(Vô Pedro era um velho espevitado. Inquieto, olhos vivos, irreverente. Basta, branca e longa cabeleira emoldurava-lhe o rosto enrugado, mas rijo. Fã dos Beatles, Rolling Stones e de todas as principais bandas de rock dos anos 1960. Às vezes empunhava a guitarra, recordando músicas daquele tempo.
Morava apenas com Nicole, a neta, até o dia em que esta, casando-se, veio propor-lhe:
– Vem com a gente pra BH, vô!
– Não, vou ficar em Montes Claros mesmo. Meu lugar é aqui. Não se preocupe, Nicole, eu me viro. O dia que eu cismar, eu vendo esta casa, pego minha guitarra, esse porcaria desse gato que não me larga, e me mudo pro asilo. Chego lá e sacudo a preguiça daquela velharia – e vô Pedro riu divertido enquanto passava a mão de leve sobre o pelo de Napoleão, o gato.
Não deu outra. Vô Pedro vendeu a casa. Apresentou-se no asilo com uma pequena mala e as companhias de Napoleão e a guitarra.)
Estes são os primeiros parágrafos do conto BRASA TEIMOSA, décimo segundo conto do livro de mesmo título, a ser lançado em breve.
