(Publicado no meu livro A aljava de Cupido)
A bela Melissa acabara de completar seus dezesseis anos. Viera privilegiar a cidade de Tiradentes com a presença de seus esvoaçantes cabelos e seu olhar curioso, enquanto seguia com seus pais pelas ruas de pedras. Para eles, ela era ainda a menininha que outro dia mesmo, do alto de seus dois aninhos, invadia a penumbra do quarto do casal para pedir: posso dormir aqui com vocês? Contudo, era já de mulher aquele corpo que agora se ajustava tão bem dentro do leve vestido de verão. E eram também de mulher o coração, os pensamentos e os suspiros sufocados.
Sentaram-se num banco da praça. Os pais observavam plácidos o vaivém das pessoas, enquanto os olhos de Melissa passeavam inquietos, ávidos por devorar o que pudesse haver de novidade. Era o segundo e último dia de visita à cidade, mas os olhos da menina ainda estavam famintos.
Ergueu-se do banco e caminhou rumo a algo que lhe despertara o interesse.
Aonde você vai, menina? – ouviu o pai dizer para a menina que ela já não era. Vou ali e já volto, pai! – respondeu a mulher de dezesseis anos dentro do vestido de verão. E seguiu resoluta.
Não hesitou em se aproximar do tipo descabelado e de vestes rotas que manipulava pincéis e tintas. Vários quadros estavam expostos ali, ao ar livre, e Melissa os examinava atenta.
O pintor parou para observá-la. Num primeiro momento sentiu-se lisonjeado ao perceber nos olhos dela o prazer que sua pintura lhe proporcionava. Mas quando ela se voltou para ele, sorriu e disse parabéns!, o que ele sentiu permaneceu para sempre inefável. Era amor, e era amor para sempre, e ele sabia disso! Mas era indizível – foi ali, naquele instante fugaz, que ele descobriu que o amor é indizível. E a eternidade inteira coube naquele instante fugaz em que os olhos dele não conseguiram se desviar dos dela. E ela, os lábios trêmulos, os joelhos vacilantes, sentia-se perdida diante daquele olhar que parecia buscar por ela há séculos. Soube naquele instante que jamais esqueceria aqueles olhos.
– Po… posso pintar você? – gaguejou ele com um fiapo de voz.
– Eu adoraria! – ela respondeu, e o sorriso dela o arrebatou de novo.
– Então se sente aqui – propôs ele, puxando para perto dela um banquinho. – Como se chama?
– Melissa.
Iniciou seu trabalho tentando retratar os olhos de Melissa – aqueles que ele jamais esqueceria. As mãos dele ainda tremiam, e os joelhos de Melissa também.
De súbito o pai surgiu e pegou Melissa pelo braço. Arrastou, com certa rudeza, a sua menininha, mas quem ia com ele, tentando resistir e sacudida por soluços, era uma mulher apaixonada de dezesseis anos. Ela ainda se virou para ver o pintor, cujo nome nem teve tempo de perguntar. Mas ele tinha os olhos ocultos, a cabeça inclinada sobre o braço apoiado nos joelhos. Parecia chorar. Desgrenhado, maltrapilho; envergonhado, humilhado. Impotente. Pintara os olhos – somente os olhos – de Melissa.
Seu Jeremias, pai da moça, ignorando os protestos da esposa, empurrou a filha para dentro do carro e partiram sem demora de volta para Belo Horizonte.
Alguns anos depois, Melissa esteve de novo em Tiradentes, mas não obteve nenhuma pista do paradeiro do pintor, que, segundo lhe disseram, estivera apenas de passagem por lá.
Após namorar vários rapazes, os trinta anos de Melissa chegaram e ela se casou.
– Pode não ser uma grande paixão, Michele, mas o Rodrigo é um cara legal, tem uma boa carreira, é sério, confiável…
– E o amor, Melissa, onde fica?
– Não sei onde fica. Pensei que tivesse ficado em Tiradentes, muito tempo atrás, mas sumiu de lá!
Aos quarenta anos veio o divórcio. Mas a Michele não tinha mais contato com ela. Agora desabafava com a Débora, entre um chope e outro, depois do trabalho. E volta e meia se lembrava do pintor maltrapilho que conhecera em Tiradentes.
– Vinte e quatro anos depois e você ainda não tirou esse cara da cabeça, Melissa! Que loucura.
– Não sei, mas algo me diz que ele também, onde quer que esteja, ainda pensa em mim.
– Tudo é possível, né, amiga… Olha, tô indo a São Paulo na próxima semana. Vem comigo? Vou te apresentar meu primo. Divorciado também. Garanto que vai rolar alguma coisa.
– Rola nada, Débora. Relacionamento agora só se for na próxima encarnação. Mas eu topo ir com você. É bom mudar de ares.
Foram. Na manhã seguinte, antes de irem passear no Ibirapuera, Débora ligou para o tal primo, Rodolfo. Combinaram encontro no parque.
As duas acabavam de se sentar para tomar sorvete, quando surgiu à frente delas um sujeito todo engomadinho, de óculos, bigode, meio calvo e com toda pinta de executivo.
– Oi prima, quanto temp… Epa! Essa moça não me é estranha! Não, eu jamais esqueceria esses olhos!
Abriu a pasta e de dentro dela retirou um retrato – ou melhor, o esboço de uns olhos, feito havia décadas, numa cidade mineira chamada Tiradentes.
Ela também reconheceu de pronto os olhos do pintor descabelado e maltrapilho de Tiradentes, escondidos por trás dos óculos do agora executivo paulistano.
Débora, que soubera da história pelo próprio primo, deixou-os aos beijos e abraços no parque e se foi, com a certeza da missão cumprida.
Agora Melissa tem setenta anos, e Rodolfo passou dos oitenta. Ela ainda tem os mesmos doces olhos, e ele ainda os pinta. Eles se amam. É simples.

Aguarde o lançamento de meu novo livro, AMOR E GUERRA EM VALE MANSO. Pela Páginas Editora.
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Um abraço,
Durval Augusto Jr.

O livro A ALJAVA DE CUPIDO ainda pode ser encontrado na Estante Virtual.
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