainda em idade tenra, para se lançar no mundo – um mundo sem paredes – numa espécie de fuga e ao mesmo tempo procura de si mesmo. O próprio protagonista narra sua história, talvez sentado numa banqueta rústica em sua cozinha, dirigindo-se, numa linguagem despojada e repleta de expressões pitorescas, a um interlocutor que o escuta até o final.

Com toda sinceridade, Fortunato relata, em várias passagens de seu monólogo, episódios que, conquanto possam afrontar o bom senso pela ausência de verossimilhança, se apresentam carregados do mais profundo realismo humano. è do seu coração e é do coração da humanidade que ele fala o tempo todo.

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ALMAS TONTAS

Meu segundo livro saiu em 2006. Almas Tontas retrata, nas palavras do editor André Carvalho,

“os principais sentimentos da alma humana. Predominam, no entanto, os aspectos mais obscuros do ser humano. A maioria absoluta dos personagens emprega as mais sórdidas artimanhas para sobreviver na selva humana de uma grande cidade. A competição é a mola mestra de toda a trama. Um claro reflexo de um tempo em que o êxito pessoal, o sucesso social e a ambivalência de caráter são a bússola que os seres humanos usam para conduzir o incerto, inexplicável e surpreendente navio chamado ‘viver’. Este é o navio tripulado pelas almas tontas que cumprem seu destino nas duras páginas deste pungente romance criado por Durval Augusto Jr. Um destino em que não há horizontes possíveis: todos estamos condenados a viver.”

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O PRIMEIRO LIVRO

Como eu disse, o primeiro livro que publiquei foi em 1999. Trata-se de uma novela (setenta e poucas páginas). Comecei a escrever essa história como uma brincadeira. Lembro que foi num setembro ou outubro do início dos anos 1990. Devido a um acidente, fiquei três semanas licenciado e sem poder sair de casa. Comecei então a rabiscar algo num pedaço de papel. A coisa foi ficando séria e, como resultado, surgiu Fernando Capeta Urubu, título inspirado (mas só o título) no conhecidíssimo Fernão Capelo Gaivota.

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